Bora porongar? A política brasileira tem um senso de humor cruel. No sábado, Flávio Nantes Bolsonaro foi dormir como quem já experimentava a faixa presidencial no espelho. No domingo à noite, as urnas devolveram Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto para mais quatro anos. E, segundo o jornalista Leo Rosas, no momento em que gravava sua análise, o avião do senador cruzava o céu de Cuba com destino a Miami.
No Acre, o roteiro teve a mesma ironia. O senador Márcio Miguel Bittar, que já distribuía cargos e influência antes mesmo da abertura das urnas, acordou com um mapa de poder bem menor do que imaginava.
O sonho do “homem mais poderoso da República”
Para entender o tamanho da queda, é preciso medir a altura do sonho. Eleito, Flávio Bolsonaro teria a chance de comandar uma maioria no Congresso. Poderia indicar até quatro ministros do Supremo Tribunal Federal e articular pedidos de impeachment contra integrantes da Corte, com Alexandre de Moraes no topo da lista.
Não era apenas um projeto de governo. Era um projeto de acerto de contas com o Judiciário.
Flávio Nantes Bolsonaro foi dormir no sábado se considerando o homem mais poderoso da República Brasileira.
O próprio Lula já havia apontado o pano de fundo dessa obsessão. Em entrevista repercutida pelo Portal do Rosas, o presidente disse que a raiva de Flávio por Moraes não tinha relação com o caso Vorcaro, e sim com a prisão de seu pai. Na mesma ocasião, Lula afirmou que o senador “tem o rabo preso com o banco Master, mais do que qualquer outra pessoa”.
O voo para Miami e a pergunta que ficou no ar
Aqui está o ponto central da análise de Rosas. Para ele, a viagem não é um passeio pós-derrota. Ele a interpreta como fuga, motivada pelo temor das investigações. E não economiza nas palavras: os Bolsonaro, diz, “são muito bons de garganta, mas são covardes”.
Há um detalhe que o próprio comentarista faz questão de registrar: ainda não existe processo aberto contra Flávio. O que há, segundo ele, são três inquéritos em andamento. Juridicamente, a diferença é enorme. Politicamente, a pergunta é inevitável: se não há processo, por que tanta pressa em deixar o país logo após a derrota?
Cabe ao senador responder. Até lá, a cena do avião rumo à Flórida fala mais alto que qualquer nota oficial.
O sigilo que nunca foi aberto
O episódio ganha outro peso quando se lembra o embate da reta final. No debate da Band, Lula desafiou Flávio a abrir, junto com ele, os sigilos bancário, fiscal e telefônico. Como o Portal do Rosas mostrou, o senador respondeu com uma lista de exigências, e os sigilos continuaram fechados.
Não fez porque sabe que tem culpa no cartório. Muita culpa no cartório.
A frase é a avaliação de Rosas, não uma sentença judicial. Mas ela resume a dúvida que a campanha bolsonarista nunca conseguiu dissipar. Quem sabe que não tem nada a esconder costuma aceitar o desafio na hora.
Rachadinhas, imunidade e o histórico que pesa
Rosas resgata o passado que acompanha Flávio desde o Rio de Janeiro: o caso das rachadinhas. Na leitura do jornalista, o senador só escapou da investigação e de uma condenação graças à influência do pai, que chegou a promover mudanças no Ministério da Justiça, episódio que envolveu Sérgio Moro.
Também estão na conta os 24 anos de mandatos consecutivos. Para o comentarista, nesse período a imunidade parlamentar funcionou como escudo de impunidade. Sem mandato no Executivo e longe do país, esse escudo agora parece bem mais fino.
O cálculo atribuído ao senador, segundo Rosas, é simples: não repetir o destino de Jair Bolsonaro, que acabou na cadeia. O jornalista também aposta que Miami pode não ser um refúgio eterno. Nos Estados Unidos, avalia ele, a tendência é que em dois anos a Casa Branca passe a ser ocupada por alguém mais moderado.
No Acre, o “dono do Estado” virou baixo clero
Enquanto isso, em Rio Branco, a derrota nacional tem endereço certo. Márcio Bittar se comportava como o grande fiador do bolsonarismo no Acre e dava as cartas antes de o primeiro voto ser contado. A aposta era clara: com Flávio no Planalto, Bittar seria o canal de poder do governo federal no estado.
A aposta não se confirmou. Na avaliação de Rosas, nos próximos quatro anos Bittar será apenas mais um senador do baixo clero, sem acesso privilegiado ao governo, sem influência e, nas palavras do comentarista, “minúsculo”.
Aquele que se considerava o dono do Acre tornou-se minúsculo também.
A conta ainda não foi fechada
A derrota nas urnas é um capítulo. As investigações são outro. Rosas não tem dúvida de que, à medida que os inquéritos avançarem, a verdade virá à tona. Cabe às instituições provar ou descartar as suspeitas, com transparência e sem blindagem.
O desfecho, por ora, é simbólico. O homem que seria o mais poderoso do Brasil foi visto rumo a Miami. O dono do Acre virou figurante.
Fica a pergunta que nenhum discurso de campanha respondeu: se não há nada a temer, por que os sigilos continuam fechados e o avião voava em direção à Flórida? O eleitor merece essa resposta. A Justiça também.
