Quem tem um diploma legítimo nas mãos costuma torcer para que alguém confira sua autenticidade. Facilita a vida, encerra a discussão e desmoraliza o denunciante. No Acre, porém, a lógica parece andar de ré.
A defesa da governadora e candidata à reeleição Mailza Assis Cameli e de sua vice na chapa, Jéssica Sales, protocolou embargos no Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC). O alvo é a decisão que manda checar, na própria instituição de ensino, a autenticidade do certificado de licenciatura em Pedagogia apresentado no registro de candidatura. A defesa também pede a extinção da ação.
Traduzindo: a defesa não quer que a fonte seja consultada.
O que decidiu o desembargador
Na segunda-feira, o corregedor do TRE-AC e relator do processo, desembargador Samoel Evangelista, negou os pedidos de arquivamento feitos pela defesa. Na mesma decisão, oficiou o Instituto de Ciências Sociais e Humanas (ICSH), em Valparaíso de Goiás, onde Mailza afirma ter cursado Pedagogia.
O instituto recebeu prazo de cinco dias para atestar se o certificado é verdadeiro e enviar os assentamentos acadêmicos da governadora. O material será anexado ao processo movido pela coligação do candidato Alan Rick.
É o caminho mais elementar de qualquer apuração documental: perguntar a quem emitiu o documento se ele foi de fato emitido. Nada mais, nada menos.
A estratégia: ganhar tempo
Os embargos foram protocolados na noite seguinte à decisão. Segundo a análise do Portal do Rosas, que revelou o caso, o objetivo da defesa é ganhar tempo e evitar a diligência. A defesa quer que a Justiça Eleitoral aceite as declarações já anexadas aos autos e dispense tanto a consulta à instituição quanto o depoimento do atual responsável pela empresa.
Recorrer é direito de qualquer parte, e ninguém está obrigado a produzir prova contra si. Ainda assim, a pergunta se impõe: por que uma defesa segura da autenticidade de um documento se opõe a que ele seja conferido na origem?
Eles não querem essas diligências. Querem que a Justiça Eleitoral aceite como verdadeiras as declarações já apresentadas.
Há ainda outro complicador. De acordo com o Portal do Rosas, o atual responsável pela instituição está sumido e não teria participado de qualquer irregularidade. O portal sustenta que eventuais problemas envolveriam gestões anteriores do instituto. É justamente esse ponto que a diligência, se mantida, ajudaria a esclarecer.
A denúncia que virou processo
O caso não nasceu ontem. Foi o Portal do Rosas quem denunciou que o certificado de conclusão apresentado por Mailza seria falso. No fim de setembro, o portal também noticiou que a Polícia Federal seria acionada para investigar a autenticidade do documento usado no registro de candidatura ao governo.
Desde então, a pergunta segue sem resposta pública convincente: onde está o diploma de pedagoga? Ressalte-se que a autenticidade do certificado ainda está sob análise da Justiça Eleitoral e não há decisão definitiva sobre o caso.
O precedente que ronda o Palácio
Para o jornalista Leo Rosas, a memória recente pesa. Ele lembra que, quando apontava que a situação do ex-governador Gladson Cameli, ironizado como “o Dancinha”, não tinha saída, muita gente desdenhava.
Muita gente dizia que não ia dar em nada. Deu.
Segundo o portal, Gladson está nos últimos recursos antes do cumprimento da sentença do STJ. Rosas aplica agora a mesma leitura à sucessora: na avaliação dele, a situação de Mailza “também não tem jeito”.
Favorita nas urnas, sob ameaça nos tribunais
Rosas não esconde o cenário eleitoral: Mailza é favorita e pode vencer. O alerta dele, porém, vai além da apuração dos votos.
Fatalmente você vai jogar o voto fora, porque fatalmente ela terá os seus direitos políticos cassados, o mandato cassado.
Na avaliação do jornalista, uma eventual cassação levaria a uma nova eleição, sem data previsível e certamente não antes do fim do ano. Trata-se de uma projeção, não de uma decisão judicial. Mas ela expõe o risco concreto de um governo eleito sob contestação.
Nesse ponto, o perfil do relator pesa. Rosas descreve Samoel Evangelista como um decano “muito cuidadoso”. E deixa no ar a pergunta que começa a circular nos bastidores: ela será diplomada?
A pergunta que não quer calar
Uma governadora que disputa a reeleição deve ao eleitor algo simples: transparência sobre a própria trajetória. Se o certificado é autêntico, basta que o ICSH confirme e o assunto morre ali, com o denunciante desmoralizado.
Mas, se a confirmação é tão simples, por que tanto esforço para impedir que ela aconteça? O que a defesa teme encontrar em Valparaíso de Goiás?
