O câncer não tira férias. Não espera licitação, não respeita calendário eleitoral e não se comove com nota oficial. Mesmo assim, pacientes do Hospital do Câncer, atendidos pela Unacon (Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia), voltaram a fazer o que nenhum doente deveria precisar fazer: pedir socorro em público para ter acesso aos medicamentos de que precisam para continuar vivos.
O alerta chegou a este articulista em forma de card e de mensagem. A explicação que circula nos bastidores é tão simples quanto vergonhosa: o fornecedor não recebeu e, por isso, não entrega os medicamentos.
Tradução livre: a conta não foi paga, e quem está pagando é o paciente.
Um pedido de socorro que o Palácio preferiria não ouvir
A mensagem recebida é de alguém que está, nas próprias palavras, enfrentando “mais uma luta”. Não é panfleto partidário nem texto de marqueteiro. É o relato de quem convive com a dor, o medo e a incerteza de não saber se o remédio chegará a tempo.
“O câncer não espera, a doença não faz pausa. É revoltante para os pacientes oncológicos.”
O texto aponta, sem rodeios, onde está o problema: medicamentos de alto custo, indispensáveis ao tratamento, que não chegam em tempo hábil. E dá nome aos responsáveis indiretos: a burocracia, a falta de planejamento e a insensibilidade de quem tem o dever de garantir o acesso à saúde.
“Gestão pública exige competência, planejamento e, acima de tudo, empatia. Não basta ocupar cargos e assinar documentos. É preciso compreender que decisões administrativas têm consequências reais na vida das pessoas.”
Há uma lição de administração pública nessas linhas que muito secretário com crachá e carro oficial ainda não aprendeu. Um atraso de pagamento, que no gabinete vira apenas mais um processo na pilha, na enfermaria vira tratamento interrompido.
O que está nas entrelinhas: não é falta de remédio, é falta de pagamento
Vamos ao ponto central. Remédio oncológico não some da prateleira por obra do acaso. Quando o fornecedor suspende a entrega por falta de pagamento, o problema não é de estoque: é de caixa e de prioridade.
E aí cabe a pergunta que nenhuma assessoria de imprensa gosta de responder: se falta dinheiro para pagar quem fornece medicamento a paciente com câncer, para onde está indo o dinheiro?
Este portal já vem mostrando, em reportagens como “Os bastidores de um governo em desmonte no Acre”, os sinais de uma máquina administrativa em frangalhos. A falta de remédio na Unacon não é um episódio isolado. É sintoma.
Um Estado que não paga ninguém
O diagnóstico deste articulista é duro, e é apresentado aqui como tal: a saúde está um caos, o Acre está quebrado e o governo não está pagando a ninguém. A informação que chega aos bastidores é de que, a partir de segunda-feira, milhares de trabalhadores serão colocados no olho da rua.
Na avaliação desta coluna, parte expressiva desse rombo tem nome: incompetência e corrupção. É uma acusação política grave, e sua confirmação cabe às instituições de controle. Mas o efeito prático já está documentado no card que circula pedindo socorro: quem paga a conta somos nós.
A administração estadual foi corroída pelo câncer da incompetência e da corrupção.
A poucos dias da eleição, a campanha anda e o remédio não
O contraste é obsceno. Estamos a poucos dias de uma eleição, e a governadora Mailza Cameli caminha, segundo o cenário atual, para a vitória. A estrutura de campanha funciona. O palanque funciona. O que não funciona é a farmácia da Unacon.
É isso que o povo acreano quer? Um governo que encontra fôlego para disputar votos, mas não encontra recursos para garantir quimioterapia?
O diploma na mira da Justiça
Há ainda uma sombra jurídica sobre a governadora. Este articulista sustenta que Mailza teria apresentado um certificado de conclusão do curso de Pedagogia falso. Se comprovado, trata-se de crime, e a palavra final caberá à Justiça.
Mas é preciso colocar as coisas em perspectiva. Um papel falso, se confirmado, é crime. Crime pior é deixar pessoas morrerem por falta de medicamento.
A mensagem do paciente toca justamente nessa ferida: a realidade costuma ser enfrentada com silêncio, justificativas intermináveis e promessas que não resolvem a urgência de quem está doente.
“É preciso cuidar enquanto há vida.”
A pergunta que fica
O próprio paciente encerra seu desabafo com a pergunta que deveria estar pregada na porta de cada gabinete do Palácio Rio Branco:
“E se fosse você ou alguém da sua família, você aceitaria essa espera?”
Eu não aceitaria calado. E, na opinião desta coluna, votar em Mailza Cameli será como jogar o voto fora. Cedo ou tarde, ela terá de acertar as contas com a Justiça.
Até lá, fica a provocação ao governo: quando o Estado vai dizer, com documentos e datas, quanto deve aos fornecedores da Unacon e quando os pacientes terão seus remédios de volta? Ou a resposta também vai ficar para depois da eleição?
