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    + 100 dias do governo Gladson Cameli


    Por Cesário Campelo Braga

    Nesse dia 10, Gladson Cameli completa 100 dias de seu segundo mandato de governador, mas a conta certa são 1561 dias, período em que o povo do Acre vive sob o comando do maestro Gladson Cameli.

    Avaliar esses 100 dias sem levar em consideração o mandato passado é no mínimo desonestidade intelectual e, por mais que ele tenha sido vitorioso na avaliação das urnas, cabe reflexão.

    No que tange à efetividade – cumprimento do plano de governo e promessas feitas na campanha de 2018 – é interessante olhar os números do acompanhamento feito pelo G1 sobre as promessas dos políticos.

    Segundo o site, Gladson fez 68 promessas na campanha de 2018, das quais cumpriu em totalidade apenas 14, algo em torno de 20,6%, deixou de cumprir 45 (66%) e cumpriu em parte apenas 9 (13,4%). Números pífios quando comparados com o resultado eleitoral, aparentemente o povo do Acre não levou em consideração esses dados nas eleições.

    Os números frios não dimensionam o tamanho da ineficiência administrativa e gerencial do governo Gladson Cameli, mas, como disse o senador Marcio Bittar, aliado do governo, essa gestão é incapaz de elaborar projetos se quer para gastar o dinheiro das emendas parlamentares, que, segundo o senador, muitas vezes voltam por causa dessa ineficiência.

    Qualquer cidadão acreano poderia tecer um rosário de problemas que são sentidos no dia a dia, que vão desde estagnação da economia e consequente ampliação do desemprego e pobreza até as diversas precariedades dos serviços públicos de responsabilidade do estado, porém eu gostaria de me deter naquilo que infelizmente tem sido a principal marca do governo na imprensa local e nacional: os escândalos de corrupção.

    No primeiro mandato do governador (2019/2022), só para exemplificar, tivemos as Operações: “Pratos Limpos”, que investiga corrupção em licitações da merenda escolar, “Trojan” que investiga fraude na compra de computadores, “Toque de Caixa” no DEPASA que resultou na prisão do ex-diretor-presidente da instituição, “End Of Time” que investiga o favorecimento e direcionamento de licitações com dinheiro do combate ao COVID19, entre outras, e obviamente a operação Ptolomeu que acusa o próprio governador Gladson Cameli de ser o chefe de uma organização criminosa que desviou mais de 800 milhões dos cofres públicos.

    Diante de tantas investigações e suspeitas, o que justificaria uma vitória nas urnas? Tida como a principal avaliação de qualquer governador e governo que disputa uma reeleição? Os mais apaixonados diriam que foi o carisma do governador e a estratégia sempre citada de não atacar adversários e não guardar rancor. Fatores que devem ser pesados, mas que não podem ser tidos como decisivos.

    Sei que avaliar as eleições não foi o intuito inicial, mas excluir esse fator dos 1561 dias de governo seria, no mínimo, um descuido, tendo em vista que o resultado das urnas em uma reeleição é uma avaliação da satisfação do povo com o governante.

    Na minha modesta opinião, existiram três fatores que foram decisivos para a avaliação positiva de Gladson nas urnas e nenhum deles passa pelos resultados medíocres obtidos pelo governador em seu primeiro mandato.

    Primeiro, a nacionalização das eleições, que opuseram Bolsonaro e Lula e que no Acre produziu a disputa Gladson e Jorge Viana. A vitória de Bolsonaro e sua popularidade no Acre foram um catalisador de votos para o governador.

    Segundo, a incapacidade da oposição de montar um bloco sólido de disputa. As brigas históricas e a ausência de diálogos que pairassem acima das picuinhas paroquiais não permitiram que se catalisasse toda a insatisfação contra o governo de forma coesa em um projeto político e consequente candidatura.

    Por fim, e na minha opinião, o fator mais relevante foi o abuso do poder político e econômico, isso mesmo, a compra de votos, possivelmente com dinheiro oriundo dos diversos esquemas de corrupção que estão sendo investigados. É rotina nas rodinhas sobre política o debate sobre os montantes vultuoso gasto nas eleições, só a justiça que não viu.

    Quanto aos 100 dias de 2023, acredito que a terceira fase da Operação Ptolomeu, que aprofunda a investigação da organização criminosa instalada no governo do Acre e que bloqueou 120 milhões em patrimônio dos investigados – principalmente do governador Gladson Cameli – e a Operação Fata Morgana, que investiga um contrato de mais de 70 milhões do DERACRE com indícios de direcionamento e superfaturamento, são o cartão de visitas de como será esse segundo mandato.

    Pra mim a síntese mais verdadeira desse período é que o Acre está sob a batuta de um maestro sem mãos e sem partitura, cuja parte da orquestra está afanando os instrumentos enquanto os sonoplastas tocam um playback de Beethoven interpretado pela filarmônica de Berlin. O público, na escuridão do teatro, aplaude, sem conseguir ver o que realmente está acontecendo.

    Talvez daqui uns dias a justiça desligue o playback e acenda as luzes, trazendo à tona a verdade dessa ópera bufa, impedindo o próximo ato delituoso. Aguardemos.

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    vale a leitura