O Preço do Show “Grátis”

2–3 minutos

Abram-se as cortinas, acendam-se os refletores e soltem o som da sanfona. No grande picadeiro das feiras agropecuárias do norte, a plateia aplaude de pé, inebriada pelo espetáculo. “É de graça!”, grita o cidadão na pista, estendendo o copo de cerveja para o alto, celebrando a generosidade dos deuses do entretenimento público.

Mal sabe ele — ou finge não saber — que a entrada custou os olhos da cara. E o fígado. E o rim.

A aritmética do absurdo foi desenhada em linhas nítidas no último dia 2 de junho, quando os números do erário vieram a público sem maquiagem. A Secretaria de Indústria, Comércio e Serviço — aquela pasta que, pelo nome, deveria estar preocupada em atrair fábricas, gerar empregos e colocar o estado no mapa da modernidade — transformou-se, vejam só, na maior agência de turismo e eventos da região. Entre os anos de 2022, 2025 e o primeiro semestre deste ano, a bagatela de R$ 131.100.000 evaporou em fumaça de palco e caixas de som.

Para quem gosta de proporções, o cardápio é indigesto: 85 milhões e 200 mil reais foram carimbados sob o eufemismo de “promoção comercial”. Isso representa 60% de tudo o que saiu da pasta. Enquanto isso, a ciência, a tecnologia e a difusão de conhecimento científico — teoricamente o coração do desenvolvimento — minguaram com míseros 7,6 milhões. A indústria, coitada, recebeu 10,7 milhões de esmola. No reino do pão e circo, o microfone do artista pop vale dez vezes mais que o laboratório do pesquisador.

Mas o diabo, como sempre, mora nos detalhes e nos caminhos tortuosos que o dinheiro percorre. Para que a dinheirama chegue ao palco da Expo Juruá ou de qualquer outra feira da temporada, o erário faz curvas sinuosas, passando por “atravessadores” institucionais de dar nó em cabeça de bacalhau. Entram em cena entidades que nada têm a ver com o ramo da música, ONGs de fachada e até a tal “Casa da Amizade”, umbilicalmente ligada a clubes de serviço, que abocanhou a impressionante soma de 44 milhões e 800 mil reais.

Por que um repasse direto ao artista não basta? Por que o dinheiro público precisa flanar por contas de terceiros antes de pagar o cachê? A sabedoria popular, escolada em décadas de escândalos, sabe a resposta antes mesmo que os tribunais de contas terminem de ler os balancetes. É o velho duto. O acerto de gaveta. O superfaturamento onde o artista assina por dez, recebe cinco, e o resto se perde no éter da corrupção, alimentando esquemas de lavagem de dinheiro que acontecem ali, à luz do dia, debaixo da barba de uma população anestesiada.

Falou-se muito no passado. Prometeu-se rigor. Mas a prática não apenas continuou, como se intensificou, ganhando contornos de deboche. Em final de governo, então, a porteira se abre de vez. O dinheiro precisa correr, os contratos precisam ser assinados e a poeira das arenas de rodeio serve perfeitamente para cobrir os rastros das cifras milionárias que vão embora no jatinho do cantor da moda.

O show, de fato, não pode parar. Mas enquanto a música toca e o povo dança na ilusão do “grátis”, a conta da saúde, da segurança e do futuro do estado fica protestada em cartório. Quando as luzes se apagarem e o silêncio voltar ao parque de exposições, restará apenas a ressaca. Uma ressaca de 131 milhões de reais.