A Rotina do Absurdo: Quando o Ovo da Serpente Choca

2–4 minutos

Um retrato da banalização da violência nas ruas do Acre

Viver muito tem suas vantagens, mas carrega também o peso incontornável das memórias. Aos 61 anos, confesso que já vi e vivi muita coisa neste pedaço de chão. Tem assuntos que, por instinto de sobrevivência e responsabilidade com quem depende de mim, a gente prefere evitar. Afinal, se as próprias forças de segurança parecem acuadas, por que eu me colocaria na linha de frente? Mas há momentos em que o silêncio sufoca mais do que o medo.

O que me assombra profundamente hoje é a anestesia geral, a banalização da violência e o desrespeito absoluto pela vida. Coisas que deveriam nos paralisar de pavor estão sendo naturalizadas. No último fim de semana, os sites locais noticiaram um episódio que beira o macabro. Agentes de segurança foram até o bairro do Amapá verificar o sinal de uma tornozeleira eletrônica. Ao chegarem ao local, encontraram o aparelho na tomada, carregando. O detalhe estarrecedor? A tornozeleira ainda estava presa à parte de uma perna. Faltava o resto do corpo do monitorado, que só no dia seguinte começou a ser encontrado, em pedaços, espalhado por vários pontos de Rio Branco.

Esquartejar um ser humano e espalhar seus membros pela cidade é uma barbárie que arrepia a alma. Inevitavelmente, esse horror me arrastou de volta ao passado, à época tenebrosa do Esquadrão da Morte no Acre. Eram dias em que se tornou tragicamente comum encontrar corpos sem cabeça e cabeças sem corpos. Pessoas eram ceifadas com motosserras, e cadáveres eram atirados nas portas dos veículos de comunicação como um recado sangrento para calar a imprensa.

Lembro-me bem de outubro de 2017. Naquela ocasião, o então governador Tião Viana conseguiu reunir em Rio Branco governadores de todo o país e diversos ministros de Estado. O alerta foi dado de forma cristalina: o “ovo da serpente” do tráfico de drogas nas fronteiras e do crime organizado estava prestes a chocar. Pediu-se urgência, avisou-se que a situação não era brincadeira. Mas o aviso foi negligenciado. O ovo chocou, e hoje o crime dita as regras nos bairros da nossa cidade.

Enquanto o caos se instala na porta das nossas casas, o silêncio impera na política. Estamos à beira de uma eleição, e nenhum dos candidatos ao governo tem a coragem de tocar na ferida da Segurança Pública. Será medo? Se eles, blindados pelo poder, têm medo, calculem nós, cidadãos comuns. Para piorar, a própria pasta parece à deriva. Experimente perguntar nas ruas o nome do atual secretário de Segurança Pública. Quase ninguém saberá dizer que se trata do coronel da reserva Américo Gaia. O sistema parece mais preocupado em abrigar militares da reserva acumulando salários do que em combater efetivamente a criminalidade.

A audácia é tanta que os bandidos não escolhem mais nem CEP. Na madrugada de domingo para segunda-feira, uma agência do Banco Santander foi completamente saqueada. Os criminosos levaram toda a fiação, furtaram até os itens do banheiro. Fizeram a limpa. Tudo isso aconteceu a poucos metros do quartel da Polícia Militar e da Prefeitura. Um escárnio a céu aberto.

Onde fomos parar? Quando foi que aceitamos conviver com o absurdo como se fosse apenas mais um dia nublado? Resta no peito um misto de revolta, medo e uma tristeza que não cabe nas palavras. Pobre da nossa gente. Pobre do nosso Acre.