Olá, bora porongar?
O Acre atravessou, na última semana, uma daquelas páginas que não se apagam com nota oficial, vídeo ensaiado ou sorriso treinado diante das câmeras.
Pela primeira vez na história, um governador acreano — agora ex-governador — foi condenado por crimes de corrupção e apontado como chefe de uma organização criminosa. Gladson de Lima Cameli, o Dancinha, recebeu no Superior Tribunal de Justiça uma condenação de 25 anos e nove meses de prisão, além de multa milionária.
A decisão foi unânime.
Onze votos.
Curiosamente, o mesmo número do partido ao qual pertence.
Nos próximos dias, o acórdão deve ser publicado no Diário da Justiça. A partir daí, a inelegibilidade deixa de ser conversa de bastidor e passa a integrar, oficialmente, a biografia política do homem que passou anos vendendo leveza enquanto o Acre afundava em denúncias graves.
Durante muito tempo, acompanhei esse caso quase sozinho entre os jornalistas do estado. Desde dezembro de 2021, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Ptolomeu, estava claro que não se tratava de um ruído passageiro, mas de uma investigação capaz de estremecer as colunas do poder no Acre.
Na semana passada, preferi o silêncio.
Deixei que falassem.
Deixei que alguns tentassem normalizar o absurdo.
Deixei que outros, ainda agarrados ao velho teatro da conveniência, defendessem o indefensável.
Mas é preciso dizer: não há nada de normal nisso.
Gladson tentou se apresentar como vítima de perseguição política. É um argumento frágil, quase infantil. A Operação Ptolomeu começou em dezembro de 2021, quando o presidente da República era Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça era Anderson Torres — ambos politicamente próximos ao então governador. Se houve perseguição, fica a pergunta: quem o perseguia? Os aliados?
No vídeo em que tentou transmitir serenidade, Cameli afirmou que toda pessoa pública está sujeita a investigações e processos. Não é verdade. Investigação criminal, denúncia e condenação por corrupção não são pedágios naturais da vida pública. São exceções graves. São sinais de colapso moral e institucional.
Antes dele, o Acre teve governadores como Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana. Nenhum deles viu a Polícia Federal entrar no Palácio Rio Branco por suspeitas dessa natureza. Nenhum terminou condenado criminalmente por desvio de dinheiro público.
Gladson foi o primeiro.
E talvez por isso tente tanto disfarçar o tamanho do tombo.
Diz que está se defendendo com confiança. Outra meia-verdade. Sua estratégia, ao longo dos anos, foi menos demonstrar inocência e mais tentar desmontar o processo: questionar provas, anular procedimentos, barrar o avanço da ação. Não conseguiu.
Também afirmou que o Supremo Tribunal Federal teria considerado ilegais muitas acusações contra ele. De novo, distorce. O STF determinou a retirada de alguns relatórios financeiros do processo, e isso foi cumprido. Mas tais documentos, segundo a própria condução do caso, não sustentaram nem a denúncia nem o voto condenatório. Tanto que o julgamento prosseguiu com autorização do próprio Supremo.
Há uma diferença enorme entre dizer “existe um processo pedindo condenação” e reconhecer o fato concreto: há uma condenação.
É claro que ainda cabem recursos. Embargos de declaração no STJ. Recurso extraordinário ao STF, se houver alegada violação constitucional. Mas recurso não é absolvição automática, tampouco mágica capaz de transformar unanimidade em perseguição.
A decisão foi pesada.
A votação foi unânime.
E o desgaste político é devastador.
Enquanto isso, o ex-governador insiste em se dizer perseguido. Mas perseguido, mesmo, foi o povo acreano — que depositou confiança, entregou votos e agora assiste à ruína de um projeto de poder envolto em suspeitas, processos e condenações.
E há mais.
Gladson já virou réu em outro processo, o chamado Caso Colorado. Outros procedimentos ainda rondam seu horizonte jurídico. As medidas cautelares impostas contra ele foram prorrogadas por mais um ano. Sua situação não é de tranquilidade. É de cerco.
Talvez, em vez de pensar em eleição, palanque e retorno triunfal, ele devesse gastar energia com questões mais urgentes. Como preparar a própria defesa. Ou, quem sabe, pedir à amiga governadora que pense numa cela com certo conforto institucional.
Coitado desse perseguido…
Fui.
Um forte abraço.
Um cheiro do Rosas.
Vida que segue.
