Jaz um jornalismo: Obituário da atual imprensa do Acre (a terra do já teve).

2–3 minutos

Por Chico Araújo*

Com a data máxima vênia, atrevo-me a rabiscar breve colóquio [não aqueles flácidos para acalentar bovinos] sobre a pusilanimidade no ofício de informar. Irei direito ao ponto desse arrazoado: a reflexão acerca do jornalismo exercido hodiernamente no Acre.

Não é intenção ferir susceptibilidades. Como dito, é uma ponderação da abordagem dispensada sobre temas sensíveis envolvendo próceres da política (ou não) locais.

Aprendi em mais de 30 anos de jornalismo a lição básica: “jornalismo tem lado, mas não pode brigar com os fatos”. Aqui, entendo, que “o lado” é o da honestidade intelectual, da exposição correta dos fatos.

Na última quarta-feira (15) a Corte Especial do STJ (Superior Tribunal de Justiça) tornou réu o governador do Acre [Gladson Cameli, do PP] por suposto esquema de corrução, renovou [por mais um ano] as medidas cautelares, decretou a indisponibilidade, e decidiu, por hora [informou a relatora do caso, ministra Nancy Andrighi], não o afastar do cargo. Decisão unânime.

Esse é o fato.

Curioso [é dever do ofício], passei a compulsar a imprensa do Acre [onde atualmente não há mais nenhum jornal impresso] sobre o decisum do STJ. Clique aqui, ali, acolá… Resumo da ópera: em praticamente todos os sites, o mesmo tom: “sem fatos novos”, “STJ decide não afastar Gladson do cargo de governador”…

O não afastamento de Gladson é apenas parte do veredito do tribunal.

Dizer não haver “fatos novos” é menoscabar a inteligência alheia.

O STJ tornou réu o governador, que será julgado pelos seguintes crimes: organização criminosa, corrupção nas modalidades ativa e passiva, peculato, fraude à licitação e lavagem de dinheiro [no terno correto, branqueamento de capitais]. Ademais, a Corte Especial do STJ renovou as medidas cautelares e decretou a indisponibilidade dos bens dos acusados (agora, réus).

Pois bem!

Fiquei a matutar. Devo ter clicado em sites do planeta B612 [do clássico da literatura, no qual o personagem central vive sozinho, apenas com três vulcões, algumas de baobás e uma rosa, e viaja por seis planetas diferentes para, enfim, chegar à Terra e entender o sentido das coisas), e não em URLs da imprensa acreana.

Eram devaneios. Não conectei portais do planeta B612. Acedi, sim, a sites da imprensa do Acre.

Granjeado do sentido da quimera, a massa cinzenta me conduziu ao garboso tempo dos periódicos Diário do Acre, Repiquete, O Varadouro, Folha do Acre, Gazeta do Acre, O Rio Branco, Página 20, e das rádios Difusora e Andira. Quanta falta eles nos fazem em dias atuais.

Era mais um devaneio.

Cai na real. Aqueles periódicos [de jornalismo informativo, corajoso e investigativo] são coisas do passado, estão todos no obituário da “terra do já teve”.

Para amainar a reminiscência do impetuoso “jornalismo que o Acre já teve”, e na falta de um “quebe”, de uma “salteñas” ou do inesquecível “tacacá da Base” para libar nesse clima seco do Cerrado, onde vivo por quase três décadas, pensar o pensamento pensado do [meu amigo] jornalista Ricardo Kotscho, in verbis:

Parece que as novas gerações não querem escrever reportagens, e sim editoriais. E a reportagem é o que há de mais importante”.

Ex positis, concluo, “jaz no Acre o jornalismo” garboso de outrora.

*Chico Araújo é jornalista e advogado atuante no Distrito Federal