Entramos em uma semana que pode, e deve, entrar para a história do Brasil. Pela primeira vez, veremos um ex-presidente da República e militares de alta patente sentados no banco dos réus para serem julgados por crimes contra a própria democracia que juraram defender. Os atos antidemocráticos, cinicamente chamados de “patrióticos” por seus autores, estão prestes a receber a chancela que merecem: a de crime.
E não se enganem, a condenação é o caminho mais provável. As provas de que Jair Messias Bolsonaro e seu entorno planejaram um golpe de Estado para se perpetuarem no poder são robustas, são fartas. A tentativa de melar o processo democrático não foi um delírio ou uma bravata de zap, foi um plano articulado que, por muito pouco, não mergulhou o país novamente na escuridão.
Os defensores do ex-presidente golpista agora se apegam a uma narrativa pueril: a de que o golpe não se concretizou, logo, não houve crime. Ora, que argumento raso. Se o golpe tivesse obtido êxito, não estaríamos discutindo justiça. Aliás, talvez não houvesse mais Justiça, nem Congresso, nem imprensa livre. Pessoas como eu, que nasceram sob a bota da ditadura de 64 e viveram 25 anos sob um regime que torturava, matava e exilava, sabem bem o que significa o silêncio imposto pela força.
Hoje, esses mesmos que flertaram com a ruptura bradam contra uma suposta “ditadura do Judiciário”. Que brincadeira de mau gosto. Ser julgado pelos próprios crimes virou sinônimo de ditadura? É o cúmulo do cinismo. Para justificar o injustificável, criam teorias conspiratórias, alegando que os ministros da Primeira Turma do STF, responsáveis pelo julgamento, são “aliados do governo” e condenarão Bolsonaro por perseguição.
A memória, para essa gente, parece curta. Vamos aos fatos. Dos cinco membros da Primeira Turma, três deles – Luiz Fux, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia – votaram em abril de 2018 para manter Luiz Inácio Lula da Silva na prisão, negando um Habeas Corpus que poderia tê-lo feito candidato naquele ano. Sim, os mesmos ministros hoje acusados de “petistas” garantiram que o favorito nas pesquisas fosse alijado da eleição com base numa condenação proferida por um juiz que o próprio STF declarou parcial. A covardia de ontem, que abriu as portas para a ascensão de Bolsonaro, é a ironia da história de hoje.
E por falar em ironias, a maior delas atende pelo nome de Alexandre de Moraes. Odiado pela extrema-direita, que o vê como um carrasco, Moraes só chegou ao Supremo Tribunal Federal porque essas mesmas forças políticas deram um golpe na ex-presidente Dilma Rousseff. Foi Michel Temer, o “golpista”, quem o nomeou. A criatura se voltou contra o criador.
O mundo não roda, ele capota. E como capota. Nesta semana decisiva, a democracia brasileira tem a chance de se olhar no espelho e dizer: nunca mais. Que a Justiça seja feita, não como vingança, mas como afirmação de que, neste país, o tempo dos aspirantes a ditador acabou.
