Por Francisco O. D. Veloso*
Vivemos dias delicados. Este é um daqueles momentos que entram para a história. Entra para as estatísticas. Entra para a história de mais de 30.000 pessoas, famílias, que passaram por uma situação traumática. Entrará, certamente, para a História do Acre.
Esta não é uma história somente sobre uma enchente. É uma história sobre descaso político. É consequência.
No futuro, os livros de história vão recontar esta história. O que hoje vivemos, experienciamos no cotidiano torna-se uma narrativa. As mensagens trocadas entre as pessoas, as fotos e vídeos distribuídos através de diversas plataformas, tudo isso registra, documenta o evento.
Os jornais – escrito, rádio e TV, os blogs, todos contribuem. Então, precisamos ajudar os pesquisadores do futuro, para que possam reconstruir esta tragédia em uma narrativa que capture as suas muitas facetas.
Toda narrativa precisa de um elemento desencadeador. A chuva que, repito, existe desde sempre. E tem os personagens.
Precisamos registrar, para a posteridade, que as enchentes não foram causadas pela chuva. Foram causadas pela completa falta de infraestrutura de Rio Branco.
Desde que me lembro, fala-se do igarapé São Francisco. Sua importância e seu estado de abandono, vítima de uma cidade que tem crescido sem o planejamento e o investimento adequados.
O Acre parece viver uma relação abusiva com seus governantes, com o poder público. Direta, ou indiretamente, somos abusados, aviltados pelo poder público. Isso sempre me pareceu algo distante até que batessem na minha porta. Literalmente.
Quarta-feira, 28 de setembro de 2022. Durante a campanha para o 2º turno das eleições. Muito cedo da manhã a campainha começou a tocar insistentemente. Corri pensando na família, claro. Abro a porta. Dois homens em uniforme preto, pesado. Informações legais começaram a ser recitadas em voz oficial. Era a Operação Algibeira.
A porta do vizinho havia sido arrombada pela Polícia Federal, e estavam intimando testemunhas (somos obrigados por lei). De lá, foram retiradas várias malas, acho que sete – seis vazias e uma contendo dinheiro em espécie.
Segunda-feira. 27 de março de 2023. O igarapé São Francisco baixou um pouco. Ontem, domingo, foi a festa de aniversário do Governador. Ele estava muito feliz. Passeou de helicóptero no sábado – tirou fotos e tudo. Hoje, o Prefeito estava super-envolvido. Fizeram um vídeo dele carregando dois sacos de cesta básica. Outro vídeo circulou em que o prefeito de Rio Branco cerrava um pedaço de pau – não sei o que fazer com essas informações agora. Deixemos para a posteridade e a História interpretá-las.
Importante registrar para a posteridade, entretanto, que a mídia local reclamou que o Governo Federal só liberou 1.4 milhões de reais para ajudar na atual tragédia. Pelo menos, inicialmente. Por que será?
Homens como Barack Obama, Joe Biden, Lula e Xi Jinping, por exemplo, são figuras públicas que compreendem o seu papel na história local e global, seu lugar no mundo.
Não parece ser o caso dos nossos governantes locais. Por enquanto, parecem estar tocando violino enquanto a cidade alaga.
* Francisco O. D. Veloso é professor/pesquisador no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália). IG: fveloso.
