Como podemos medir secas e inundações? Pesar o planeta é uma opção

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Os cientistas há muito alertam que o aquecimento das temperaturas levaria a extremos globais mais úmidos e secos – chuvas cada vez mais severas, secas cada vez mais intensas. Um novo estudo mostra onde isso talvez já esteja acontecendo.

A análise fornece uma imagem emergente das distorções na quantidade total de água acima do solo e também nos aquíferos profundos abaixo da superfície da Terra, de onde vem a maior parte da água doce da qual os humanos dependem.

Ele se baseia em dados da missão Experimento de Recuperação de Gravidade e Clima da Nasa, ou GRACE na sigla em inglês, que usa satélites que podem detectar mudanças na gravidade para medir flutuações na água onde outros satélites não conseguem ver. Dessa forma, ele pode fornecer informações sobre locais onde não há poços ou medidores.

“Para a maior parte do mundo, simplesmente não temos dados sobre como o armazenamento de águas subterrâneas está mudando”, disse Matthew Rodell, vice-diretor de ciências da terra da Nasa Goddard. “O GRACE meio que quebra esses limites e fornece informações sobre todos os lugares.”

Em um artigo publicado neste mês na revista Nature Water, Rodell e Bailing Li, pesquisadora assistente da Universidade de Maryland, analisaram os dados de satélite para medir os extremos do ciclo da água. Eles descobriram 505 episódios úmidos e 551 episódios secos entre 2002 e 2021, depois atribuíram a cada um deles uma classificação segundo sua “intensidade”. As classificações de intensidade levaram em consideração a gravidade do episódio, bem como sua duração e tamanho da área afetada.

Um aspecto dos dados do GRACE é que eles medem mudanças que persistem por longos períodos de tempo. Na verdade, rastreiam desastres mais lentos, que se desenrolam ao longo de meses ou anos, não enchentes momentâneas durante uma estação normal.

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Rodell e Li inicialmente se propuseram a classificar as piores secas e os períodos de maior pluviosidade nos últimos 20 anos a partir de observações de satélite disponíveis. Ao revisar os resultados, no entanto, eles logo perceberam que ambos os tipos de eventos eram mais comuns – e estavam ficando mais graves – no final do período do estudo.

Para ver se o aquecimento global poderia estar por trás das mudanças, os pesquisadores compararam a correlação das intensidades úmidas e secas mensais com as temperaturas médias globais e outros fatores climáticos conhecidos.

Eles descobriram que as temperaturas médias globais tinham uma correlação mais significativa do que os outros indicadores – como o El Niño, a mudança ocasional nas temperaturas da água do Oceano Pacífico que pode ter efeitos significativos no calor e na precipitação. A descoberta fortalece a possibilidade de que, à medida que o mundo esquenta, veremos extremos mais fortes e frequentes.

Algumas regiões se destacaram. Os trópicos estão testemunhando períodos de chuva mais intensos e as regiões continentais estão vendo uma tendência à seca.

No entanto, 20 anos de observações é pouco em termos de escalas de tempo climáticas. A simples busca por correlações como essa “será limitada em sua capacidade de separar essas coisas. Não é trivial de se fazer”, disse John Fasullo, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, que não participou do estudo.

Existem outras limitações para os dados do GRACE. As medições globais são mensais e publicadas com atraso, tornando impraticável o rastreamento de eventos à medida que se desenrolam. Os dados também têm uma resolução efetiva que é mais ou menos do tamanho do Estado de Illinois, o que não é ideal para ver mudanças em um nível mais local.

A análise também exclui regiões conhecidas por sofrer impactos humanos de longo prazo ou degelo persistente que foram identificadas em um estudo anterior liderado por Rodell. Entre elas estão o Vale Central da Califórnia, onde o uso agrícola esgotou os aquíferos, e a Groenlândia, onde a camada de gelo vem derretendo.

As mudanças nas águas subterrâneas, particularmente nos extremos, continuam sendo um tema que necessita de mais estudos, especialmente para analisar a influência do aquecimento global. Mas, quanto à precipitação em períodos de tempo mais curtos, a relação fica mais clara. “Um dos aspectos robustos detectados nos extremos do ciclo da água é o aumento da precipitação intensa com as mudanças climáticas”, disse Fasullo.

*As informações são do Estadão