Por Francisco O. D. Veloso*
Exatamente 44 horas depois de anunciada a vitória do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva para um espetacular 3º mandato, no que é possivelmente o maior retornou triunfal da história política brasileira, o incumbente quebrou o silêncio.
Um recorde difícil de ser quebrado, porque nenhum político adulto, minimamente sério e de sã consciência agiria deste modo.
O incumbente passou atestado de infantilidade e fraqueza.
Esperou, no silêncio, que os seus eleitores, patriotas, saíssem à rua de arma em punho para defendê-lo. Isso não aconteceu, embora houvesse expectativa. Tanto que temos protestos nas estradas em vários estados e alguns membros da PRF, infelizmente, parecem ser simpáticos ao movimento. Parece coisa de quem assiste muito a filme americano. Eles fazem isso. Nós, não.
O brasileiro, penso eu, é um sujeito sofrido, somos um país com a alma quebrada demais para sair pela rua botando a cara à tapa. É natural, parte do instinto de preservação. Para ir às ruas, ou se gera um movimento com dinheiro estrangeiro, tipo o pato amarelo que pariu uma criança perigosa que virou presidente. Seria isso uma coisa meio Macunaíma?
Eu mesmo, por algum tempo, lá atrás, acreditei por um pouco que o brasileiro não seria maluco o suficiente para eleger este homem caricato e improdutivo, que por se alimentar do caos que vive a gerá-lo. Pois não é que foi?
Foi uma aventura e tanto viver quatro anos sob um governo que se mantém relevante para seus eleitores através de lacrações quase que diárias. Um show de horror político. Caótico. Perigoso. Os danos foram enormes.
A maior tragédia desta aventura irresponsável com este homem que, para ser muito honesto, penso ser o típico burro, que bem sabemos o tipo na cultura brasileira.
Nada nele faz sentido: uma vida pública sem relevância positiva, uma vida familiar caótica oferecendo um modelo de família duvidoso. Aquela família é um show de horror. Três filhos disfuncionais orbitando em torno de um homem tosco com poder na mão. Eles estavam inebriados demais para perceber que estavam cavando o próprio buraco.
A família Bolsonaro tem, na verdade, um quê de Maria Antonieta. Se não tem pão, comam brioches. Ou um quê de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Se não tem o que comer, é porque é vagabundo, não está procurando emprego. Deu-se um encontro de ideias muitos ruins, de pessoas gananciosas e falso-moralistas no entorno de uma criatura sem empatia e escrúpulos.
De tão embriagados com o dinheiro e o poder, o clã achou que o Brasil iria esquecer os muitos mortos pela COVID, o desprezo pelo nosso luto, pelo esforço desta geração em meio ao desconhecido. Esta geração que viu o fim da ditadura, a queda do muro de Berlin, a dissolução da União Soviética, a pobreza na Rússia, a guerra do Kosovo, e o 11/9.
Não houve injustiça nesta eleição, conforme quer fazer parecer o mau perdedor, em seu eterno papel de vítima. Nunca foi responsável por nada. Sempre terceirizou a culpa e as responsabilidades.
O incumbente é o típico funcionário público que o Chicago boy, o posto ipiranga, chama de ‘parasita’.
O parasita usou a máquina pública ao limita da ‘deformação plástica’ para ser reeleito. Entrou para a história como o pior presidente, como o primeiro presidente a não conseguir a reeleição e como o maior mau-perdedor da história. Bateu até o playboy mineiro em 2016.
Descobriremos, nos próximos anos, os efeitos desta aventura, deste quase-golpe.
As famílias, as amizades sofreram duplamente: o distanciamento da pandemia e a polarização política, este último o nutriente principal da dieta do abutre.
Não ganhamos somente uma eleição. Talvez esta seja a ‘queda da Bastilha’ da nossa geração.
O Brasil livrou-se de sua Maria Antonieta do Planalto.
* Francisco O. D. Veloso é professor/pesquisador no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália). IG: fveloso.
