Ciro Gomes vai bem na bancada do Bonner e da Renata

4–5 minutos

Por Francisco O. D. Veloso*

Ciro Gomes foi o entrevistado da segunda entrevista de emprego para Presidente do Brasil. 

Esta foi uma entrevista muito diferente. Dizem pelas redes que foi uma entrevista ‘amistosa’, como se isso fosse um problema. Uma entrevista de emprego deve ser, acima de tudo, amistosa. Educada. O candidato deve responder às perguntas com precisão, clareza e demonstrar que está preparado para o cargo que irá ocupar. 

Ouvir Ciro expor suas ideias é sempre um prazer. Conhece muito bem os problemas do Brasil e compreende que precisamos de um reboot – sabe quando a gente apaga o HD do computador, e reinstala o sistema operacional? É essa a proposta de Ciro. E ela é excelente, exceto que é difícil implementá-la. 

Os jornalistas Renata Vasconcelos e William Bonner, bem-preparados, questionaram exatamente como iria conseguir operacionalizar este reboot tendo que negociar com um Congresso Nacional que, sabemos, funciona à base da ementa, do dinheiro. Nada funciona bem no país, e Ciro consegue ver isso: as instituições brasileiras estão em crise. 

Entre as propostas imaginadas por Ciro para resolver o problema da fisiologia é não concorrer a um segundo mandato. Assumiu esse compromisso em horário nobre, ao vivo. Um dos problemas desta é que os parlamentares irão, muitos deles, concorrer à reeleição, e para isso precisam de ementas, dinheiro, dinheiro, quanto mais melhor. Tanto que o orçamento secreto nem secreto é mais, como apontou Ciro. Estamos falando de 16 bilhões de reais em ementas parlamentares – é dinheiro demais para frear os muitos pedidos de impeachment já protocolados.

Sobre o meio-ambiente, Ciro disse que o país perdeu o controle do seu território no mesmo dia em que foi noticiado que tivemos um recorde de queimadas. O candidato demonstra ter ideias viáveis sobre a floresta, mas temos um outro problema. A falta de continuidade institucional. O seuplano de 30 anos é excelente, mas aqui não é a China, que vem desde a década de 1970 em um meticuloso projeto de crescimento, de poder, iniciado por Deng Xiaoping e que só foi possível porque lá existe essa capacidade de continuidade que nos falta. 

A certa altura, Ciro Gomes flertou com a ficção científica. A ideia de utilizar algoritmos para prever crimes não é original. Em 1956, Phillip K. Dick publicou um conto chamado The Minority Report que deu origem ao filme homônimo, estrelado por Tom Cruise em 2002. Não, Ciro, colocar a vida e a segurança das pessoas nas mãos de algoritmos não é uma boa ideia. Basta ver o caos em que as redes sociais jogaram a humanidade, criando bolhas e amplificando ideias absurdas como a ‘terra plana’, que vacinas são perigosas, que se tornaram instrumentos nas mãos de políticos. Imagine isso nas mãos da segurança publica? Alguém pode ser preso porque poderá cometer um crime. Não me parece uma boa ideia em um país tão disfuncional quanto este. 

As regras tendem a ser apropriadas e desvirtuadas, tornam-se instrumentos de poder nas mãos de quem os controla. Tenho visto isso de perto na UFAC, por exemplo. Mesmo em setorespequenos em complexidade, como uma coordenação de curso. O coordenador do curso de Letras Inglês mandou, em março de 2020, sem corar, que eu mentisse no plano de curso e inserisse referencias mesmo que não as usasse, ainda que não fizessem sentido do ponto de vista teórico. Isso para atender a regras do MEC, que são legítimas. Porém, ao invés de fazer as coisas corretamente, prefere-se cortar caminho e mandar mentir em um documento oficial. 

Os portais de notícia estão se esforçando, hoje, para achar defeitos na entrevista do candidato Ciro Gomes. Não houve interrupções, exceto talvez por uma, mínima, quando vozes ficaram sobrepostas. Não é porque os jornalistas foram gentis. 

Ciro Gomes tem fama de ‘esquentado’, mas não tem fama de mentiroso. Sentei-me para ouvir a entrevista, como o resto do Brasil, esperando que talvez em algum momento Ciro perdesse a calma. Ao invés, mostrou conhecer os problemas. Errou em alguns momentos, mas em meio a tanta informação, é fácil perder-se em detalhes. 

Ciro Gomes não conseguiu fazer alianças e, na entrevista, aproveita para explicar o porquê. Suas ideias são progressistas demais, representam uma ruptura que não interessa à elite econômica e política.

Utilizou seu ‘um minuto’ sabiamente, ao final. Falou para os telespectadores – já havia se dirigido ao telespectador antes, com serenidade e, acima de tudo, propriedade. 

Seria excelente para o Brasil que, se tivermos um segundo turno, fosse entre Ciro e Lula. Seria um debate de ideias, de projetos, o que elevaria o nível da discussão e facilitaria a escolha do eleitor. 

Dos dois entrevistados à vaga de emprego aberta a partir de 01/01/2023, Ciro Gomes definitivamente saiu-se infinitamente melhor. Quando controla os impulsos, Ciro Gomes demonstra ser genial.

*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).