8 de março significa luta, resistência e resiliência das mulheres.

3–5 minutos
Por Joci Aguiar*

“Medo nós tem, mas não usa”. (Margarida Alves).

Chegamos há mais um 8 de Março e a reflexão que se faz é temos que  comemorar, lamentar ou lutar?

Há duas versões sobre a origem do 8 de Março. Uma diz respeito à grande mobilização realizada por mulheres russas no ano de 1917, quando ocorreu a Revolução Russa, para pedir a saída do país da Primeira Guerra Mundial, melhores condições de vida e alimentos, tendo em vista que a população sofria com a fome e a pobreza e eram as mulheres que trabalhavam nos chãos das fábricas na época.

A outra versão, que é a mais aceita no movimento, é datado de 1911, quando mulheres que trabalhavam numa fábrica em Nova York que lutavam por seus direitos e melhores condições de trabalho foram trancadas e queimadas vivas dentro da fábrica em que trabalhavam. Morreram 123 mulheres, a tragédia gerou uma série de protestos e mobilizações sobre a necessidade de conscientizar a sociedade sobre os direitos das mulheres.

Por esses exemplos percebemos que ser mulher em qualquer parte do mundo não é fácil, temos que lutar para nos manter vivas e donas de nossos corpos.

Desde a Revolução Francesa que as mulheres constroem sua história na luta pelo reconhecimento enquanto pessoa, como um ser capaz de exercer a vida pública e opinar na política.

A luta pelo direito de votar foi o motivo principal do surgimento da primeira onda do feminismo, com um movimento também conhecido como “sufragistas”. Nesse movimento acrescentou-se a luta por direito à educação igual à dos homens.

A segunda onda trouxe a novidade da pílula anticoncepcional, dando às mulheres a liberdade de ter mais autonomia aos seus corpos e a decidir sobre ter ou não filhos, liberdade sexual, além da escolha de carreiras.

Foi nesse período os protestos com a queima de sutiãs dando às mulheres seu lugar de fala e não deixando os homens falarem por elas. As bandeiras de luta como estupro marital, violência doméstica tornaram-se crime nesse período.

A terceira onda trouxe a questão da interseccionalidade e a diversidade, pois na luta das mulheres há de se observar as especificidades das pessoas dentro do grupo, existe uma diversidade enorme e as necessidades e pautas das mulheres negras e indígenas são diferentes das mulheres brancas.

Estamos na quarta onda, das quais os aprendizados são enormes, pois enfrentamos uma verdadeira Primavera das Mulheres alicerçada nas redes sociais e na popularização da internet.

O fato é que mesmo com conquistas e avanços ainda somos mortas a cada 10 minutos no Brasil, a cada 3 minutos uma mulher sofre violência. Meninas adolescentes sofrem algum tipo de violência todos os dias no Brasil. O Brasil é o país que mais mata mulheres trans. São dados que nos envergonham.

Entre 2020 e 2021 o desemprego entre as mulheres foi em torno de 45%, porque são elas que são as cuidadoras do lar e de pessoas idosas e com deficiência, além do cuidado com os filhos e maridos.

As mulheres negras foram as mais afetadas com o desemprego em torno de 42% de desempregadas.

Em pleno século XXI ainda somos sub-representadas no parlamento, por mais que existam as quotas os partidos sempre dão um jeito de não priorizar as mulheres.

Um exemplo é aqui no Estado do Acre, dos 22 municípios apenas dois municípios são administrados por mulheres. 44 mulheres foram eleitas vereadoras e o que mudou? Desconhce-se políticas estruturantes que ajudem as mulheres a mudar sua condição de miséria.

As mulheres são vitimas de violência em qualquer espaço que ocupem, mesmo na política elas sofrem tentativas de silenciamento. O que se vê são políticos no exercício de seus cargos usando de palavras pejorativas que violam a condição da mulher, chamando-a de incompetentes por usar saia, cidadãos de bem que usam da desgraça sofrida para usurpar o corpo da mulher mesmo na condição de guerra.

São nas guerras que soldados transformam as mulheres em escravas sexuais, além de ter aqueles que se tornam os cafetões do sexo e se beneficiam da exploração dessas mulheres.

Estamos no momento da transformação, de fazer a verdadeira primavera das mulheres, porque o que temos é coragem e vontade, precisamos está unidas e não disputando entre nós. Somos maioria e podemos fazer a diferença para fazer de 2022 o ano da mudança.

Lembram da frase no início do texto, medo nós tem mas não usa, porque mesmo sabendo que ser violadas da luta não nos retiramos, o 8 de março significa isso, a luta, a resistência, a resiliência das mulheres.

*Joci Aguiar é feminista,  mãe, ambientalista e ecossocialista.