Bolsonaro se reúne com presidente do Peru em Rondônia para fugir de manchete nacional com governador investigado na Operação Ptolomeu

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Historicamente, desde a primeira vinda de um presidente peruano à região, os encontros foram realizados no Acre. Foi assim com Alan Garcia e José Sarney, na década de 1980. Como foi com Fernando Henrique Cardoso e Alejandro Toledo, no fim dos anos de 1990. Da mesma forma aconteceu com Luiz Inácio Lula da Silva.

Isso é algo normal. Afinal, o Acre faz fronteira com o Peru e a Bolívia. Ocupa ponto estratégico nas relações diplomáticas e comerciais com os dois países andinos.

Algo mudou.

Jair Bolsonaro, o presidente que teve quase 80% dos votos dos acreanos no segundo turno das eleições de 2018, parece não gostar muito do calor em solo acreano.

É tanto que irá se encontrar com o presidente do Peru, o esquerdista Pedro Castillo Terrones, numa cidade a pouco mais de 500 quilômetros de Rio Branco, capital do Acre.

Bolsonaro e Terrones se encontrarão em Porto Velho, capital de Rondônia, estado administrado pelo bolsonarista Marcos Rocha.

Uma das principais pautas do encontro presidencial será a cooperação entre Brasil e Peru para exportação de proteína animal. A lógica era que acontecesse no Acre, que  por onde vai passar as exportações de carne.

Pavimentada durante o governo petista de Jorge Viana, que contou com o apoio dos presidente Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a BR-317 é o caminho mais curto para as exportações para a Ásia.

Um das etapas fundamentais para a efetivação da integração foi a conclusão da ponte sobre o Rio Madeira, obra iniciada no governo da presidente Dilma Rousseff e inaugurada pelo atual presidente.

Se o Acre faz fronteira com o Peru e é o principal corredor de exportação, por que Bolsonaro não optou por se encontrar com o presidente peruano no Palácio Rio Branco?

A resposta se chama Ptolomeu, operação deflagrada pela Polícia Federal, com autorização da ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nancy Andrighi, em dezembro do ano passado.

Segundo investigações, o governador Gladson Cameli (Progressistas) figura como chefe de uma organização criminosa (Orcrim), que pode ter se beneficiado de mais de R$ 800 milhões de recursos públicos.

Segundo fonte do Portal, a Casa Civil da Presidência, que tem o correligionário de Cameli, o senador licenciado Ciro Nogueira, como ministro, orientou para que o encontro presidencial não fosse realizado no Acre.

Com essa estratégia, Bolsonaro se afastaria das manchetes da imprensa nacional, que, inevitavelmente, iria vinculá-lo ao governado do Acre e, consequentemente, à Operação Ptolomeu.

O encontro está previsto para acontecer no dia 3 de fevereiro, no Palácio Rio Madeira. Não há informação se o governador do Acre recebeu convite para participar da cerimônia

Bolsonaro, a história demonstra, quer distância de aliado que possa comprometer à sua reeleição. No momento, Gladson Cameli não ajuda na imagem de ninguém. Pelo contrário: queima ainda mais um presidente que derrete em todas as pesquisas de opinião pública até aqui realizadas.

Alguém duvida que foi isso que aconteceu?