O espetáculo da tragédia

1–2 minutos

Por André Kamai*

Hoje uma imagem chocou a população de Rio Branco, no Acre. Logo pela manhã se espalhou pelas redes sociais um vídeo de uma mulher negra em pé, ao lado de uma poça de sangue e uma criança recém-nascida na calçada, chorando e se debatendo.

Sim, aquela mulher negra deu à luz a uma criança na calçada de uma das principais avenidas da cidade. E não por acaso, mas, pela trágica ironia da vida, aquele nascimento se dava há poucos metros da maternidade pública.

Aquela mãe já de pé, meio que em choque e ainda tomada pelas dores de um parto, sem qualquer traço da humanidade moderna, olhava para o filho no chão como se esperasse que ele sozinho pudesse encontrar algum conforto na calçada de tijolos, onde conheceu a maldade do mundo já na chegada.

Eram dois incapazes, dois abandonados, formando a cena ideal para os curiosos que os circundam naquela hora.

Antes de socorrer aquela criança recém-nascida, alguém conseguiu ter a frieza de filmar a situação como se a prioridade fosse eternizar aquela tragédia nos grupos de WhatsApp ou redes sociais.

Primeiro o espetáculo, depois a vida. Não é razoável imaginar que alguém nasça na calçada de uma maternidade pública e nenhum profissional daquele lugar sequer perceba e intervenha para que isso não aconteça ou aconteça com o mínimo de segurança.

Não é possível aceitar ou normalizar que a miséria das drogas e da pobreza faça com que mais e mais pessoas morram ou nasçam nas sarjetas como se invisíveis fossem.

Esse fato e a cena que ele produziu escancaram sintomas graves de uma sociedade desumanizada.

Olhem para os lados, vejam quem está batendo nas janelas de seus carros, quem está nas portas dos supermercados de mãos estendidas e com cartazes suplicando por qualquer ajuda.

São pessoas reais, medidas em peso e não em likes. Pessoas que tentam apenas sobreviver sem a dor da fome de um Acre emergido na miséria econômica, humana e política.

*André Kamai é Sociólogo