ESQUEMÃO AZUL: Para a Polícia Federal não resta dúvida: Gladson Cameli é chefe de uma organização criminosa

Sem justificativa aparente, governador do Acre aumentou o patrimônio de R$ 2,9 milhões para R$ 5,8 milhões desde que assumiu o mandato

Por Leonildo Rosas e Fábio Pontes

O governador do Acre, Gladson Cameli (Progressistas), é o chefe de uma organização criminosa (Orcrim) que se instalou dentro do Palácio Rio Branco para desviar recursos públicos. Essa é a conclusão a que chegou a Polícia Federal (PF), após investigar os passos e as movimentações financeiras do chefe do Executivo estadual desde junho do ano passado.

As conclusões da PF foram chanceladas na denúncia feita pelo Ministério Público Federal (MPF) ao Superior Tribunal de Justiça (STF), que culminou na deflagração da Operação Ptolomeu 1 e 2, no início deste mês.Segundo os investigadores, junto com a sua esposa, Ana Paula Correia Cameli, a GGC Holding, que tem o seu filho Guilherme de seis anos como sócio, e a empresa Marmud Cameli & Cia Ltda, o governador faz parte do núcleo político da Orcrim.

No pedido de busca e apreensão feito à ministra Nancy Andrighi, do STJ, a PF diz que Gladson Cameli é o chefe da Orcrim, detentor de poder político e econômico, e principal beneficiário dos recursos desviados dos cofres do Estado e é suspeito de praticar lavagem de capitais.

“A medida é de fundamental importância e deve alcançar tanto a residência do investigado quanto a sede do Palácio do Governo”, escreveram os delegados responsáveis pelas investigações à ministra do STJ, que atendeu ao pedido e expediu mandados de busca e apreensão que tinham como endereço o Palácio Rio Branco, criando a vexatória cena de a sede do Poder Executivo acreano ser tomada por viaturas policiais.

Para a PF, a primeira-dama do Estado do Acre figura como uma das principais beneficiárias dos atos de lavagem de dinheiro, notadamente sendo agraciada com a compra de um veículo de luxo BMW X4, no valor estimado de R$ 537 mil.

Desde a última segunda-feira, 27, o blog do Fabio Pontes e o Portal do Rosas publicam uma série de reportagens sobre o inquérito policial da Operação Ptolomeu, cujas informações são de relevante interesse da sociedade acreana por levantar suspeitas sobre o governador do Estado.

De acordo com o apurado nas investigações, o governador Gladson Cameli é apontado pela PF como suposto integrante de organização criminosa atuante nas esferas da saúde e obras públicas.

As irregularidades ocorreram em sistemática de recebimento de vantagens indevidas para o direcionamento de certames públicos, formalização de contratos superfaturados e atestados fictícios de recebimento de mercadorias e serviços pagos com recursos públicos, “o que necessariamente demanda maior aprofundamento investigativo e imprescindíveis medidas cautelares para o completo descortinamento de complexa engrenagem criminosa no Estado”, diz trecho do inquérito.

As suspeitas sobre Cameli aumentam em razão do rápido aumento do seu patrimônio em um curto espaço de tempo, sobretudo desde que assumiu a cadeira de governador. Nas eleições de 2018, ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter um patrimônio de R$ 2,9 milhões, mas movimentou atipicamente, no período de agosto de 2018 a abril de 2020, R$ 6,9 milhões.

Além disso, Cameli consta em comunicado oficial como envolvido na movimentação de R$ 437,1 milhões, entre janeiro de 2019 a abril de 2020, ou seja, em 16 meses como chefe do Executivo.

Para fundamentar os argumentos, a PF apurou – com base nos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – que o governador acreano fez, no período de agosto de 2018 a fevereiro de 2020, depósitos, em dinheiro vivo que, juntos, somam mais de R$ 500 mil em contas da sua titularidade, sem ele revelar a origem do dinheiro.

(As movimentações financeiras de Gladson Cameli serão apresentadas com mais detalhe em reportagem específica)

Fazer depósitos em espécie sem a declaração da origem do dinheiro era prática comum do governador. No período de julho de 2020 a outubro deste ano, o MPF, também por meio de RIFs demandados junto ao Coaf, verificou outros depósitos que chegaram ao montante de R$ 443 mil em contas bancárias de titularidade de Cameli.

Assim, no período de agosto de 2018 a novembro de 2021, aponta a denúncia do MPF e da PF, o governador recebeu um montante R$ 956,2 mil em depósitos em espécie em duas contas bancárias de sua titularidade investigadas pelas autoridades policiais e ministeriais. Em resumo, quase um milhão de reais entrou nas contas do governador sem a devida explicação.

Por mais que estes depósitos fossem feitos em dinheiro vivo na boca dos caixas das agências bancária (quando envolvia grandes volumes) ou em pequenos valores nos terminais eletrônicos, os bancos são obrigados a comunicar ao Coaf todas essas operações quando o cliente não apresenta a devida justificativa sobre a origem dos recursos. Ao detectar tais movimentações atípicas, o Coaf já repassa seus RIFs à polícia, a quem cabe fazer o trabalho de investigação.

Para se ter ideia do quanto dinheiro parece brotar no quintal de Gladson Cameli, somente neste ano, num curto período de meses, recebeu R$ 353 em depósitos em espécie em suas contas bancárias, como atestam os relatórios do Coaf compartilhados com a PF e o MPF.

A investigação policial chegou à conclusão de que Gladson Cameli possui um patrimônio atual de R$ 5,8 milhões, em rápida e ascendente evolução patrimonial desde que assumiu o mandato de governador, haja vista que seu patrimônio declarado, em 2018, perante o TSE foi de de R$ 2,9 milhões.

Gladson Cameli, segundo as investigações, fez farra com gastos com cartões de crédito, bem como compra de carros de luxo e uma mansão em Rio Branco. Fatos esses que serão abordados em matérias específicas na série Esquemão Azul.

Os possíveis crimes cometido pelo governador

Diante das investigações da PF, o MPF formalizou denúncia contra o governador no STJ por os governadores possuírem prerrogativa de foro junto à Corte superior. O órgão ministerial se manifestou em detalhes sobre as hipóteses criminais investigativas, detalhando as condutas de Cameli e de terceiros na empreitada criminosa sob apuração.

As investigações tiveram início no ano passado, a partir de informações da Controladoria-Geral da União, para apurar fraude e direcionamento de licitações na contratação de medicamentos e insumos hospitalares de diversos órgãos da rede pública de saúde, bem como de superfaturamento na compra destes mesmos insumos.

No dia 5 de junho do ano passado, foi deflagrada pela PF a Operação Dose de Valores. Na ocasião, PF e CGU encontraram suspeitas de superfaturamento, entrega fictícia de mercadorias e o possível pagamento de propina a servidores públicos em troca de facilitar os contratos com as empresas investigadas.

A partir da apreensão de provas ao cumprir os mandados judiciais e receber autorização da Justiça para realizar interceptações telefônicas, os investigadores encontraram elementos sobre uma suposta participação do governador acreano nos delitos, por meio de recebimento de vantagem indevida.

Essas “vantagens” recebidas eram desviadas, diz a polícia, de verbas do Sistema Único de Saúde a partir da assinatura de contratos com empresas que deveriam fornecer medicamentos e insumos hospitalares para a rede pública.

Gladson Cameli foi citado expressamente em várias escutas telefônicas autorizadas pela Justiça. A partir da análise de trechos das interceptações, foi verificado que o governador é citado como pessoa que supostamente “poderia vir a tomar conhecimento das vantagens ilícitas a serem auferidas com o esquema criminoso”.

Segundo a PF, em uma das escutas telefônicas feitas entre empresários interessados em vender remédios para a Secretaria de Saúde, o governador do Estado é citado como possível beneficiário do pagamento de uma “vantagem” de R$ 70 mil. Coincidentemente ou não, este é o mesmo valor que, conforme as investigações, o chefe da Casa Militar de Gladson, o coronel Amarildo, foi buscar numa concessionária da capital. O oficial da PM é investigado e foi afastado das funções pelo STJ.

Segundo consta no processo, a partir da interceptação telefônica e documentos coletados na investigação, a PF e o MPF consideram plausível que Cameli “tenha tido ciência e controle sobre as ilicitudes no âmbito de fraudulentos contratos na área da saúde pública, bem como tenha supostamente recebido valores a título de vantagem indevida na situação jurídica em questão.

Outro lado

Desde a última segunda, 27, a reportagem enviou e-mail para a assessoria de imprensa do governador Gladson Cameli para comentar as denúncias que lhe são imputadas pela PF e o MPF junto ao STJ, mas até o momento não houve manifestações.

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