A Mailza Assis Cameli se apresenta na campanha como pedagoga. O diploma que comprovaria essa formação está agora na mira do Tribunal Regional Eleitoral do Acre. E a dúvida já não fica restrita ao estado.
No sábado, o Jornal da Record dedicou cerca de cinco minutos ao caso, em rede nacional. Aqui no Acre, boa parte da imprensa segue em silêncio, como se nada estivesse acontecendo.
A pergunta incômoda é simples: por que um assunto que interessa ao país inteiro não merece uma linha nos veículos que deveriam fiscalizar o poder local?
O que o TRE está investigando
Para disputar a reeleição pelo PP, Mailza registrou na Justiça Eleitoral um diploma de licenciatura em Pedagogia. Uma denúncia levou o TRE a apurar se o documento é verdadeiro.
Como o Portal do Rosas já noticiou, a Coligação Trabalho da Esperança (Republicanos, PSD, Novo e Avante), ao lado do candidato ao governo, senador Alan Rick, ingressou com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que pede a cassação da chapa. O Portal também informou que a Polícia Federal será acionada para investigar a autenticidade do certificado.
Ouvido pela reportagem da Record, um dos advogados autores da ação explicou o peso da acusação:
“A apresentação desse documento falso no processo eleitoral é muito grave, principalmente porque na campanha ela se apresenta como pedagoga nas peças publicitárias. Ela faz uso dessa condição de pedagoga para pedir voto ao eleitor acreano.”
Segundo ele, a ação se baseia em um precedente recente do Tribunal Superior Eleitoral: quando um candidato apresenta documento falso no processo, ataca a própria Justiça Eleitoral.
A pedagoga da propaganda e a pedagoga dos documentos
Nas peças de campanha, o discurso é afetivo e bem ensaiado:
“Eu sou pedagoga e sei que quando uma criança aprende, o futuro dela começa a mudar.”
Os papéis, porém, contam outra história. E a lista de contradições levantadas pela reportagem nacional é longa.
1. Um curso presencial a 3 mil quilômetros de casa
O diploma foi emitido pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas, em Valparaíso de Goiás. A candidata informou que estudou lá entre 2016 e 2019.
Segundo o Ministério da Educação, a instituição está autorizada a oferecer a licenciatura em Pedagogia exclusivamente na modalidade presencial. Entre Rio Branco e Valparaíso são cerca de 3 mil quilômetros. Ou Mailza fazia essa viagem todos os dias, ou se mudou para Goiás.
Só que, nesse período, ela já ocupava cargo público. Em 2019, assumiu uma vaga no Senado Federal.
2. A biografia do Senado fala em Direito
Na biografia divulgada pelo próprio Senado, Mailza aparece com formação acadêmica em Direito. Não em Pedagogia.
3. Em 2022, apenas o ensino médio
De acordo com o diploma, o curso foi concluído em 2020. Mas, ao registrar a candidatura a vice-governadora nas eleições de 2022, Mailza declarou ter o ensino médio completo e nenhuma graduação.
Quem conclui uma faculdade em 2020 e, dois anos depois, esquece de mencioná-la ao registrar candidatura à vice-governança de um estado?
4. Formada duas vezes no mesmo curso?
Para se defender nas redes sociais, Mailza apresentou outro documento do mesmo instituto: um histórico escolar com as disciplinas cursadas. Nele, a conclusão e a colação de grau aparecem em junho e julho de 2026.
O diploma atesta colação de grau em 2020. O histórico escolar aponta seis anos depois. Ou a candidata fez o mesmo curso duas vezes, ou alguma coisa não fecha.
5. O validador da própria faculdade
Os dados de candidatura são públicos no site do TSE. Com o CPF da candidata, a reportagem consultou o validador de certificados da própria instituição. O nome de Mailza não aparece.
O que diz a defesa
A defesa de Mailza Assis afirma que o certificado é autêntico e que a instituição confirmou a autenticidade em declaração anexada ao processo.
Os advogados também sustentam que o registro de candidatura foi deferido e está definitivo desde agosto. Alegam ainda que a ação foi proposta pela coligação adversária depois de encerrado o prazo para questionar o registro.
Repare no argumento. A defesa se apoia no prazo e na declaração da faculdade. O que ela não explica é por que as datas do diploma e do histórico não batem. Também não explica o curso presencial em Goiás feito por quem vivia no Acre e trabalhava em Brasília, nem a escolaridade declarada em 2022.
A reportagem da Record procurou o representante e mantenedor do instituto. Ele não foi encontrado.
O que pode acontecer
Um especialista ouvido pela Record lembrou que é crime usar documento falso, de qualquer natureza, para fins eleitorais. A ressalva dele é importante: se isso for efetivamente comprovado.
Nesse caso, segundo ele, as consequências podem incluir condenação criminal e até perda de cargo durante o cumprimento da pena.
Este Portal, que revelou o caso no dia 9 de setembro, sustenta que a fraude é evidente e que a candidatura caminha para a inelegibilidade. Hoje, porém, Mailza não está inelegível. A palavra final cabe à Justiça Eleitoral. O alerta ao eleitor é direto: quem votar em uma candidatura sob esse risco pode ver o próprio voto anulado mais adiante.
O silêncio tem preço?
O padrão não é novo. Durante anos, segundo esta coluna, a imprensa local funcionou como uma espécie de barreira de proteção ao ex-governador Gladson Cameli, que, conforme o Portal do Rosas vem acompanhando, foi condenado a 25 anos e 9 meses de prisão. Agora, a mesma blindagem parece se repetir com a sucessora.
E há números que ajudam a entender a pouca disposição de certos veículos para tocar no assunto. Segundo o levantamento deste Portal, a publicidade do governo já movimentou mais de R$ 7 milhões desde julho, com outros R$ 3 milhões empenhados.
São R$ 10 milhões em um período em que a legislação eleitoral veda a publicidade oficial.
Se esse dinheiro foi aplicado dentro da lei, o governo tem a obrigação de explicar como. Se não foi, o problema deixa de ser apenas um diploma.
A pergunta que não quer calar
Bastaria um gesto para encerrar a polêmica: Mailza Assis apresentar comprovantes de frequência e explicar as datas e a mudança da formação declarada de um registro eleitoral para o outro. Até agora, a resposta tem sido falar em prazo processual e anexar uma declaração de uma faculdade cujo responsável ninguém encontra.
Se a governadora é mesmo pedagoga, por que é tão difícil provar? E se a imprensa do Acre existe para informar, a quem serve o silêncio de quem já recebeu milhões em publicidade oficial?

