Quando a denúncia de compra de votos parte da oposição, o roteiro é conhecido: choro de perdedor, recalque de urna. Desta vez, porém, quem denuncia não é um adversário qualquer. É o presidente estadual do MDB, ex-deputado estadual, ex-prefeito de Cruzeiro do Sul e pai da candidata a vice-governadora Jéssica Sales.
Em vídeo que circula nas redes sociais, Vagner Sales afirma, sem meias palavras, que a eleição no Acre foi decidida por R$ 100 ou R$ 200. E aponta nomes de deputados federais eleitos.
O desabafo vale ouro. Não pelo ressentimento de quem ficou de fora, mas pelo que revela sem querer.
O desabafo de quem “pegou a balsa”
Vagner Sales foi candidato a deputado federal e não se elegeu. Sua esposa, Antônia Sales, também ficou pelo caminho. O tom do vídeo é de mágoa, mas o conteúdo é de acusação grave.
“Não valeu nessa eleição aqueles que trabalham, aqueles que prestam serviço, aqueles que estão dispostos, aqueles que têm projeto. Não valeu. Foi, na verdade, uma vergonha.”
Na sequência, ele descreve o mecanismo que, segundo ele, decidiu o pleito:
“A grande maioria das pessoas deixou de escolher o seu representante por aquilo que ele pode fazer por 100 reais, por 200. Isso é vergonhoso.”
E arremata com a frase que resume o vídeo:
“O que eu fiz valeu menos do que uma nota de 200 reais. Isso dói no coração, porque eu não estou na política por emprego. Eu não estou na política por dinheiro.”
Os nomes na mira: Pedro Longo e Fábio Rueda
O ex-prefeito não ficou na generalidade. Citou dois deputados federais eleitos, ambos da base governista. Um deles é Pedro Longo, o único eleito pelo próprio MDB, partido que Vagner preside. O outro é Fábio Rueda.
Falando a moradores do bairro Santa Luzia, ele confrontou o eleitorado:
“E o asfalto que vocês reclamam aqui, quem vai trazer agora? É o Rueda? É o Pedro Longo? Esses que vieram comprar voto aqui, que vão trazer asfalto para cá?”
Em seguida, lembrou a própria promessa de campanha: no mínimo R$ 10 milhões por mês para asfaltar o Santa Luzia, bairro que, segundo ele, sofre na época do inverno amazônico.
É preciso registrar: no vídeo, Vagner Sales acusa, mas não apresenta provas. Os citados não se manifestaram no material analisado. Acusação não é condenação. Só que, quando ela parte do presidente do partido contra o único eleito da própria legenda, o caso deixa de ser fofoca de bastidor e vira assunto de interesse público.
O que Vagner não disse
Aqui está a parte que o desabafo deixa de fora. No Acre, voto proporcional e voto majoritário raramente andam separados. A leitura deste Portal do Rosas é direta: se houve compra de votos para deputado na base governista, é razoável perguntar se o “pacote” também incluiu a chapa majoritária da governadora em exercício, Mailza Assis, que tem como vice justamente Jéssica Sales, filha do denunciante.
É uma hipótese que só uma investigação pode confirmar ou descartar. Mas a pergunta é inevitável: Vagner Sales denuncia a mesma eleição da qual depende o projeto político da própria família?
O paradoxo não é novo. Na reportagem “O ‘Ato Falho’ de Vagner Sales e o tabuleiro político no Acre: entre necessidades e conveniências”, este portal já havia mostrado como a aliança entre o MDB e a chapa governista de Mailza Assis foi construída mais por conveniência pragmática do que por afinidade de projeto. O novo vídeo é mais um capítulo desse casamento de interesses.
Indignação seletiva?
Vagner diz que a eleição foi comprada. Mas segue aliado de quem, pela lógica do próprio discurso, se beneficiou desse sistema. A indignação vale para o voto proporcional que lhe tirou a cadeira, e silencia sobre o voto majoritário que pode levar sua filha ao Palácio Rio Branco?
Um testemunho servido de bandeja
Se Vagner Sales, com toda a sua experiência de político veterano, afirma que a eleição foi comprada, quem somos nós para contestá-lo?
O vídeo está aí. É público. Tem autor identificado, cargo, nomes e valores. Para o TRE-AC e o Ministério Público Eleitoral, não é preciso grampo nem delação premiada: basta chamar o presidente estadual do MDB e pedir que ele conte o que sabe.
Se a Justiça Eleitoral realmente quisesse apurar, não seria difícil. Mas vai querer?
Fica a pergunta que não quer calar: com o segundo turno batendo à porta, veremos a “Operação Recompra” entrar em campo? E, se entrar, o presidente do MDB fará outro vídeo indignado ou ficará em silêncio porque, desta vez, a filha está na chapa?

