Quarenta minutos no horário mais nobre da televisão brasileira. Do lado de cá, a jornalista Renata Lo Prete, insistindo em dívida pública, Supremo e maioridade penal. Do lado de lá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, repetindo a fórmula que o acompanha há décadas: a economia cresce e o problema fiscal se resolve sozinho.
Nas redes, a Mídia NINJA vendeu o episódio como uma “aula histórica” dada pelo presidente à repórter da Globo. Vale olhar com mais calma. Entre a narrativa militante e o discurso oficial, sobram respostas incompletas, temas contornados e uma pergunta que ninguém respondeu de forma direta: como, afinal, a dívida vai parar de crescer?
A “aula” que o próprio JN já havia antecipado
O trunfo econômico de Lula na entrevista foi a projeção de que o Brasil volta ao grupo das oito maiores economias do mundo no ano que vem. Detalhe curioso: o dado não foi revelação do presidente. Minutos antes, o próprio Jornal Nacional havia noticiado a estimativa do Fundo Monetário Internacional.
Segundo os cálculos do FMI, o PIB brasileiro deve chegar a quase 2,8 trilhões de dólares, ultrapassando as economias da Itália e da Rússia.
Ou seja, a emissora que, segundo a narrativa militante, tentou “enquadrar” Lula foi a mesma que entregou de bandeja o dado mais favorável ao governo. A tal “aula” teve o gabarito distribuído antes da prova.
Lula resgatou ainda o próprio currículo. Contou que, ao assumir em 2003, encontrou o Brasil como 12ª economia do mundo, devendo 30 bilhões ao FMI. Ao sair, segundo ele, o país era a 7ª economia, tinha 270 bilhões de dólares em reservas, havia quitado a dívida com o Fundo e chegou a emprestar 15 bilhões ao próprio FMI depois da crise do subprime. Agora, diz ele, a história se repete: pegou o país de novo em 12º lugar, já está em 10º e mira o 8º.
Dívida pública: a pergunta que ficou no ar
Renata foi objetiva: em caso de reeleição, o presidente cogita tratar a dívida pública de outra maneira? A resposta veio em forma de tese, não de plano.
“Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza. E pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza.”
Lula falou em microcrédito, MEI, pequeno empreendedor e “a maior política de crédito que esse país já conheceu”. Admitiu que cansou de brigar com Guido Mantega e Henrique Meirelles, dois de seus próprios ex-ministros, por causa dessa visão. Lembrou que havia acabado com a fome em 2014 e que, ao voltar, encontrou 33 milhões de pessoas passando fome.
Tudo isso é discurso político legítimo. Mas não responde à pergunta. A jornalista chegou a resumir: o presidente não propõe correção de rumo, propõe seguir a mesma linha. Lula retrucou:
“Eu tô propondo não gastar. Não cortar dinheiro dos pobres.”
Note a ginástica. “Não gastar” e “não cortar” convivem na mesma frase, sem que se explique onde termina uma coisa e começa a outra. Qual despesa deixa de crescer? Qual receita aumenta? Silêncio.
A dívida “boa” e o cheque em branco
O presidente também defendeu que endividamento destinado a ativos produtivos — ferrovia, hidrelétrica, porto “que tenha recebíveis” — pode ser positivo. Em tese, faz sentido. Na prática, a história brasileira está repleta de obras anunciadas como produtivas que viraram esqueletos de concreto e aditivos contratuais.
Quem fiscaliza contratos públicos sabe: o problema raramente está na intenção. Está na execução, nos aditivos e no silêncio das prestações de contas.
Tarifaço: o recado a Trump
Sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, Lula apresentou números para sustentar que o Brasil compensou as perdas em outros mercados:
- Queda de 9% na relação comercial com os Estados Unidos;
- Crescimento de 20% com a China;
- 15% com a Indonésia, 16% com a Alemanha e 13% com o Vietnã;
- Média de 10,5% a mais nos 50 países visitados;
- Novo recorde de superávit comercial.
E deixou uma ameaça diplomática embrulhada em tom conciliador: não aplicou a Lei da Reciprocidade, não quer aplicar, mas aplicará “se for necessário”.
“Nós temos coisas que eles precisam mais do que coisas que eu preciso deles.”
É frase de palanque, feita para o eleitor ouvir. Se Washington leva a sério, é outra história.
Supremo sob suspeita: “agora está todo mundo implicado”
O momento mais tenso da entrevista girou em torno do escândalo do Banco Master e das relações de ministros do Supremo Tribunal Federal com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Renata questionou o pedido de vista do ministro Flávio Dino — indicado por Lula e aliado histórico do presidente —, que, segundo ela, impediu uma investigação sobre a conduta de Alexandre de Moraes, a quem apontou como o ministro até então mais implicado com Vorcaro. A resposta de Lula foi espalhar a suspeita pela Corte inteira:
“Era o mais implicado. O Toffoli também está implicado. O André Mendonça também está implicado e o Kassio está implicado. Agora está todo mundo implicado.”
Repare no movimento. Diante de uma pergunta sobre um ministro específico e sobre a atitude de um aliado, o presidente diluiu o foco. Quando todos estão sob suspeita, ninguém fica em evidência. Renata percebeu e perguntou se não se estavam tratando casos diferentes de maneira igual.
Lula disse não ter como interferir em decisões do Supremo, que pedidos de vista são rotina e que Dino queria julgar todos na mesma sessão porque “a denúncia paira sobre todos”. E admitiu: não tem conhecimento jurídico para dizer se o aliado estava certo.
Moraes, Bolsonaro e a disputa pela narrativa
O presidente também foi perguntado se a crise no Supremo afetou seu desempenho no primeiro turno. Disse não ter avaliação sobre isso, mas acusou a extrema direita de tentar “jogar a Suprema Corte” nas suas costas. Para Lula, o interesse em cassar Moraes não se deve apenas ao Banco Master, mas ao fato de o ministro ter mandado prender o pai de Flávio Bolsonaro, seu adversário na disputa.
Na mesma resposta, citou a prisão, pela Polícia Federal, no Rio de Janeiro, de Márcio Canela — descrito na reportagem como deputado eleito —, a quem Lula se referiu como “uma das pessoas importantes do clã” Bolsonaro.
“Quem quiser ser rico não pode ser ministro do Supremo”
O ponto mais contundente veio na defesa de uma reforma do Judiciário e de mandato para ministros da Corte. Lula citou, sem rodeios, relatos de “festas noturnas” e da “quantidade de pessoas envolvidas”.
“Não é possível imaginar que a sociedade brasileira vai aceitar que não seja apurado tudo e sobre tudo, que não fique pedra sobre pedra e que se puna quem precisar punir.”
“Quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte. Ali é um sacerdócio.”
Frases fortes. Mas a proposta concreta? Ainda não existe. O próprio presidente admitiu que não é jurista e que vai “montar uma comissão de especialistas” para discutir que reforma propor. Em pleno segundo turno, a moralização do Supremo é, por ora, uma promessa sem texto.
Maioridade penal: o “sim, mas não agora”
Questionado sobre a redução da maioridade penal, Lula precisou de três perguntas até a posição ficar clara. Disse ser favorável, “enquanto cidadão”, a punir com mais rigor crimes hediondos. Pressionado, confirmou: é a favor de reduzir para 16 anos. Mas não na PEC em discussão, porque, segundo ele, ela “não é para discutir isso”. Lembrou ainda que o PL tentou emplacar a redução para 14 anos.
É uma posição que tenta agradar a dois públicos ao mesmo tempo: o eleitor que exige dureza e a base que rejeita a mudança. O “sim” vem acompanhado de um adiamento conveniente.
Segurança pública: a União quer entrar no jogo
Lula apresentou a PEC da Segurança Pública como resposta ao crime organizado e fez uma confissão que merece atenção: a Constituição nunca permitiu que a União se metesse na segurança pública, atribuição dos estados. “Eu agora quero me meter”, disse.
Sobre a pressão americana para classificar facções como terroristas, o presidente traçou uma distinção: PCC e Comando Vermelho seriam terroristas “para a comunidade brasileira”, mas não praticam terrorismo de Estado, porque “só querem dinheiro”. Disse ter levado por escrito ao presidente Donald Trump uma proposta de cooperação contra o narcotráfico e citou a aprovação da lei antifacção, que aumenta penas.
Para governadores, o recado é claro: Brasília quer mais poder sobre a segurança. Resta saber se virá acompanhado de recursos ou apenas de comando.
A pergunta que vale mais que a resposta
Uma entrevista com um presidente candidato não serve para que a jornalista vença ou perca um debate. Serve para arrancar respostas que o poder prefere contornar. Desta vez, o contorno foi visível: na dívida, no Supremo e na maioridade penal.
E é exatamente por isso que perguntas incômodas precisam continuar sendo feitas — aqui e em qualquer canto do país. O Portal do Rosas sabe bem quanto isso custa: a recente condenação do jornalista Leonildo Rosas pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre mostra que lembrar o que o poder quer esquecer tem preço.
Se “está todo mundo implicado” no Supremo, quem vai investigar, em quanto tempo e com que transparência? E se a dívida se resolve só com crescimento, o que acontece com as contas públicas no ano em que o crescimento não vier?
