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Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional: media training impecável, respostas em falta e a velha “tática Maluf” em horário nobre

Flávio Bolsonaro na Globo repetiu "tática Maluf" do 1º turno: mentiu, omitiu e fugiu | Toledo

Câmera certa, olhar treinado, sorriso calculado. Por fora, Flávio Bolsonaro chegou à sabatina do Jornal Nacional como um aluno exemplar de media training. Por dentro, o roteiro era o de sempre: pergunta-se sobre A, responde-se sobre B, e quem estiver em casa que se vire para entender.

O senador e candidato à Presidência da República foi entrevistado por Renata Lo Prete e, segundo a análise feita logo em seguida no programa do UOL, repetiu a fórmula do primeiro turno. O jornalista José Roberto Toledo resumiu o desempenho em três verbos que dispensam tradução.

“O Flávio repetiu o que ele fez no primeiro turno. Ele mentiu, omitiu e fugiu, que é a tática Maluf.”

A comparação com Paulo Maluf não é gratuita. É o método clássico de quem sabe que a pergunta incômoda só existe se for respondida.

O golpe? Melhor falar dos motoboys

O exemplo mais escancarado veio quando o assunto foi a tentativa de golpe. Renata perguntou sobre o tema. Flávio respondeu falando dos motoboys de São Paulo. Toledo fez questão de frisar que não estava exagerando.

“A Renata pergunta sobre o golpe e ele responde sobre os motoboys de São Paulo. Eu não inventei essa resposta. Foi literalmente assim que a coisa se deu.”

Segundo o analista, o candidato tinha à frente duas folhas de papel com o roteiro. Sabia exatamente o que queria dizer e disse, independentemente do que lhe fosse perguntado. A entrevistadora insistia uma, duas vezes. Na terceira, desistia, porque nenhuma entrevista sobrevive à mesma pergunta repetida quinze vezes.

Eis o truque: transformar o tempo de televisão em horário eleitoral gratuito, com a jornalista reduzida a figurante.

O treinamento que não resistiu à cobrança

Na forma, Toledo reconheceu o preparo. Flávio acompanhava a troca de câmeras com o olhar, numa técnica básica para esvaziar o poder do entrevistador e criar uma conexão direta com o eleitor. Um domínio que, na avaliação do jornalista, Lula não demonstrou na entrevista da véspera.

Mas o verniz rachou. O candidato que entrou sorridente terminou de cenho franzido, impaciente e interrompendo a entrevistadora no meio das perguntas, o mesmo erro que havia sido apontado em Lula. Resultado: em vários momentos, não se entendia nem a pergunta nem a resposta.

Por que perdeu a paciência? Porque, desta vez, foi cobrado. Diferentemente da sabatina do primeiro turno, Renata Lo Prete apontou repetidamente: “você não respondeu”. Desmentiu algumas afirmações. Outras ficaram pelo caminho.

Dark Horse, Vorcaro e o dedo apontado para a Globo

O momento de maior tensão envolveu o caso Dark Horse, o inquérito que apura o financiamento do filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, no qual Flávio é investigado oficialmente. No mesmo dia da sabatina, a Polícia Federal pediu a prorrogação da investigação.

A defesa do candidato não mudou uma vírgula: o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, seria patrocínio privado, e todos os esclarecimentos já teriam sido prestados. Caso encerrado, na versão dele.

Só que a história tem mais camadas. Como o Portal do Rosas já registrou, o jornalista Paulo Motoryn afirmou no ICL Notícias que Flávio falou ao menos cinco vezes por celular com Vorcaro em setembro de 2025. Patrocínio privado exige tanta conversa ao telefone?

Encurralado, Flávio partiu para o ataque. Comparou seus problemas com o filme aos patrocínios do mesmo Banco Master a programas da própria emissora. Na leitura de outro comentarista do programa, foi um momento “bem acusatório, dedo no rosto”, que reeditou o mau clima entre Jair Bolsonaro e a Globo, apesar de toda a liturgia e da pose civilizada.

A estratégia é conhecida: quando a lama chega perto, espalhe-a para todos os lados. Se todo mundo está sujo, ninguém está.

“Você sabe exatamente em quem está votando”

Para o mesmo comentarista, a frase mais importante da noite foi justamente esta, pronunciada pelo próprio candidato. E ele sugeriu que fosse levada ao pé da letra.

Flávio deixou de lado, em parte, o figurino de “Flávio paz e amor”. E usou mais de uma vez uma palavra que não admite eufemismo: guerra. Guerra contra facções e, por extensão, contra determinados territórios onde vive uma fatia concreta da população brasileira. O analista lembrou que o tema é ainda mais delicado por envolver interesses explícitos dos Estados Unidos na América Latina e, particularmente, no Brasil.

A palavra “guerra”, na boca de um candidato à Presidência, deve sempre ser tomada pelo sentido que tem.

Armas da polícia: assunto “secundário”

Ainda na segurança pública, Flávio foi evasivo sobre as normas que regem o uso de armas de fogo pelas polícias, em especial o registro de armas e munições. Tratou o tema como secundário.

Ninguém precisa de bola de cristal para entender a preocupação. Quando era deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio fez discursos na tribuna, registrados e públicos, relativizando o perigo das milícias. Um candidato que promete guerra e minimiza o controle da munição policial merece, no mínimo, uma pergunta: guerra contra quem, e com que fiscalização?

O 8 de janeiro que, para ele, não aconteceu

Sobre o 8 de janeiro de 2023, Flávio insistiu que não houve golpe, apenas perseguição pessoal de fundo político. A versão esbarra no que o país inteiro viu: a destruição dos três edifícios simbolicamente mais importantes da República.

Esbarra também nas frases do próprio pai, que dizia que só deixaria o poder preso ou morto, e na posterior descoberta de um plano que incluía o assassinato de autoridades. E esbarra no relato do brigadeiro Baptista Júnior, ex-comandante da Força Aérea escolhido pelo próprio Jair Bolsonaro, que, fora do governo, escreveu um livro contando os bastidores da tentativa de golpe que o filho nega.

O que ele prometeu e o que deixou no ar

Entre as fugas, houve declarações que merecem registro, até para cobrança futura:

Note-se o detalhe: o compromisso com o resultado das urnas veio da mesma boca que, minutos antes, negou que tenha havido tentativa de golpe. É uma promessa que se sustenta sozinha?

A moderação possível

Nem tudo foi derrota para o candidato. Uma terceira análise feita no programa avaliou que Flávio conseguiu, em certa medida, demarcar diferença em relação ao pai, longe da ansiedade e da agressividade típicas de Jair Bolsonaro, apesar do nervosismo.

Mas a mesma avaliação registrou o outro lado: perguntas sem resposta, acusações em série contra o PT e Lula, várias delas rebatidas por Renata por não haver investigação comprovada, e informações “jogadas ao vento” que não batiam com os fatos.

Ou seja, a moderação estava no tom. No conteúdo, nem tanto.

A pergunta que ficou sem resposta

Há um detalhe que não pode passar batido. Enquanto Flávio garantia em rede nacional que o caso Dark Horse está esclarecido, a Polícia Federal pedia mais prazo para investigar. E isso num momento em que a própria cúpula da PF esteve no centro de uma disputa no Supremo, com o ministro Flávio Dino reconduzindo o diretor-geral Andrei Rodrigues ao cargo e invalidando decisão de André Mendonça, como noticiou o Portal do Rosas.

Se estivesse tudo explicado, por que a investigação continua? E se não há nada a esconder, por que tanto esforço para falar de motoboys quando a pergunta é sobre golpe?

O próprio candidato deu a deixa: o eleitor sabe exatamente em quem está votando. Resta saber se sabe também em tudo aquilo que ele se recusou a responder.

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