O Sonambulismo Acreano e o Abismo sem Fim

2–3 minutos

Quem traz na memória a poeira das estradas e os rios que costuram o interior do Acre carrega também um termômetro muito claro do termostato social da nossa gente. Da infância no isolado Foz do Breu, passando pelas águas de Porto Walter até a consolidação da vida em Cruzeiro do Sul, o que se testemunha hoje não é apenas a passagem do tempo, mas uma inquietante metamorfose coletiva. O presente tornou-se um caos palpável, enquanto o futuro se desenha como uma tela em branco — ou pior, uma grande fenda escura.

Enquanto os problemas estruturais se avolumam — a crise na saúde, o sufocamento da economia local, a fragilidade das garantias básicas —, a reação pública é o silêncio e o torpor. Diante dessa paralisia, é impossível não notar o fenômeno dos templos religiosos que brotam em cada esquina, oferecendo anestésicos para a angústia terrena. Como cantava Gilberto Gil na atemporal Procissão, a multidão “vai passando… se arrastando como cobra pelo chão”, resignada a sofrer no presente sob a promessa de um amanhã celestial, esquecendo-se de cobrar a dignidade no agora.

A iminência de um novo teste nas urnas para o Legislativo estadual e federal não parece despertar o gigante adormecido. Pelo contrário, o que se avizinha é o velho e manjado roteiro da engrenagem eleitoral: milhões de reais despejados para mercantilizar a consciência popular. Votos barganhados por sacolões e promessas efêmeras, operando o paradoxo mais cruel da nossa democracia — a utilização do dinheiro do próprio contribuinte para financiar a compra de sua submissão.

Na corrida pela Presidência da República, o cenário repete o script da alienação. O eleitorado consome energia odiando o vizinho por figuras que, em grande parte, sequer sabem apontar as coordenadas geográficas do Acre no mapa nacional.

Mais grave ainda é o vácuo programático no debate para o Executivo estadual. O debate político local patina no marasmo do “lenga-lenga”. Não há projetos de desenvolvimento a longo prazo, não há metas ousadas para tirar o estado da rabeira dos indicadores socioeconômicos. Há apenas o silêncio obsequioso de candidatos que evitam compromissos firmes, cientes de que o sonambulismo geral não gera cobrança. O próximo inquilino do Palácio Rio Branco assumirá com uma única e mesquinha missão: acomodar seus apadrinhados, lotear secretarias e gerenciar a inércia, enquanto os derrotados tentarão se vender para manter uma nesga de poder.

Diz-se comumente que o Acre chegou ao fundo do poço. A metáfora, contudo, peca pelo otimismo. O verdadeiro perigo da atual conjuntura política e social é descobrir, da pior maneira possível, que o fundo do poço também tem subsolo. E é para lá, na escuridão sob a terra batida, que caminhamos a passos lentos e adormecidos. Pobre Acre.

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