Por André Kamai*
O prefeito Sebastião Bocalom parece ter perdido completamente o senso de prioridade na condução da cidade. Não se trata de um problema da Prefeitura enquanto instituição — que conta com servidores de carreira qualificados e equipes técnicas comprometidas —, mas de uma escolha política clara do chefe do Executivo e do núcleo que define os rumos da atual gestão.
Enquanto milhares de famílias enfrentam diariamente a falta de água, ruas esburacadas, ônibus quebrados e esgoto correndo a céu aberto, o prefeito insiste em direcionar milhões de reais para a construção de um viaduto faraônico ao lado do Horto Florestal — um dos últimos espaços verdes que ainda resistem na capital. Trata-se de uma evidência clara de uma gestão que privilegia o concreto e a visibilidade de grandes obras, em detrimento das necessidades reais da população.
Cidades que pensam o futuro estão desmontando viadutos, não construindo novos. No Rio de Janeiro, a demolição do Elevado da Perimetral abriu espaço para revitalização urbana. Em Seul, a remoção de um elevado deu origem a um parque linear que reduziu a temperatura, melhorou a qualidade de vida e impulsionou a economia local. Em Rio Branco, por decisão direta do prefeito, seguimos na contramão do mundo, enterrando o futuro sob toneladas de concreto e insistindo em um modelo urbano ultrapassado.
*O Horto Florestal e a falsa solução para o trânsito*
O Horto Florestal não é apenas uma área de lazer. Ele cumpre função ambiental estratégica: regula o microclima, ameniza o calor e protege o igarapé São Francisco. Construir um viaduto ao seu lado equivale a erguer um verdadeiro radiador de concreto, ampliando ilhas de calor, comprometendo a circulação do ar e sufocando a floresta urbana. Em tempos de secas severas e enchentes extremas, essa escolha evidencia a incapacidade da atual gestão de dialogar com a crise climática que já afeta a cidade.
Além disso, especialistas em mobilidade urbana são praticamente unânimes: viadutos não eliminam congestionamentos. No máximo, deslocam o problema alguns metros adiante, no fenômeno conhecido como demanda induzida. Enquanto isso, o transporte público permanece abandonado por decisão política, com terminais desativados, ônibus sucateados e um sistema precário que empurra o trabalhador para a motocicleta ou para o automóvel.
*Cidade inteligente” no discurso, prioridades trocadas na prática*
Outro anúncio do prefeito foi a construção de um edifício-garagem no Centro da cidade, reforçando a mesma lógica ultrapassada de mobilidade urbana. Cidades que hoje são referência vêm abandonando esse tipo de estrutura, por compreenderem que ela consome recursos públicos, cria espaços urbanos hostis e incentiva o transporte individual. Em vez de ouvir a área técnica e investir em transporte coletivo de qualidade, ciclovias integradas e calçadas seguras, a gestão insiste em obras que empobrecem a vida urbana.
Na contramão do que pensa e prega Bocalom, uma publicação da revista científica Smart Cities (MDPI), atesta que “cidades inteligentes utilizam tecnologia, dados e governança integrada para melhorar a qualidade de vida, promover sustentabilidade e enfrentar desafios sociais e ambientais”. No mesmo sentido, a Organização das Nações Unidas, por meio do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 11, afirma que cidades inteligentes e sustentáveis devem priorizar mobilidade coletiva, espaços públicos de qualidade, inclusão social e eficiência ambiental. Em Rio Branco, porém, o prefeito tenta vender grandes estruturas de concreto como modernidade, enquanto a cidade segue há quatro anos sem sequer a publicação do edital de concessão do transporte coletivo, operando com contrato provisório, serviço precário e ausência total de planejamento. Falar em “cidade inteligente” sem garantir transporte público digno e eficiente não é visão de futuro — é retórica vazia. Na semana passada, o prefeito reuniu a imprensa para anunciar um grande empreendimento imobiliário com prédios de até 40 andares e um shopping no Centro, escancarando ainda mais essa inversão de prioridades e a distorção do conceito de cidades inteligentes.
É importante, por fim, fazer uma distinção necessária: empreendimentos imobiliários e centros comerciais não são, em si, um problema, e investimentos privados são bem-vindos e podem contribuir para o desenvolvimento econômico da cidade. O problema surge quando o poder público passa a tratar esse tipo de projeto como prioridade da Prefeitura, enquanto demandas estruturais dos bairros — como saneamento, mobilidade, habitação popular, creches, saúde básica e infraestrutura urbana — seguem sem resposta. Em uma cidade como Rio Branco, que ainda precisa concentrar esforços para garantir serviços e direitos básicos à população, cabe à iniciativa privada liderar projetos dessa natureza, enquanto à Prefeitura compete planejar a cidade, organizar o território e assegurar qualidade de vida para todos
*O preço das escolhas: centro concentrado, bairros abandonados*
Em pleno 2026, ciclovias seguem abandonadas, calçadas esburacadas se transformam em armadilhas para pedestres e idosos, e o Centro Histórico agoniza entre violência, prédios depredados e comércio esvaziado. Ainda assim, o prefeito concentra grandes obras em um único eixo da cidade, especialmente na Avenida Ceará e na Dias Martins, criando rotas de alta velocidade ao lado do Horto Florestal enquanto os bairros enfrentam abandono.
As contradições de prioridade ficam ainda mais evidentes quando observamos as obrigações básicas negligenciadas pelo poder público. Rio Branco enfrenta falta de vagas em creches, cobertura insuficiente da atenção básica em saúde, ausência frequente de medicamentos nos postos, dificuldades no abastecimento de água potável, déficit habitacional e esgotamento sanitário insuficiente. Ainda assim, o prefeito insiste em anunciar como solução um programa de casas de madeira com banheiro de madeira — promessa feita no início de sua primeira gestão e que, até hoje, não entregou uma única moradia, apesar de já ter consumido milhões de reais dos cofres públicos.
Não estamos discutindo apenas obras isoladas, mas o futuro de Rio Branco. O prefeito encaminhou à Câmara Municipal uma proposta de alteração do Plano Diretor com mudanças que viabilizam exatamente esse modelo de cidade baseado em verticalização, grandes empreendimentos e mais concreto. Por isso, é fundamental que a população participe ativamente das audiências públicas sobre o Plano Diretor, previstas para este semestre. Também é imprescindível que a Câmara Municipal, o Ministério Público, o Tribunal de Contas, o CAU e o CREA avaliem com rigor os impactos urbanos, ambientais e sociais dessas escolhas.
O resultado é claro: enquanto o centro recebe concreto, os bairros vivem o abandono. Esse é o preço que a população está pagando pelas escolhas do prefeito.
*André Kamai é sociólogo, vereador de Rio Branco e presidente estadual do PT Acre

