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Os estudantes da UFAC deram uma aula de motivação ao mágico (e à Reitoria) no Teatro/UFAC

Por Francisco O. D. Veloso*

Estava agendado para 6/6 o evento de lançamento do Planejamento Estratégico 2024-2033 na UFAC, com a presença de um mágico/palestrante.

Marcado para as 14h30, o evento atrasou. 

Por volta das 14h40 um grupo considerável de estudantes tomaram o palco ao som de tambores e alternaram-se ao microfone listando as pautas reivindicadas: 

• Reitoria e estudantes não defendem o mesmo projeto de universidade. 

 

• A UFAC ignora as necessidades dos alunos. Bolsas diminuíram de 600 (x R$ 400,00 = R$ 240.000,00) para 105 (x R$ 700,00 = R$ 73.5000). Aumentaram o valor, mas diminuíram a quantidade de alunos atendidos. O que a comunidade acadêmica pede é que seja explicado a alocação de recursos. 

 

• Evasão é alta. Os estudantes estão preocupados com a evasão, que tem correlação direta com a pobreza, alta no Acre. Evasão significa perpetuar a pobreza, pois tem-se na oportunidade de formação de qualidade a possibilidade de uma vida melhor.

A universidade se revela elitista. Uma aluna falava ao microfone e, a certa altura, interrompeu sua fala para chamar a atenção de membros da plateia que riam durante a fala: “Isso aqui é sério”. Como pode alguém não ter percebido a seriedade do que estava acontecendo?

• Citaram a incongruência entre a imagem da UFAC, construída com muita positividade nas redes sociais, e as dificuldades enfrentadas no cotidiano.

• Estudantes fizeram referência, sem detalhes, ao problema de assédio moral e sexual. Sobre assédio moral escreverei um texto, futuramente. 

O evento foi cancelado quase uma hora depois.  

A Reitora subiu ao palco, informou o cancelamento e pediu desculpas ao mágico/palestrante. 

Justificou o embaraço dizendo que “infelizmente” era muito difícil ser reitor de uma universidade quando se é mulher – outros reitores, homens, inclusive, já enfrentaram situações bem piores em outras IFES.

A Reitora reelegeu-se em chapa única e não havia enfrentado, até agora, oposição real, ao vivo e em cores. A ex-Presidente Dilma Rousseff ou a ex-Reitora Roselane Neckel, da UFSC, por exemplo, passaram por situações aterradoras pelo fato de serem mulheres e em nenhum momento apelaram para a pauta de gênero. Ao fazê-lo, a Reitora presta um desserviço à sociedade.

A UFAC deve desculpas ao mágico/palestrante talvez por tê-lo arrastado para dentro dos problemas que a própria administração tem criado, tais como não responder às muitas perguntas e dúvidas existentes em diversos níveis da instituição. 

A Reitoria deve desculpas à comunidade universitária por ter montado um evento recreativo quando deveria ser um evento acadêmico. 

Deve agora explicações sobre os gastos de um serviço que não foi realizado e quanto foi o prejuízo aos cofres públicos.

Talvez tenha, até agora, faltado à administração superior sensibilidade para captar os humores e rumores que informam que algo está fora do lugar. A própria história é cheia de casos que demonstram que ignorar necessidades básicas pode servir como combustível para revoltas. 

A comunidade acadêmica não quer entretenimento, menos ainda motivação, porque isso tem-se até em demasia, inclusive. 

Motivação para trabalhar e fazer ‘o melhor’ depende de diversos fatores que permeiam o dia a dia: ambiente sadio e dignidade humana, condições materiais adequadas e transparência, principalmente por se tratar de recursos públicos.

Na próxima semana a Reitoria irá reunir-se com os estudantes. 

Espera-se esclarecimentos e ações que atendam de fato as demandas e necessidades dos estudantes. 

Quanto ao Planejamento Estratégico 2024-2033, o corpo docente e técnico-administrativo aguardam para conhecê-lo além da metodologia de trabalho. 

O evento do último dia 6/6 colocou a administração superior da UFAC diante de uma encruzilhada. Ou continua a ignorar os muitos problemas, tais como assédio e condições de trabalho (inclusive dos estudantes), como se fossem desaparecer por mágica, ou traçar ações de trabalho que possam resolver os muitos problemas que afligem a comunidade acadêmica. 

Os estudantes demonstraram que o bordão “nossa querida UFAC” é vazio e já não se sustenta. 

A realidade (física) estourou a bolha digital.

Os estudantes da UFAC deram uma aula de motivação ao mágico (e à Reitoria) no Teatro/UFAC.

*Francisco O. D. Veloso é professor/pesquisador no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália). IG: fveloso.

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