Por Francisco O. D. Veloso*
Luiz Inácio Lula da Silva foi o terceiro candidato entrevistado pelos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcelos. Candidato experiente, concorre a esta vaga de emprego com a vantagem de já tê-la ocupado anteriormente, por oito anos. Mas não é o fato de já ter sido presidente que lhe dá vantagem, mas é seu preparo intelectual. Lula é um homem que entende o mundo. Os muitos títulos de Doutor honoris causa atestam sua competência intelectual.
Alguns anos atrás, conversava com um membro do corpo diplomático brasileiro em Hong Kong e aproveitei para tentar extrair impressões. O diplomata havia trabalhado diretamentecom FHC e Lula. Na comparação, ainda que discretamente,salientou a inteligência e a capacidade de organização de Lula diante de crises. Entrava na sala e já começava a apresentar soluções e distribuir tarefas. Claro que não consigo lembrar das palavras, mas lembro do dinamismo que a narrativa do Consul invocou. Foi este o Lula que falou hoje para o Brasil.
Do início ao fim, Lula comandou a entrevista com segurança. Sem pausas para pensar, sem repetições, sem gestos corporais que parecem desafiador. As ideias fluíam naturalmente.
Bonner abriu a entrevista perguntando sobre corrupção e Petrobrás, mas Lula estava preparado e, antes de responder, deixou claro que esperava por esse momento. Somente depois de 5 anos sendo massacrado, inclusive pela própria Globo, poderia finalmente falar ao vivo e conversar com o povo brasileiro. Tratou a lava-jato como o que é, uma operação política. Dali, Lula já partiu para a economia, ao citar como a operação destruiu a indústria civil brasileira – mas Bonner disse que depois falariam sobre economia, tentando conter o entrevistado.
Ao introduzir o tópico, Bonner citou vários problemas que esperam o próximo presidente e queria saber como Lula iria recuperar o equilíbrio das contas. Bonner foi lembrado, por Lula, que este havia recebido o Brasil quebrado das mãos de FHC.
Ainda sobre economia, Bonner refere-se à ‘receita petista’. Esta ideia demonstra uma incompreensão da complexidade do mundo moderno.
Richard Bookstaber, no livro The end of theory: Financial crises, the failure of economics, and the sweep of humaninteraction (2017) [O fim da teoria: Crises financeiras, o fracasso da economia e a explosão da interação humana], aparentemente ainda sem tradução para o português, discute exatamente o fracasso das teorias econômicas vigentes porque ignoram a complexidade do mundo moderno. Estas teorias foram desenvolvidas quando o mundo era muito mais simples e o impacto de atos políticos e o humor da população tinha menos impacto na economia. Esta ideia já tem circulado faz algum tempo.
Ainda em 2017, o economista-chefe do Banco da Inglaterra, Andrew Haldane, em entrevista ao jornal inglês The Guardian, admitiu que sua profissão estava em crise exatamente pela incapacidade do setor de prever a crise de 2008 – porque os modelos econômicos atuais não consideram o “comportamento irracional na era moderna” (tradução minha). Portanto, falar em ‘receita petista’ é ignorar a complexidade do mundo moderno. Lula deixou claro que não existe receita.
Um clichê extensivamente repetido por ‘anti-petistas’, quando pressionados, é dizer “vai pra Cuba”. O JN entrou nesta seara e questionou a relação de Lula (e do PT) com ditaduras. Obviamente, citou Cuba, o que ajuda a reforçar o clichê. Mas Lula deixou claro que é um democrata e que deve respeitar a autodeterminação dos povos. Cada país cuida do seu país.
Em 26 de junho de 1964 o então embaixador da ditadura militar brasileira, recém-instalada, disse que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Anos mais tarde, Barack Obama disse, em discurso público, que “o que é bom para os EUA é bom para o mundo”. Lula, poucos dias depois, corrigiu Obama – isso mesmo! – e disse que “o que é bom para os EUA é bom para os EUA”. Isso é patriotismo. É saber o nosso lugar no mundo.
Se alguém acha ruim a relação do Brasil com a China (outro clichê explorado na bobagem nossa bandeira nunca será vermelha), por exemplo, saiba que nos supermercados chineses pode-se encontrar freezers horizontais cheios de pé-de-galinha brasileiro. Quando os vi pela primeira vez pensei: agora eu sei para onde vão os pés-de-galinha que não comemos no Brasil. Na Tailândia, além de uma deliciosa salada feita com este produto, também se acha (ou achava, nos fartos tempos lulistas) biscoitos brasileiros facilmente em pequenas lojas de conveniência. Isso se chama política externa altiva do Governo Lula, do PT.
Ao ser perguntado por Vasconcelos sobre o mensalão, Lula parte para o orçamento secreto. Segundo Reinaldo Azevedo, o orçamento secreto tem 16 bilhões neste ano e 19 bilhões previstos para 2023. É muito dinheiro sem supervisão. Lula desconstrói o Centrão, definindo-os como ‘partidos cartoriais’, um ‘cartel’, partidos de conveniência. Basta ver como esses políticos trocam de partido como trocam de roupa. Chama Bolsonaro de ‘bobo da corte’ e absolutamente incompetente – foi Bolsonaro quem criou esse monstro orçamentário.
Foram muitas as vezes em que Lula pareceu ignorar Bonner e deu toda a atenção para Renata Vasconcelos. Conversava com ela – foi o oposto do que aconteceu na primeira entrevista, com o dublê de presidente. Vi comentários que Lula não falou sobre a mulher, mas ele fez melhor. Tratou Vasconcelos com respeito.
Quando Bonner quis falar sobre vaias da militância petista contra Alckmin, Lula foi taxativo: “Bonner, não estamos vivendo no mesmo mundo. Alckmin foi aplaudido de pé” em muitas ocasiões, e numerou várias delas.
Impressionou a quantidade de vezes que principalmente Bonner referiu-se ou ao mandato da ex-Presidente Dilma Rousseff, ao ‘partido dos trabalhadores’, ao PT ou à militância do PT. Não é acidental. A militância incomoda talvez porque, apesar de todos os problemas, o PT é de fato o único partido orgânico neste país. Possui várias correntes, mas existe um senso de unidade e propósito.
Claro que o PT, a partir do momento que chegou ao poder, aos poucos foi absorvendo velhas raposas e oportunistas que estavam no lugar certo e na hora certa, mas que desembarcaram rapidamente quando já não interessava. Tenho a impressão de que, no Acre, os ‘petistas de ocasião’contribuíram para a rejeição do partido nas últimas eleições. Porém, pularam do barco ao achar que levariam 20 anos para o PT voltar ao poder. Vamos acompanhar o fluxo de oportunistas nos próximos anos.
Lula, em nenhum momento, abandonou os seus. Admitiu erros, mas não encabulado, inseguro. Mostrou – e não foi refutado – que em seu governo, com Dilma, com o PT, as instituições funcionavam, tinham recursos e nunca tivemos um ‘engavetador geral da república’. Curiosamente, a última vez que tivemos um, foi com FHC do PSDB.
Lula deu, na bancada do JN, uma aula de como se concede uma entrevista, como segurar a palavra e conduzir a conversa. Porque tem conhecimento, tem paixão pelo o que faz. O gostoso em ouvir Lula é poder confiar nas suas palavras, pois construiu uma carreira política sólida, foi virado do avesso, “como nunca antes na história desse país”, e provou a sua inocência.
Hoje, checando os portais de notícia, não há sequer uma notícia que diga que Lula errou ou mentiu sobre algum dado.
Isso nos dá confiança em elegê-lo novamente como líder maior.
Ainda acho patético que esta mesma mídia que ajudou a criar o bolsonarismo venha, agora, perguntar como Lula irá solucionar problemas que eles ajudaram a criar.
Além da Globo, basta ver em alguns portais de notícias. Um deles diz: “Lula admitiu corrupção”. Mas essa mídia parece ter ignorado quando Lula citou exemplos de corrupção na França, Alemanha, Inglaterra (um dos países mais corruptos do mundo). Corrupção é um problema global e deve ser investigado sem destruir empresas que geram emprego, produzem conhecimento.
Em seu minuto final, Lula fala para o telespectador. Ideias sólidas, coerente, apaixonado. Ele quer cuidar do Brasil, não governar – ele sabe e explica a diferença.
Tudo isso aconteceu em 40 minutos, depois de anos sendo perseguido, preso por 580 dias, depois da morte de sua esposa, o falecimento do neto, perseguição contra familiares. Sofreu todo tipo de tentativa de destruição de reputação que se pode imaginar.
Getúlio Vargas, diante da pressão política, cometeu suicídio em 24 de agosto de 1954.
Em 25 de agosto de 2022, exatamente 68 anos e 1 dia depois, Lula se senta na bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo, um dos seus atormentadores de longa data, e marca seu retorno em grande estilo.
Nunca antes na história desse país se viu um retorno triunfal como este.
Lula sai dessa entrevista gigante. Do tamanho que é e como será lembrado pela História.
*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).

