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Bolsonaro foi reprovado na entrevista de emprego no JN

Por Por Francisco O. D. Veloso*

Nesta segunda-feira tivemos a primeira entrevista de emprego para os quatro postulantes a Presidente nas eleições de 2022.

Se em outros anos a entrevista ocorria na bancada do Jornal Nacional, este ano o formato foi diferente. Os apresentadores Renata Vasconcelos e William Bonner estavam em estúdio no Rio de Janeiro, exclusivamente para as entrevistas. Isso significa que houve mais dedicação e preparo à tarefa.

Por sorteio, o candidato Jair Bolsonaro foi o primeiro entrevistado.

A primeira pergunta ao candidato Jair Bolsonaro foi direta: o senhor irá respeitar os resultados das urnas? Notemos que são as mesmas urnas e sistema através dos quais ele e seus filhos foram eleitos diversas vezes. Bolsonaro não respondeu, de fato, pois condicionou (DESDE QUE) o resultado: se forem limpas e auditáveis, ele diz que sim, irá respeitar o resultado das eleições.

No livro Alice Através do Espelho, de Lewis Carrol, entre os vários diálogos absurdos entre Humpty Dumpty (um ovo com pernas e braços) e Alice, existe um em particular que guarda semelhanças com a resposta do candidato. Humpty Dumpty diz à Alice que a palavra glória significa o que ele quiser porque tudo depende de quem manda. Assim pensa também o candidato Jair Bolsonaro – como um personagem fictício.

Renata Vasconcelos apontou o fato de que tivemos, no governo Bolsonaro, cinco ministros da educação. Todos saíram de forma vergonhosa, pelas portas dos fundos. Bolsonaro disse que “as pessoas se revelam quando chegam”. Essa é uma frase muito usada para falar de pessoas que decepcionam como amigos, talvez. No trabalho, antes de contratarmos alguém, verifica-se a qualificação, a capacidade de gerência. Foi Jair Bolsonaro quem nomeou pessoas que não estavam aptas para a função. Clássico Bolsonaro: evade suas responsabilidades.

Ao ser perguntado sobre o desmatamento da Amazônia, Bolsonaro atacou a Europa. Não poupou ninguém, mas concentrou-se na Alemanha, inclusive que reativaram usinas de carvão devido à invasão russa na Ucrânia.

Quando pressionado, tentou jogar a responsabilidade no IBAMA, mas como não colou e continuava a ser pressionado, retrucou Renata Vasconcelos: Você pensa que é fácil monitorar uma área daquele tamanho? Admissão de incompetência. Novamente, foge de suas responsabilidades.

Falou sobre a redução no preço dos combustíveis, mas foi seu governo que permitiu que o preço da gasolina chegasse perto dos 10 reais. Foi Bolsonaro que atrelou o preço da gasolina ao dólar para gerar riqueza para investidores. As medidas tomadas para redução da gasolina só duram até dezembro, ou seja, é uma medida puramente eleitoreira para enganar a população.

Ontem, ao longo do dia, a mídia noticiou que o candidato havia recusado treinamento. Bolsonaro tinha cola nas mãos – que já viraram piada na internet mas já servem como base para outras interpretações. Mas a cola na mão, independente do conteúdo, demonstra a incapacidade de organização.

Tinha, à sua frente, sobre a bancada, um papel amassado, possivelmente com lembretes, que saiu de algum bolso. Esses detalhes revelam o profissional desleixado, desorganizado, que é. Esse despreparo mambembe me faz ter dúvidas, inclusive, da ausência de treinamento.

O candidato estava ali para falar para sua base, para receber aplausos por manter-se firme na defesa do kit covid e outros desvarios, como tratar o STF como inimigo para continuar fustigando sua base, sustentada predominantemente por um discurso emotivo. Falou para o seu público.

O candidato tentou, de várias formas, parecer um presidente competente, mas mostrou o quanto é despreparado. Tinha um minuto para fechar a entrevista e falar ao povo brasileiro. Começou a listar realizações que nem suas são, mas foi interrompido. Nem o precioso tempo que tinha para se dirigir aos eleitores foi bem administrado.

Parece que Bolsonaro até que se saiu bem, se olharmos da superfície, pois conseguiu manter minimamente o controle emocional. Entretanto, conseguiu mostrar todo o seu despreparo para o emprego que postula.

Hoje os portais de notícias exibem várias análises sobre a entrevista. Apontam as mentiras, a diferença de tratamento dispensada aos jornalistas Renata Vasconcelos e William Bonner.

Existe uma ironia nisso tudo. Esta mesma mídia que hoje expõe os defeitos do candidato ao emprego de Presidente foi aquela que o deixou falar o que quisesse quatro anos atrás naquela mesma entrevista porque, naquela ocasião, servia aos interesses. Pensavam que iriam domar o candidato que ruge como um leão, mente compulsivamente, evade responsabilidades e que acabou protagonizando a cena mais patética da política brasileira: tentar tomar o celular de um rapaz que o chamava de ‘tchutchuca do centrão’. Correu, puxou a camiseta do rapaz, como se fosse um moleque de rua.

De tudo, o que me intriga nesta aventura bolsonarista é o fato de que minta tanto e receba apoio apaixonado de muitos pastores evangélicos. Talvez sejam os valores que compartilham. Li, em algum lugar, que os pastores que circulavam pelo ministério da educação (assim mesmo, minúsculo) pediam propina em barras de ouro – cujos valores são incontestáveis.

Como se não bastasse, hoje acordamos com a notícia de ações da PF na casa dos vários empresários que, em grupo privado, defendem um golpe e tratam a possível violência que seguiria como um mal necessário. Estes são alguns dos apoiadores do candidato ao emprego.

Considerando a performance péssima do funcionário público nos últimos quatro anos, a falta de conhecimento e visão de futuro, sua performance fraca na entrevista de emprego desta segunda-feira, nada mais apropriado do que o bordão de um outro presidente incompetente que acabou de receber, em casa, visita do FBI: You’re fired!

*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).

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