Ícone do site Portal do Rosas

CHICO MENDES ENTRE A MEMÓRIA E O ESQUECIMENTO

Marcos Montysuma*

O Acre trocou as suas ricas florestas, por pasto para boi. Isso aconteceu no início dos anos de 1970. Não é novidade para ninguém. Frente à sanha destrutiva, os sindicatos dos seringueiros resistiram à altura. Nesse cenário destacara-se a liderança de Chico Mendes. A sua atuação, na defesa da floresta e da cultura seringueira, foi feita com ações claras.

O discurso articulado e contundente era uma característica inabalável de sua personalidade política. Sua projeção no cenário local e internacional transformou-se numa ameaça, ainda maior, para os poderosos. Estes, pela visão limitada e torpe encontraram no seu assassinato a única maneira de enfrentá-lo. A data fatídica foi 22 de dezembro de 1988.

Nos dias de hoje, quando nos avizinhamos dos 34 anos de sua morte, vivemos uma espécie de segundo assassinato do sindicalista. Chocou seus companheiros, o Acre e o Brasil a depredação da estátua erigida em sua homenagem. Foi arrancada e jogada ao chão, na Praça da Floresta, em Rio Branco no dia 1°/7/2022 – as fotos dantescas correram o mundo.

Interpreto que a cena do monumento no chão expressa algo maior. A mensagem transmitida por essa violênciapropõe o apagamento da memória. E algo mais. Quem se filia a um dado pertencimento, por uma estrutura de sentimentos, voltado para a defesa das culturas das florestas, assim como o Chico, está sob a ameaça de receber o mesmo fim: ser assassinada/o. Uma vez assassinado, os seus despojos, relíquias e memórias devem ser apagados, destruídos. Não há outra conclusão possível, diante do que vimos acontecer. O que é vida vira morte. O que é memória sofre apagamento. Tanto as vidas ceifadas, quanto os monumentos destruídos projetam o esquecimento.

Diante disso, proponho pensarmos no(s) assassinato(s) e na estátua destruída, não como fenômenos isolados. Porque não são manifestações, situações ímpares, sem igual. Não são aquilo que os especialistas em estatística chamam de “um ponto fora da curva”. Muito pelo contrário, há propósito nisso tudo. São ações corriqueiras, repetidas e, pasmem, banalizadas.

Quando somadas,conseguimos elaborar uma estatística. Nela remontamos uma linha do tempo. Onde é possível mostrar os altos e baixos, com mais e menos ocorrências. Logo, não é algo desprezível que se deva deixar o tempo cobrir e esquecer.

Convém registrar que, num país em que um candidato propõe “metralhar petistas”, outro fala em “rasgar as multas” por crimes ambientais, nenhuma situação de violência pode ser tomada como algo banal. Porque além da violência e morte como silenciamento, esquecimento, deparamo-nos ainda com uma segunda violência a perturbar os mortos, que consiste no apagamento de suas memórias, sob as mais variadas formas.

A história da violência praticada por alguns agentes do Estado brasileiro, ainda é recente e não foi esclarecida. Até hoje seus autores continuam impunes. São mortos e desaparecidos. Muitas famílias não puderam dar um enterro digno aos despojos do familiar.

Por outro lado, a história do apagamento da memória dessa violência também continua sem esclarecimentos. Quem inicia uma discussão, bem documentada, sobre essa questão é o jornalista Lucas Figueiredo, na obra “Lugar Nenhum – militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura” (Companhia das Letras, 2015). No livro é demonstrado de modo insofismável sob a prática metodologicamente calculada, a política do apagamento da memória daqueles.

E o pior de tudo é que até hoje não houve instituição, organismo, organização, setor ou poder público que tivesse forças para enfrentar essa situação,protegendo a nação dessas práticas. Não temos a quem recorrer. Quem age livremente sabe que conta com a cumplicidade do Estado, de suas Instituições. Sejam as questões apontadas no livro citado, ou mesmo a destruição da estátua.

Considerando o dito acima, proponho interpretarmos esses fenômenos não como questões pessoais. Nem o assassinato do Chico Mendes, nem a destruição de sua memória monumentalizada. Antes de mais nada é necessário entender assassinato e depredação da estátua como exercícios em redes. Porque estão associados e foram planejados. Existem conexões, composições, arranjos e fomentações. Isso não pode ser ignorado.

Convém termos em mente as denunciadas listas e valores cobrados por jagunços para assassinarem. Nelas constam valores pagos para matarem líder sindical, sindicalista, padre, advogado, ecologista. Isso ocorre em todo o País, mas na Amazônia a situação é bem mais aguda.

É longa a lista das vítimas dessa política. Se há lista de preço para matar, significa que há quem contrate a morte de alguém. Por isso a ideia da cabeça da cobra tem que ser seguida, para pôr um basta na violência. Há quem se beneficie dela.

Se temos a ideia de atos planejados, eles expressam a ação violenta de grupo organizado que compõe a cabeça da cobra. Esta ainda não foi alcançada pelo braço da justiça. Que deveria ter ocorrido, já nos anos de 1980, quando reunia para planejar assassinatos.

Os nomes constam nos dossiês entregues às autoridades desde àquela época. Mas ao que tudo indica fizeram vistas grossas, ouvidos moucos. Nada foi feito, porque venceu a necropolítica, determinando que uns podem viver e outros devem morrer.

Admitindo o princípio de existirem atos articulados, que são praticados por uma rede de interesses, logo chegaremos à ideia da violência como uma cultura. E na sequencia teremos que tanto o assassinato do líder seringueiro, quanto a depredação de sua estátua, ocorreram/ocorrem sob uma cultura política da violência que propõe o esquecimento.

[Antes de seguir o raciocínio, explico aqui, em resumo, a título de interpretação, que denomino por cultura tudo que consiste e incide no modo como construímos o mundo. Seja o mundo material ou imaterial. Que também explica as atitudes e comportamentos socialmente compartilhados. As práticas que orientam as sociabilidades e relações com o plano divino e as divindades. E ainda tudo quanto designamos e ordenamos no plano mental, do espírito, expresso pela linguagem, como aquilo que é tangível e essencial aos grupos humanos na vida ordinária.]

O contexto de violência, pelo assassinato e destruição da estátua, me projeta na mente o linguista alemão Harald Weinrinch, em Lete – arte e crítica do esquecimento (Civilização Brasileira, 2001). O autor defende que as sociedades humanas construíram uma linguagem do esquecimento, desde os momentos mais recuados no tempo. Não só nas línguas neolatinas, mas também nas de tronco germânico, a linguagem do esquecimento está muito bem sedimentada.

A cultura do esquecimento está alicerçada num conjunto de palavras. Essas expressam com designações claras os modos, as formas, circunstâncias de esquecimento. Também apontam as situações, as práticas, as atitudes que concretizam ou remetem ao esquecimento.

Se pensamos em mantermos um dado conteúdo do que aconteceu, isso já não é possível. Porque mais impera o esquecimento sistematicamente construído socialmente. Assim temos uma cultura do esquecimento construída por meio de palavras e atos que o significam. Se pudéssemos exemplificar a relação entre memória e esquecimento, poderíamos pensar na imagem do bloco de gelo coberto pela água com uma ponta de iceberg exposta.

A maior parte do gelo está submersa na água. Assim é o esquecimento em relação à memória. A maior parte foi apagado, esquecido. Logo, há uma infinitude de conteúdos esquecidos, não abarcados pela memória, que pudesse ser útil por não estar disponível para utilizar, exercendo papéis entre nós.

Por isso convém tomar cuidado e elevar a prontidão. Espreita-nos uma violência gratuita. Ela visa apagar, destruir a memória que resta do que foi Chico Mendes. Mas há algo pior na destruição da estátua: é a expressa mensagem de ameaça a quem ousar manter sua memória viva para as gerações futuras.

*Marcos Montysuma é Prof de História Oral / Departamento de história/ UFSC

Sair da versão mobile