QUE DILEMA! Um acusado de ser chefe de organização criminosa tem moral para afastar delegados investigados?

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Competente e bem informado, o jornalista Adailson Oliveira (TV Gazeta) trouxe a público reportagem que aborda investigação, em segredo de Justiça, contra três delegados de policia civil.

Segundo a reportagem, os investigados são acusados de corrupção.

O fato é anormal por si só, mas ganha contornos ainda maiores de anormalidades porque os delegados são os responsáveis justamente por investigar crimes de corrupção no âmbito do governo do Estado.

Após a publicação dos fatos, os investigados recorreram à Justiça, que mandou retirar o material do ar.

Isso é censura.

Mas seria infantilidade analisar os fatos de forma simplória, sem considerar os pormenores que podem estar por trás dos motivos que levaram ao vazamento do que corria em segredo judicial.

Para o jornalista obter as provas que embasaram a sua reportagem, alguém vazou. E o responsável pelo vazamento tem os seus interesses não revelados.

Jornalista gosta de boas histórias. É algo inerente à profissão. Acusação de corrupção contra quem tem o dever de combater a corrupção sempre é pauta que enche os olhos.

O Espinhoso, porém, vem acompanhado uma briga intestina que há muito tempo é travada no estômago da Polícia Civil do Acre.

Há vaidades em jogo e intrigas com potencial  de promover vazamentos seletivos capazes de atingir quase de morte a imagem da instituição.

Por conhecer a situação, o Espinhoso sempre agiu com a devida cautela.

Sem entrar no mérito da investigação contra os delegados, não há como negar que eles têm mexido com muita gente importante e poderosa nos últimos anos.

Foi por meio das investigações que genro e filho de deputados foram presos por fazerem transações ilegais no governo, principalmente na Secretaria de Estado de Educação e Esporte.

Foi um desses delegados que trouxe à baila o escândalo da Máfia dos Precatórios, que impactou indiretamente no resultado das eleições da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Com fontes boas, batizadas de Pipiras, o Espinhoso sabe que há muitas outras investigações em curso, inclusive contra pessoas que trabalham ao lado do governador.

Desmoralizar os investigadores, portanto, seria maneira mais fácil de jogar na vala comum dos malfeitores aqueles que têm a missão de combater os crimes.

Acho que os delegados, com a reportagem, devem tirar algumas lições. A primeira é que não se deve expor os investigados publicamente na mídia, como costumam fazer.

Sentiram na pela o que é o julgamento midiático e, por mais que provem a inocência, jamais conseguirão se livrar desse doloroso carimbo.

A reportagem ganhou o mundo, mesmo tendo sido censurada pela Justiça.

Que fique a lição.

Também ficou claro que viraram “bodes na sala” do governo e a nota da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) deixa isso cristalino.

“Não é novidade as pressões que as autoridades ‘denunciadas’, assim como a própria instituição vem sofrendo por apurar, investigar, prender e bloquear bens de grandes empresários, políticos e servidores jamais alcançados neste Estado”, diz trecho da nota.

Está escrito de forma subliminar, mas a acusação de que há forças poderosas trabalhando contra os delegados fica saliente no texto.

Impossível finalizar o texto sem citar o governador Gladson Cameli. Com microfone de Adailson Oliveira no queixo, o chefe do Executivo gaguejou, falou muito, mas não disse nada.

Veja o vídeo:

 

Adailson Oliveira, com a sua reportagem, colocou lenha no fogueira.

Que os delegados acusados se esmerem em provar que são inocentes e que sintam o quanto é duro ser expostos publicamente sem o devido julgamento e condenação na Justiça.

Gladson Cameli, por sua vez, mesmo que queira tirar os bodes da sala, tem que ser coerente com a sua situação.

Ele é investigado e acusado de ser chefe de uma organização criminosa que desviou R$ 828 milhões do erário. Se resolver afastar as autoridades policiais, abre margem para que ele mesmo passe a ser considerado culpado daquilo que a Polícia Federal lhe acusou.

Esse é o dilema.