Dia do Professor no Acre: a “pedagoga” Mailza Cameli discursa, a Justiça Eleitoral cobra o diploma e as escolas seguem com teto de palha

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Todo 15 de outubro, o roteiro se repete: posts oficiais, vídeos emocionados e discursos sobre a “nobre missão” de ensinar. Neste ano, porém, a homenagem do Palácio Rio Branco tem um problema de origem. Quem lidera o coro é uma governadora que se apresenta como pedagoga e que, neste exato momento, responde na Justiça Eleitoral à acusação de ter apresentado um certificado falso de conclusão do curso de Pedagogia.

A frase é dela, repetida como um mantra de campanha:

“Eu sou pedagoga e sei que quando uma criança aprende, o futuro dela começa a mudar.” — Mailza Assis Cameli

Bonito. A pergunta que o Acre ainda espera ver respondida é mais simples: cadê o diploma?

Uma data comemorativa com processo nas costas

Mailza Assis Cameli é favorita para renovar o mandato. Mas chega ao Dia do Professor carregando uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que pede a cassação de sua chapa. A ação foi protocolada pela Coligação Trabalho da Esperança (Republicanos, PSD, Novo e Avante) e pelo candidato ao governo, o senador Alan Rick, como o Portal do Rosas noticiou em 26 de setembro.

Os desdobramentos não pararam aí. Em 29 de setembro, este portal revelou que a Polícia Federal seria acionada para investigar a autenticidade do certificado apresentado no registro da candidatura. Em 7 de outubro, veio mais uma reviravolta: a data de formação mudou, e a governadora teria se formado em junho deste ano. Pouco depois, o site relacionado ao caso foi tirado do ar.

Datas que se movem, páginas que desaparecem. Coincidência?

Como a apuração foi feita por este colunista, a convicção aqui é clara: o documento não se sustenta. A governadora já tentou justificar a situação de várias formas e, até agora, não convenceu. E vale lembrar o óbvio: apresentar documento falso é crime e pode resultar em cassação, além de outras implicações judiciais. A palavra final é da Justiça. Mas o silêncio sobre um papel tão simples de exibir fala por si.

A história que o Palácio prefere esquecer

Para entender por que um diploma de Pedagogia não é um detalhe, é preciso voltar no tempo. Coisa que, no Acre, as pessoas costumam esquecer.

Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) passou a exigir que os professores da rede pública tivessem curso superior. O prazo para o cumprimento da regra era de dez anos, com data-limite em 2007.

Durante anos, nada foi feito. Milhares de professores corriam o risco de perder o emprego. Era gente que dificilmente teria condições de enfrentar um vestibular e concorrer com candidatos mais jovens.

Formação de verdade, com sala de aula de verdade

A virada veio na gestão do petista Jorge Viana, que tinha como secretário de Educação o professor Binho Marques, depois seu sucessor no governo. Foram implantados programas de formação para universalizar e qualificar o magistério acreano.

Entre eles estava o Programa Especial de Formação de Professores para a Educação Básica, criado em 2001 em parceria com a Universidade Federal do Acre (Ufac). Por meio da pedagogia modular, o programa oferecia licenciatura plena em Pedagogia a professores das redes municipal e estadual que atuavam na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Também havia licenciaturas específicas para quem lecionava nos anos finais do fundamental e no ensino médio.

Paralelamente, foi criado um programa especial de formação pedagógica para bacharéis que já davam aulas nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.

O resultado foi mais matrículas e mais formandos na Ufac, além da valorização salarial e profissional dos professores. E os números responderam: a educação do Acre deixou a última posição do país para figurar entre as melhores.

Milhares de professores acreanos suaram para conquistar o diploma de Pedagogia em sala de aula, depois de jornadas inteiras lecionando. É esse diploma que hoje está sob suspeita no gabinete mais alto do Estado.

Oito anos de ladeira abaixo

A decadência veio nos últimos oito anos. Alunos passaram a estudar em curral. A merenda escolar virou fartura para corruptos. O Acre regrediu às últimas posições. E, para coroar a fase, a suspeita de diploma falso chegou ao topo do poder.

Esta é a parte que não aparece nos relatórios oficiais nem nos posts do Dia do Professor.

Comece pelo bolso

Em 2022, o governo Gladson de Lima Cameli mexeu na tabela da educação e reduziu o percentual de 10% para 7%. Na prática, menos dinheiro no contracheque de quem sustenta a escola pública.

O retrato das escolas

  • Feijó: uma escola indígena foi denunciada por funcionar com teto de palha e sem piso. Pior do que um paiol.
  • Zona rural de Rio Branco: a escola Boa União foi encontrada sem conselho escolar e com recursos federais travados. Servidores tiravam dinheiro do próprio bolso para comprar o básico.
  • Jordão: 15 estudantes ficaram sem aula porque a Secretaria de Educação não autorizou a abertura de uma turma de ensino médio.
  • Merenda escolar: o Ministério Público investiga um esquema de corrupção na alimentação dos alunos.
  • Rio Branco: estudantes que reivindicavam transporte foram agredidos durante um protesto.

Enquanto isso, a pauta do Palácio é explicar por que as datas de formação da governadora não batem.

Quem ganha e quem perde

Quem ganha: o marketing oficial, que transforma o 15 de outubro em vitrine e troca política educacional por frase de efeito. Ganha também quem lucra com a merenda sob investigação e com a falta de fiscalização nas escolas do interior.

Quem perde: o professor que viu a tabela encolher. O aluno indígena de Feijó que estuda sob palha. Os 15 jovens de Jordão sem ensino médio. Os servidores da Boa União que bancam a escola com o próprio salário. E perdem, sobretudo, os verdadeiros pedagogos do Acre, que veem o título conquistado com esforço virar adereço de campanha.

No dia 15 de outubro, o professor acreano não precisa de parabéns. Precisa de salário recomposto, escola com piso e respeito. Homenagem de verdade é isso.

A prova que falta

Há um gesto que encerraria a polêmica em segundos: a governadora apresentar o diploma. Não um certificado de datas cambiantes, não uma justificativa nova a cada semana. O diploma.

Por respeito aos professores que ela diz homenagear, esse seria o mínimo. Esta coluna, porém, considera a missão quase impossível. No confronto entre a verdade e a versão, a avaliação parece ter resultado previsível.

Se a frase de campanha diz que, quando uma criança aprende, o futuro dela começa a mudar, que lição o Acre está ensinando às suas crianças quando a maior autoridade do Estado não consegue comprovar o próprio curso? E até quando a Justiça Eleitoral vai deixar essa pergunta sem resposta?