Sorte grande para quem? Grupo da Paraíba tenta abocanhar a Loteria do Acre sem licitação e em plena eleição, aponta reportagem

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Tem gente que não joga, mas quer ficar rica com a loteria. E, pelo visto, sem enfrentar fila, concorrência ou edital.

A manchete não nasceu no Acre. Veio de longe, de um veículo de imprensa da Paraíba, e caiu como uma bomba na política acreana: empresários paraibanos estariam articulando a operação da nova loteria estadual do Acre sem licitação, com o aval da gestão da governadora Mailza Assis e em pleno ano eleitoral.

O título da reportagem dispensa tradução:

“Empresários da Paraíba tentam dar bote na Loteria do Acre sem licitação e com a bênção de Mailza em plena eleição.”

Coincidência de calendário? Ou é justamente em tempo de campanha que certas portas se abrem com mais facilidade?

A ponte aérea da sorte

Segundo a reportagem paraibana, um grupo de empresários montou uma verdadeira ponte aérea para tentar abocanhar a operação da loteria estadual acreana sem passar por concorrência pública.

O texto menciona documentos internos oficiais que mostrariam que a jogada foi articulada para viabilizar a contratação direta, atropelando a disputa de mercado. Não se trata, portanto, de boato de corredor: a publicação afirma ter papel na mão.

De acordo com o relato, os encontros entre operadores privados e integrantes do poder público se multiplicaram nas últimas semanas, com viagens constantes entre Rio Branco e João Pessoa e reuniões a portas fechadas no próprio comitê e em secretarias de Estado. A ponte aérea teria funcionado nos dois sentidos, incluindo recepções informais para orientar e alinhar as exigências da burocracia governamental.

Repare no detalhe: reuniões no comitê. Não é a primeira vez que o vaivém de empresários em torno do núcleo político do governo chama a atenção. O Portal do Rosas já mostrou o movimento no imponente prédio rosa da Avenida Ceará, em Rio Branco, na reportagem “PORONGA: O beija-mão no comitê rosa de Mailza Assis e a misteriosa fila de empresários na porta de Madson Cameli”. Se há ligação entre aquela fila e este caso, cabe às autoridades apurar. O padrão, porém, merece lupa.

Um dos pontos mais graves da denúncia é a engenharia administrativa. Para que o projeto avançasse sem entraves, a estrutura governamental teria transferido as competências do negócio para a pasta do Esporte e para a da Fazenda, com o objetivo de acelerar o processo.

Quando a máquina pública reorganiza competências sob medida para que um negócio ande mais depressa, a pergunta é inevitável: ela está servindo ao interesse público ou a um interesse específico?

No processo administrativo interno, ainda segundo a reportagem, as justificativas foram sendo montadas para defender a dispensa de concorrência sob o argumento de contratação de serviço técnico especializado. O texto vai além: aponta alterações em publicações oficiais para enquadrar o serviço nessa categoria.

É o roteiro conhecido de quem não quer disputar mercado: primeiro se escolhe o parceiro, depois se escreve a justificativa. A papelada vira roupa sob medida.

Licitação não é capricho burocrático. É a única garantia de que o dinheiro e o patrimônio público não viram prêmio para quem tem acesso aos gabinetes certos.

A própria reportagem resume o pano de fundo: o caso levanta questionamentos sobre a influência de grupos do mercado de apostas do Nordeste sobre a máquina pública do Acre durante o período eleitoral.

Há um amargor inevitável nessa história. O Acre se acostumou a ver seus filhos fazendo as malas.

“Até hoje eu achava que era o povo do Acre que estava indo para a Paraíba. Mais de 100 mil pessoas foram embora. Agora eu descobri que os paraibanos querem tirar a sorte grande do Acre.”

O acreano vai embora em busca de oportunidade. O empresário de fora chega em busca de contrato. E a conta, como sempre, fica para quem ficou.

E agora, quem vai fiscalizar?

É preciso registrar com clareza: as acusações partem de uma reportagem publicada na Paraíba, com base em documentos que o veículo afirma ter obtido. Cabe ao governo do Acre explicar, ponto por ponto, o que está sendo negociado, com quem e sob qual fundamento legal. Silêncio, a esta altura, também é resposta.

E cabe às instituições fazerem o que delas se espera. O recado ficou dado sem rodeios:

“Investiga, Ministério Público! Faz alguma coisa! Deputados, denunciem! Isso é uma excrescência. A oposição também tem que denunciar.”

A Assembleia Legislativa vai convocar alguém para se explicar ou vai fingir que a manchete não existiu? O Ministério Público vai requisitar o processo administrativo ou vai esperar o contrato ser assinado? E a oposição, tão barulhenta em época de campanha, vai transformar a denúncia em fiscalização de verdade ou apenas em santinho eleitoral?

Porque, nesse jogo, uma coisa é certa: quando a loteria é montada a portas fechadas, quem aposta é sempre o povo. E quem ganha nunca é ele.