Após descartar confronto na véspera, candidato do PL muda de posição em meio à redução da vantagem sobre Lula nas pesquisas e ao acirramento da disputa a 11 dias do segundo turn
O avanço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em levantamentos recentes e os sinais de acirramento da disputa presidencial coincidem com uma mudança brusca na estratégia de Flávio Bolsonaro (PL). Depois de anunciar na terça-feira (13) que não participaria do debate da Band, o candidato bolsonarista voltou atrás nesta quarta-feira (14) e confirmou presença no confronto marcado para domingo (18).
A reviravolta acontece em meio a pesquisas que começam a mostrar redução da vantagem conquistada por Flávio na largada do segundo turno e à circulação, nos bastidores das campanhas, de trackings — levantamentos internos realizados diariamente para orientar decisões estratégicas, inclusive sobre propaganda e participação em debates.
Na pesquisa PoderData/AYA divulgada nesta terça-feira (13), por exemplo, a distância entre os candidatos nos votos válidos caiu de seis para apenas dois pontos em cinco dias. Flávio passou de 53% para 51%, enquanto Lula avançou de 47% para 49%. Como a margem de erro é de 1,8 ponto percentual, os dois aparecem em empate técnico.
A BTG/Nexus, também divulgada na terça, trouxe Flávio com 52% dos votos válidos e Lula com 48%, igualmente em situação de empate técnico dentro da margem de erro. Um dos movimentos mais expressivos ocorreu entre os eleitores de 16 a 24 anos: Lula saltou de 49% para 57% nesse segmento.
Trackings aumentam pressão na reta final
Além das pesquisas públicas, números atribuídos a levantamentos internos das campanhas passaram a circular intensamente nos últimos dias. Os chamados trackings são utilizados justamente para detectar movimentos do eleitorado com maior rapidez e orientar mudanças de estratégia — entre elas a decisão de participar ou não de debates.
Esses números, porém, exigem cautela: como pesquisas internas não são necessariamente divulgadas com metodologia, amostra e demais informações exigidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para levantamentos públicos, os supostos vazamentos que circulam nas redes não podem ser tratados com o mesmo grau de confirmação das pesquisas registradas.
O jornalista Guga Noblat, por exemplo, relatou nesta quarta-feira (14) que teve acesso a um tracking do PL que mostra Lula já à frente de Flávio Bolsonaro, causando apreensão na campanha bolsonarista.
Flávio dizia que não iria; menos de 24 horas depois, mudou de ideia
Foi nesse ambiente que Flávio protagonizou a segunda mudança importante de posição em poucos dias — depois de também recuar sobre o fim da escala 6×1.
Na terça-feira, após um evento com integrantes do MDB em São Paulo, o senador havia sido taxativo ao ser questionado sobre o debate da Band.
“Não vou, não está previsto esse debate domingo. Estamos analisando, quem vai dar a palavra final vai ser a minha equipe técnica de ir no último debate”, afirmou, referindo-se ao confronto da TV Globo na reta final da campanha.
Lula respondeu confirmando imediatamente que estaria na Band.
“Domingo eu estarei no debate da Bandeirantes. Eu espero que o meu adversário compareça para que a gente possa fazer com que o povo tenha conhecimento da diferença de programa, da diferença de candidatura”, afirmou o presidente.
A emissora aumentou a pressão ao anunciar que o programa seria realizado mesmo sem Flávio. Pelas regras acertadas, o púlpito do candidato ausente permaneceria vazio durante a transmissão.
Menos de 24 horas depois, Flávio recuou.
“Lula, como você é previsível, né? Bastou falar que não ia ao debate da Band para você, no minuto seguinte, falar que vai. É claro que eu vou ao debate, eu só queria que você confirmasse”, declarou em vídeo nas redes sociais.
A versão apresentada pelo candidato do PL é que a recusa teria sido uma estratégia para obrigar Lula a confirmar sua presença.
Primeiro cara a cara
O debate da Band, marcado para domingo, às 20h, será o primeiro confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro nesta eleição.
Nenhum dos dois participou dos debates entre os principais candidatos no primeiro turno. Agora, com uma diferença que já caiu para dois pontos no PoderData e a campanha de Lula intensificando atos de rua, mobilização digital e ataques às propostas econômicas de Flávio, o custo político de evitar um confronto televisionado aumentou.
A própria campanha bolsonarista já demonstra preocupação com a reação petista em outras frentes. A mobilização digital pró-Lula, especialmente em grupos de WhatsApp, chegou a acender um alerta no entorno de Flávio e levou sua equipe a intensificar a contraofensiva nas redes e na Justiça Eleitoral.
A mudança sobre o debate ocorre, portanto, no momento em que Flávio ainda aparece numericamente à frente nas principais pesquisas, mas já não encontra o mesmo cenário confortável da largada do segundo turno. E, com a distância começando a diminuir em levantamentos recentes, a estratégia de administrar a vantagem sem confronto passa a carregar um risco que, aparentemente, o candidato do PL decidiu não correr.

