Racismo, assédio moral e gaslighting no debate da UFAC

5–7 minutos

O que os episódios do debate da reitoria da UFAC revelam sobre a cultura do abuso – e porque isso importa

Francisco Osvanilson Dourado Veloso*

No dia 12 de março de 2026, durante o debate entre candidatos à reitoria da UFAC, dois episódios envolvendo integrantes da mesma chapa expuseram, ao vivo, um padrão de conduta que merece ser nomeado.

O primeiro foi um comentário racista postado no chat da transmissão pela Profa. Maria de Jesus Moraes (Chapa Mudança Radical) contra a candidata a Vice-Reitora da Chapa Juntos pela UFAC como instrumento de questionamento público – e que ganhou enorme visibilidade midiática. Isso foi natural, porque estamos mais intolerantes quanto ao racismo, um sintoma de uma sociedade mais saudável e segura para todos.

O segundo, menos visível na repercussão, foi a desqualificação do currículo ada competência da mesma candidata pela Profa. Raquel Alves Ishii. Diferentes em forma, conectados em lógica.

Comecemos pelo comentário no chat. Ele não respondia ao conteúdo do que a professora candidata estava dizendo naquele momento: respondia à pessoa. É exatamente assim que o racismo opera quando não quer ser reconhecido como tal: ele não ataca o argumento, ataca a legitimidade de quem argumenta, e usa para isso uma marca identitária — raça, gênero, origem — como sinal de suspeita. Uma pergunta retórica que induz a audiência a elaborar uma resposta mentalmente. Houve um pedido de desculpas.

A retratação publicada pela Profa. Maria de Jesus Moraes merece leitura cuidadosa, porque ela própria exemplifica o mecanismo que pretende desmentir.

Ao descrever o comentário como “infeliz”, e não como errado, a nota escolhe uma palavra que sugere acidente de percurso, não responsabilidade – um “foi sem querer”.

Ao afirmar que não houve “intenção de disseminar racismo”, desloca o problema da consequência para a intenção, como se o impacto de um ato racista dependesse de o autor tê-lo planejado.

Ao invocar trinta anos de trajetória na UFAC como parte da retratação, mobiliza capital institucional acumulado como argumento de defesa pessoal. Tempo de casa não é atenuante moral. Neste contexto, como em muitos outros, é exatamente o oposto: é a experiência que deveria tornar o ato menos compreensível, não mais. Ou seja, exatamente por isso, não deveria tê-lo feito.

O segundo episódio exige um olhar diferente, porque não há nele nenhuma palavra que, isolada, pareceria problemática.

Durante o debate, a candidata Raquel Ishii colocou em dúvida publicamente a competência e o currículo da professora candidata — não como adversária política, mas como docente, como profissional (a pessoa já havia sido atacada).

Avaliar o curriculo dos seus pares em público, durante uma campanha, diz muito sobre a candidata. Não é debate de ideias: é descredenciamento.

Ao descredenciar o outro, a candidata busca credenciar-se. É uma estratégia política muito comum, discutida em artigos científicos (ver Veloso & Feng, 2018 como uma introdução ao tópico).

Porém, descredenciamento sistemático, dirigido a uma pessoa específica, em contexto institucional, tem nome: assédio moral.

Quando se examina a seleção dos argumentos, o padrão das conclusões e o contexto em que tudo isso ocorreu: em público, em um debate institucional, dirigido a uma mulher negra pela candidata Profa. Raquel Ishii, candidata a reitora da chapa Mudança Radical.

É uma estratégia de exclusão, não de argumentação.

Nos dias que seguiram o debate, tem circulado internamente, na UFAC, a narrativa de que a professora candidata a Vice-Reitora e seus apoiadores estariam utilizado o caso com fins eleitorais.

Essa inversão é previsível e merece ser nomeada: quando alguém sofre um ato discriminatório em público e decide não silenciar, a resposta mais frequente dos responsáveis é questionar a motivação de quem denuncia, não o ato em si.

A pergunta passa a ser “por que ela está falando nisso agora?” em vez de “o que aconteceu é aceitável?”. Isso não é debate. É uma tentativa de mudar o assunto enquanto a atenção ainda está viva e fugir à responsabilidade.

Há um problema mais amplo aqui, que vai além dos episódios do dia 12 de março.

Instituições como universidades públicas desenvolvem, ao longo do tempo, uma tolerância silenciosa a certas formas de conduta que, em tese, contradizem seus princípios. Essa tolerância não é passiva: ela é ativa.

Mantém-se porque as pessoas que testemunham não intervêm, porque os processos de responsabilização não funcionam, como é o caso da UFAC, que tenho muito bem documentado (incluindo assédio da servidora Raquel Ishii), e porque quem é atingido frequentemente está sozinho diante de estruturas consolidadas.

O resultado é que comportamentos que deveriam ser excepcionais tornaram-se rotineiros – e o que é rotineiro deixa de ser visto.

Uma eleição para a reitoria de uma universidade federal não é uma disputa administrativa entre plataformas de gestão.

É uma escolha sobre quem terá poder e responsabilidades — sobre carreiras, sobre condições de trabalho, sobre quem tem voz e quem não tem dentro da instituição. Sobre o futuro da ciência e do conhecimento produzido no Acre, para a melhoria da vida das pessoas.

A desqualificação pública e sistemática de uma candidata: sua competência contestada, seu currículo descredenciado, sua identidade usada como instrumento de dúvida constitui-se assédio moral. Foi um padrão de conduta exercido por integrantes da mesma chapa, no mesmo evento, contra a mesma pessoa. Alguns desses servidores públicos federais vem repetindo o mesmo comportamento há anos.

Quando esse padrão gerou reação, a resposta foi minimizá-lo como mera ‘infelicidade’, acusar quem foi atacado de fazer política, e sugerir que a repercussão foi exagerada, como se o problema estivesse na percepção de quem sofreu, não no ato de quem praticou. Ou seja, mimimi. Isso também tem nome: é gaslighting.

E gaslighting, como o assédio que o precede, é uma forma de exercício de poder.

A comunidade acadêmica da UFAC tem o direito e a responsabilidade de levar isso em conta antes de decidir a quem entrega a gestão da instituição pelos próximos quatro anos.

Há uma questão mais ampla que esta eleição não pode continuar ignorando: o assédiomoral e o bullying institucional dentro da UFAC precisam entrar na pauta de campanha.

A instituição já possui mecanismos formais para isso – comissão de ética, ouvidoria.

O problema é que essas instâncias sistematicamente não funcionam quando e como deveriam. E tenho as evidências para afirmar isso. O MPF e a CGU os têm, pois eu mesmo enviei.

Denúncias são engavetadas.

Padrões de conduta documentados não geram consequências.

O resultado é uma cultura institucional que protege quem agride e isola quem denuncia.

Tudo isso às custas de dinheiro público.

Qualquer candidatura que se pretenda comprometida com uma UFAC diferente precisa responder, concretamente, o que fará para mudar a cultura de abuso, assédio, bullying e racismo na instituição.

* Francisco Osvanilson Dourado Veloso é Professor do Centro de Educação, Letras e Artes (CELA) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Doutor em Linguística Aplicada. Foi professor da Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU), Universidade de Bolonha (Itália). Foi Professor Visitante na Universidade de Bremen (Alemanha), Universidade de Modena e Reggio Emilia (Itália), Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso (Chile).