Você já imaginou ser multado por dirigir a apenas 13 quilômetros por hora? Pois foi exatamente isso que aconteceu com Walter Arnold, empresário e pioneiro da indústria automobilística britânica, há 130 anos. O episódio não apenas entrou para os livros de história, como também deu enorme visibilidade à sua recém-criada fábrica de carros, a Arnold Motor Carriage.
Era 28 de janeiro de 1896, nas ruas de Paddock Wood, em Kent, nos Estados Unidos, quando Arnold acelerou seu veículo movido a motor a gasolina. O carro, uma espécie de carruagem moderna, viajava a 13 km/h, quadruplicando o limite local de 3,2 km/h para ruas da cidade. A cena parecia saída de um filme de Chaplin: um policial de bicicleta perseguindo o motorista audacioso pelas ruas de terra.
Multa histórica e tribunal
Arnold foi levado ao tribunal perante um magistrado que lidava com crimes graves, e não um juiz de trânsito moderno. Além do excesso de velocidade, o motorista cometeu outras três infrações: conduzir em ruas proibidas para veículos sem cavalos, não exibir identificação visível e dirigir sem o sinalizador necessário à frente. O advogado de defesa argumentou que os limites não se aplicavam a carros a gasolina, mas o juiz rejeitou o argumento e aplicou uma multa de 4,7 libras — equivalente a cerca de 635 libras hoje.
Estratégia de marketing?
Nunca se soube se Arnold foi imprudente ou se planejou a infração como publicidade. O fato é que a história o colocou nos jornais britânicos sem nenhum custo adicional, alavancando as vendas da Arnold Motor Carriage. Um ato que custou apenas a multa tornou-se um dos primeiros exemplos de marketing automotivo.
Arnold e seu sócio Henry Heweston haviam obtido licença para fabricar veículos do Benz Velo, projeto de Karl Benz. A experiência de Bertha Benz, que fez a primeira viagem longa de carro para promover o invento, pode ter inspirado Arnold a usar a notoriedade como estratégia de divulgação.
Nunca se soube ao certo se a infração de Walter Arnold foi um ato genuíno de imprudência ou uma jogada publicitária para colocar o Arnold Motor Carriage, o carro fabricado por sua própria empresa recém-criada, nas páginas dos jornais britânicos — Foto: Reprodução
Cinco anos após a multa, limites de velocidade foram ajustados para até 24 km/h e a “Corrida da Emancipação” entre Londres e Brighton celebrou a nova era dos automóveis. Arnold venceu a corrida dirigindo o mesmo carro de sua histórica infração. A fábrica prosperou temporariamente, mas encerrou atividades em 1899.
A corrida foi recriada em 1927 e hoje é realizada anualmente como a Corrida de Carros Veteranos de Londres a Brighton, mantendo viva a lembrança do pioneirismo e da audácia de Walter Arnold.
O episódio mostra como o automóvel transformou a sociedade e a legislação. De um carro que viajava a 13 km/h até as modernas regras de trânsito, a história de Arnold nos lembra que cada avanço tecnológico encontra obstáculos — e, às vezes, oportunidades inesperadas — no caminho.
