Estudo publicado na revista Nature aponta que obra, alvo de pressão do Congresso, contribuirá para o desmatamento e o salto de doenças infecciosas transmitidas por animais
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Luis Felipe Azevedo — Rio de Janeiro Um novo parecer publicado na revista científica “Nature” defende a reversão de medidas recentes tomadas pelo governo federal que favorecem as obras de pavimentação da BR-319, rodovia que conecta Manaus, no coração da Floresta Amazônica, a Porto Velho, no “arco do desmatamento”. Segundo os pesquisadores, o asfaltamento do trecho pode prejudicar as metas climáticas ao acelerar a perda da biodiversidade no bioma, além de propiciar saltos de zoonoses — doenças infecciosas transmitidas dos animais para os seres humanos — que podem desencadear novas pandemias.Construída durante a ditadura militar, no início dos anos 1970, a via foi abandonada na década seguinte e costuma ficar intransitável entre dezembro e maio por conta do lamaçal do período chuvoso. Em novembro, um grupo de trabalho foi criado pelo governo federal para estudar o assunto. A pavimentação da estrada é apoiada pelo governo do estado e por parlamentares.
O estudo, assinado pelos pesquisadores Lucas Ferrante e Guilherme Becker, aponta que o governo brasileiro “está minando suas próprias alegações de que está protegendo a Amazônia”. O anúncio da pavimentação, por meio da inclusão do trecho do meio da rodovia no Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia (PRDA) — para o período de 2024 a 2027 —, ocorreu dois dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursar na cúpula climática COP28, em Dubai.
— Este bloco da floresta é o maior reservatório de patógenos do nosso planeta, tais como vírus, fungos, bactérias e príons. O asfaltamento aumentará tanto o desmatamento como a mobilidade humana na região. Estes fatores tendem a propiciar saltos zoonóticos que podem resultar em uma sequência de pandemias e no fortalecimento da disparidade na saúde pública— explica Ferrante.
Na Conferência, realizada em dezembro do ano passado, o chefe do Executivo afirmou que “o planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos” e defendeu a retomada do multilaterialismo para a aceleração do cumprimento das metas de descarbonização da economia.
Veja a reportagem completa em O GLOBO.

