Yuval Harari: ‘Temos conhecimento para derrotar a Covid-19. Se falharmos, é culpa dos políticos’

Yuval Harari: ‘Temos conhecimento para derrotar a Covid-19. Se falharmos, é culpa dos políticos’

Historiador israelense lança HQ baseada em seu best-seller ‘Sapiens’, diz que, sem conhecimento, abrimos espaço para teorias da conspiração ridículas e afirma: ‘Religiões são orgulhosas. A ciência é humilde’

Ruan de Sousa Gabriel

SÃO PAULO — Depois de vender milhões e de livros e rodar o planeta alertando sobre os perigos da guerra nuclear, do colapso ecológico e da disrupção tecnológica, Yuval Noah Harari enfrentou um desafio dos mais inusitados: virou personagem de história em quadrinhos. Coube ao ilustrador belga David Vandermeulen desenhar a indefectível careca e os sóbrios óculos retangulares do historiador israelense na graphic novel “Sapiens”, cujo primeiro de quatro volumes chega nas livrarias brasileiras na próxima sexta-feira (13).

Nos quadrinhos, parceria do israelense com o francês Daniel Casanave, um simpático Harari explica como os humanos dominaram o mundo. Para narrar essa história, ele conta com a ajuda de outros cientistas (reais e inventados) e de personagens como a super-heroína Dra. Ficção e o detetive Lopez, que tenta apanhar um perigoso serial killer, responsável pela extinção de espécies animais. Algum palpite de quem seria esse assassino?

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Também na sexta, a Companhia das Letras lança uma nova edição de “Sapiens: uma breve história da humanidade”, o maior best-seller de Harari, que vendeu mais de 16 milhões de cópias em 60 idiomas e era publicado no Brasil pela L&PM. Em setembro, saiu “Notas sobre a pandemia”, reunião de artigos e entrevistas publicados na imprensa entre março e abril e nos quais o historiador alertou: “o verdadeiro antídoto para epidemias é a cooperação”. Em entrevista exclusiva (e por e-mail) ao GLOBO, ele lamentou que, “depois de quase um ano de pandemia, ainda não temos um plano de ação global”.Falou ainda sobre a amizade do presidente brasileiro Jair Bolsonaro com o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu e apontou os culpados pelo fracasso no combate à Covid-19.

Todos os anos, Harari passa 15 dias num retiro de meditação silenciosa. Ele ainda aconselhou que, quem puder, “bote a mente de quarentena neste fim de ano para desintoxicá-la e se recuperar”.

— Nos últimos meses, tivemos que lidar não só com um vírus infeccioso, mas também com pensamentos infecciosos propagados por mídias virais.

Adorei. Foi um dos projetos mais divertidos em que já trabalhei. Num livro de história acadêmico, você pode até contar uma piada, mas o tom geral tem que ser sério. Numa HQ, há espaço para o humor. O principal objetivo dela é levar a ciência a mais pessoas. Cientistas geralmente repetem números, fatos e estatísticas, mas a maioria das pessoas gosta de histórias. Então, tentamos contar histórias científicas. Insisti que não fosse o único cientista da história para mostrar que a ciência é um esforço colaborativo. Sou um novato no mundo das HQs e trabalhar em colaboração com o ilustrador me fez admirar a complexidade do formato. Alternar entre texto e imagem exigiu respostas a perguntas difíceis. Num livro, é só escrever que os humanos descobriram como controlar o fogo. Desenhar um ser humano pré-histórico usando fogo exige algumas decisões complicadas: o primeiro humano a controlar o fogo era homem ou mulher? Jovem ou velho? Branco ou negro? Tivemos que nos debruçar sobre a literatura científica e fazer muita pesquisa.

Num artigo incluído no livro “Notas sobre a pandemia”, você afirma que a ciência tomou o lugar da religião e se tornou nosso “mecanismo de defesa” contra morte. Como defender a ciência dos ataques de populistas e fundamentalistas religiosos sem transformá-la numa nova religião?

As religiões são orgulhosas. Afirmam ter todas as respostas. Seus livros sagrados nunca estão errados. A ciência é humilde. Admite a ignorância e o erro. É por isso que, com o passar o tempo, os cientistas melhoram os remédios enquanto os sacerdotes só melhoram suas desculpas. Para evitar que a ciência se torne uma religião, os cientistas devem permanecer humildes. O público deve ter cuidado e confiar não em um só cientista ou teoria, mas em instituições como universidades e publicações científicas que, ao avaliar diferentes cientistas e teorias, estabelecem a verdade. Instituições científicas confiáveis dependem do apoio do público, da liberdade de expressão de investimentos em educação.

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A pandemia vai mudar nossa relação com a morte?

De modo algum. Hoje em dia, a morte é vista como um problema técnico. É um bug do sistema, algo que a ciência pode resolver. Quando as pessoas morrem em acidentes ou de doença, melhoramos os procedimentos de segurança e inventamos novos tratamentos em vez de dizer que é a vontade de Deus. Neste momento, bilhões de dólares estão sendo investidos no desenvolvimento de remédios, tratamentos e vacinas. Não nos resignamos à morte. Enxergamos o vírus como um problema que podemos resolver. E, de fato, podemos. Se quisermos evitar esse tipo de sofrimento no futuro, temos que ser espertos e nos preparar desde já. Espero que esta crise nos convença de que estamos mais seguros quanto todos estão seguros. Se todos tiverem acesso a serviços de saúde, se todos os países tiverem centros de monitoramento de doenças contagiosas, a chance de futuras epidemias saírem do nosso controle será muito menor.

Em “Homo Deus”, lançado em 2015, você escreveu que não encararíamos uma nova pandemia como “uma calamidade natural inevitável”, mas como um “fracasso humano indesculpável” e que demandaríamos “a cabeça dos responsáveis”. Devemos pedir a cabeça de quem pelo fracasso no combate ao coronavírus?

Dos políticos que, deliberadamente, desinformaram o público atacando a ciência e os especialistas. Quando a Peste Negra se espalhou no século XIV, faltava aos humanos o conhecimento necessário para superar a pandemia. Não dá para culpar reis medievais pela catástrofe. Hoje temos todo o conhecimento científico necessário para conter e derrotar a Covid-19. Se falharmos, é culpa da incompetência dos políticos

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No início da pandemia, você alertou sobre a necessidade de pensar em estratégias globais. O coronavírus prejudicou a cooperação internacional?

Nos últimos meses, assistimos à incrível colaboração de cientistas de todo o mundo, trocando suas descobertas. Boa parte dos artigos científicos sobre o novo coronavírus foram escritos em parceria por pesquisadores que trabalham em universidades e laboratórios diferentes ao redor do mundo. É um modelo de cooperação com o qual devemos aprender. Infelizmente, a nível político, a situação é bem diferente. Depois de quase um ano de pandemia, ainda não temos um plano de ação global. Nem um plano médico para conter a pandemia nem um plano econômico para lidar com a crise. Não há liderança. Me preocupa que estejamos em círculo vicioso e que o nosso fracasso em formular uma resposta global e efetiva resulte em uma crise ainda mais severa, o que talvez leve as pessoas a se voltarem, desesperadas, a líderes autoritários que vão dificultar ainda mais a cooperação internacional.

Quando esteve no Brasil, no ano passado, você disse que as três as principais ameaças à humanidade são a guerra nuclear, o colapso ecológico e a disrupção tecnológica. A pandemia mudou essa lista?

Não. A pandemia não mudou tendências a longo prazo. A Covid-19 não vai destruir a humanidade. Somos muito fortes do que o vírus. O pior da Covid-19 é o vírus como a pandemia impacta essas outras ameaças. A pandemia aumentou as hostilidades no plano internacional, o que torna ainda mais difícil impedir guerras nucleares e o colapso ecológico. A taxa de mortalidade da Covid-19 é muito menor do que a de outras doenças, como a Gripe Espanhola. É como se a natureza nos estivesse treinando para lidar com algo ainda pior no futuro. Infelizmente, nossa resposta não inspira confiança de que saberemos lidar com crises mais complexas, como as mudanças climáticas.

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Já que mencionamos o Brasil: Bolsonaro se coloca como um aliado de Netanyahu.

Os dois têm apoiadores que acreditam em tudo o que eles dizem. Mas há parcelas inteiras da população que não acreditam numa só palavra deles. Em tempos normais, é possível governar um país sem o apoio de parte da população. Em tempos de crise, todo mundo precisa cooperar, e esses dois líderes não inspiram confiança. E mais: brasileiros e israelenses têm boas razões para não acreditar neles. Há anos, Bolsonaro e Netanyahu espalham desinformação e agora usam emergência sanitária para se agarrar ainda mais ao poder e incitar o ódio. Eles se afirmam patriotas, mas patriotismo é trabalhar pela união. Bolsonaro e Netanyahu são o oposto de patriotas.

O que esperar do futuro?

O futuro depende das decisões que tomaremos nos próximos meses. Podemos reagir a esta crise com ódio (culpando estrangeiros e minorias), ganância (permitindo que as empresas tratem a pandemia como uma oportunidade de aumentar os lucros) ou ignorância (espalhando teorias da conspiração que colocam a saúde e a segurança das pessoas em risco). Se reagirmos assim, o mundo pós-pandemia será muito pior: mais desunido, violento e pobre. Mas se reagirmos com compaixão, generosidade e sabedoria, acreditando na ciência, cooperando com nossos vizinhos e dividindo o que temos, podemos criar um mundo muito melhor. Espero que tomemos decisões sábias nos próximos meses para criar uma sociedade capaz de reagir melhor aos desafios que teremos de enfrentar juntos.

Veja a matéria na publicação original.

Leonildo Rosas

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