Vacinas, movimento antivacinas e fake news

“Uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade leva o mesmo tempo para calçar os sapatos”. Mark Twain.

Por Ermicio Sena e Leo de Brito*

Contemporaneamente, todas, ou quase todas, as pessoas acreditam nas vacinas como um antídoto contra a disseminação de certas doenças.

Ma. no meio da multidão, sempre existem os que duvidam da eficácia desse método e buscam a todo custo influenciar a opinião pública para duvidarem e combaterem as vacinas.

O negacionismo parece que virou moda nesses tempos obscuros.

Isso não é de agora. No Brasil, tivemos, inclusive uma revolta do povo para não ser inoculado pela vacina contra a varíola de forma obrigatória. Isso ocorreu em 1904, especificamente no Rio de Janeiro e acabou prejudicando à própria população, aumentando a epidemia de varíola.

Ruim também para o governo que, ao obrigar o povo, diminuiu a adesão à própria vacina, que vinha crescendo antes da obrigatoriedade.

A lição de 1904 parece se encaixar bem nos nossos tempos, porque temos um governo com dificuldades de entender a gravidade da situação da pandemia do Covid-19 e um movimento crescente de pessoas disseminando a desinformação sobre as vacinas que estão sendo produzidas.

Esse movimento é mundial e vem do século passado, quando as vacinas começaram a ser produzidas e aplicadas na população.

Existem inúmeros exemplos de pessoas que foram protagonistas desse ceticismo cínico e irresponsável, um dos mais destacados foi o médico canadense antivacinista, Dr. Alexander M. Ross, que em 1885, na epidemia de varíola em Montreal, fez uma campanha sórdida contra a cobertura vacinal.

Os métodos utilizados pelo médico canadense no século XIX não diferem muito do que estamos acostumados a ver nas redes sociais, atualmente, ou seja: o conteúdo falso é o mesmo, o que se diferenciam são apenas os meios para divulgar suas irresponsáveis conclusões acerca da eficácia dasvacinas e outras sandices.

As notícias falsas distribuídas pelo Dr. Ross, tem as mesmas características das primeiras fake news da história do século XIX, elas buscavam impactar na opinião e no comportamento das pessoas e criaram o conceito de jornalismo marrom, que mascarava realidades, de forma a criar uma atmosfera de desconfiança com a notícia real, verdadeira.

Esse método hoje é muito utilizado nas redes sociais e está causando um bom estrago na informação sobre as vacinas contra o covid-19.

O diretor da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, disse que não estamos combatendo apenas a epidemia do coronavírus, mas uma “infodemia”, uma vez que, se por um lado, as pessoas têm mais informação, também é grande o número de desinformação sobre a doença, a cura e a vacina.

Como disse a jornalista Patrícia Campos Melo, sobre o momento pandêmico que vivemos: “É muito fácil ficar perdido em meio à avalanche de informação e desinformação. Centenas de estudos publicados demonstrando a eficácia desta ou daquela droga, correntes de fakes News pelas redes sociais recomendando métodos esdrúxulos de combate ao vírus, autoridades tentando esconder dados que prejudicam sua imagem, governantes que sugerem às pessoas que injetem desinfetante, que dizem que a doença é uma gripezinha e que não é preciso praticar o distanciamento social”. (MELO, Patrícia Campos. A máquina do ódio. Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. Companhia das Letras, 2020).

Nesse momento, em que alguns países já começaram a imunizar suas populações contra o coronavírus com a vacina, aqui no Brasil cresce a desinformação e, até “autoridades” médicas, fazem alertas sobre a ineficácia, efeitos colaterais, fases cumpridas pelas vacinas e colocam em suspeição o material utilizado em determinadas vacinas.

Essa estratégia de se utilizar de “autoridades” médicas para colocar em dúvida a ciência, é um artificio muito usado pelos antivacinas. O caso que citamos do Dr. Ross pode ser um exemplo de como, no passado, isso era recorrente, em que o mesmo se utilizou de uma lista de médicos para influenciar a opinião pública acerca da eficácia da vacina contra a varíola.

Em recente entrevista à rádio Jovem Pan, de Maringá, o médico João Haddad, primeiro colocou em xeque as fases das vacinas, depois o tempo para sua produção e, por último, sugeriu que exista cura para a Covid, inclusive indicando o uso de hidroxicloroquina e zinco quelato para o tratamento da doença.

Sobre a polêmica, o jornalista Victor Pinheiro disse, no blog Estadão Verifica, que a organização Pan-Americana da Saúde destacou que não existem evidências científicas para o uso dessas substâncias e que já foram emitidos alertas sobre os efeitos colaterais desses medicamentos. (disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/e-falso-que-potenciais-vacinas-contra-o-novo-coronavirus-nao-tenham-passado-por-testes/). Consultado em 11 de dezembro de 2020.

A polêmica da vez é sobre a produção e utilização da vacina chinesa Coronavac, que está sendo produzida no Instituto Butantan.

As principais notícias que circulam, sem comprovação, são sobre a não eficácia, fases de testes, efeitos colaterais e sobre os insumos utilizados na produção.

A Anvisa acaba de aprovar o uso emergencial de todas as vacinas testadas no Brasil, desde que cumpram com todas as fases, concluindo-se que todas estão na mesma fase, ou seja, a chamada terceira fase, jogando por terra as suspeitas sobre uma ou outra.

Quanto aos insumos utilizados na Coronavac, as fakes dão conta que são inúteis, por serem chineses, mas o que não sabem os propagadores de fakes news é que a chamada vacina de Oxford, por exemplo, usará insumo chinês para a sua fabricação no Brasil.

E como diria o compositor Chico César, em sua mais recente composição: “Eu vou tomar vacina, quem não quiser que tome cloroquina”.

A saúde agradece.

*Ermício Sena é Professor associado da Ufac.

* Léo de Brito é professor Adjunto da Ufac e Deputado Federal.

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