Site porta-voz de Moro pede coragem a Bolsonaro para demitir ministro, em vez de constrangê-lo publicamente

O site de extrema-direita que é porta-voz do ministro Sérgio Moro pediu ao presidente Jair Bolsonaro que tenha coragem de demitir o ex-juiz federal, em vez de constrangê-lo publicamente.

É mais um capítulo na guerra travada entre bolsonaristas e o lavajatismo nos bastidores do governo.

“Se eu trocar hoje, qual o problema? Se eu trocar hoje, qual o problema? Está na lei. Eu que indico, e não o Sérgio Moro. E ponto final. Qual o problema se eu trocar hoje ele? Me responda”, disse mais cedo o presidente da República em entrevista.

Ele se referia ao diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

Bolsonaro vem sendo incentivado pelo seu círculo mais íntimo a exercer todo o seu poder sobre as instituições, atropelando instâncias internas.

Foi por causa de uma declaração pública do presidente que o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro antecipou sua saída do cargo.

Bolsonaro queria indicar para a posição um delegado federal que já havia sido sondado para comandar o Ministério do Meio Ambiente, Alexandre Saraiva, hoje lotado em Manaus.

Porém, foi desautorizado em nota do próprio Ministério da Justiça, que informou que o cargo do delegado Ricardo Saadi seria preenchido por Carlos Henrique Oliveira Sousa, lotado em Pernambuco.

Bolsonaro amenizou o tom inicial de sua declaração de que não seria um “banana” no Planalto, dizendo que tanto fazia o substituto de Saadi ser de Manaus ou de Pernambuco.

Porém, voltou a humilhar publicamente seu ministro com as declarações de hoje.

“Defendemos mandato de diretor-geral e mais autonomia para a PF. Não temos orçamentária nem gerencial sobre a polícia. Tanto que há pressão para troca de um cargo de quarto escalão. Temos falado isso há dez anos. Estamos tranquilos porque não estamos falando de maneira oportunista”, disse a respeito da ameaça de Bolsonaro o presidente da Associação Brasileira de Delegados da Polícia Federal, Edvandir Paiva, o porta-voz informal dos federais.

A base eleitoral da família Bolsonaro é no Rio de Janeiro.

Num processo temporariamente paralisado pelo presidente do STF, o filho 01 do presidente, hoje senador Flávio Bolsonaro, é investigado pelo Ministério Público Estadual do Rio por sua relação com o ex-assessor Fabrício Queiroz.

O patrimônio de Flávio cresceu mais de 397% em 12 anos de mandato.

Queiroz, desaparecido, já admitiu por escrito que promoveu a “rachadinha” com salários de assessores de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro, mas disse que o chefe não sabia do desvio de parte dos salários dos assessores e que investia o dinheiro em promoção do mandato parlamentar.

O superintendente da PF não estava envolvido nesta investigação, mas comandava a apuração de uma tentativa da Polícia Civil do Rio de Janeiro de tumultuar a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Queiroz, ex-policial militar, é suspeito de envolvimento com milícia que controla território na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Um dos acusados de chefiar a milícia, Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da PM do Rio, empregou a esposa e a mãe no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Adriano está foragido.

A investigação de Queiroz e Flávio teve origem num relatório do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que era subordinado ao Ministério da Economia e Bolsonaro transferiu para o Banco Central com outro nome, Unidade de Inteligência Financeira (UIF).

A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais protestou contra a mudança, afirmando que enfraquecerá o órgão, por acabar com “sua composição colegiada e especialização necessária”.

Em outra frente, Flávio Bolsonaro tenta emplacar um nome na Procuradoria Geral da República que não está na lista tríplice organizada pelos próprios procuradores.

“Vou botar um petista na PGR? Vou botar alguém do PSOL? Vou botar um cara que vai trabalhar contra pautas de meio ambiente, segurança pública e costumes? Não tem sentido”, disse ele hoje em relação à escolha, que Jair Bolsonaro vem adiando.

As tentativas de Jair Bolsonaro de interferir no Coaf, na Receita Federal, na Polícia Federal e na PGR são vistas como forma do presidente de blindar a si próprio e a seu entorno.

A primeira dama Michelle recebeu ao menos R$ 24 mil de Fabrício Queiroz, segundo Bolsonaro parte do pagamento de um “empréstimo” que havia feito ao amigo — a opção de receber o pagamento na conta de Michelle teria sido por “falta de tempo” de ir ao banco.

Segundo levantamento do jornal O Globo, o clã Bolsonaro empregou 102 pessoas com laços familiares em 28 anos de mandatos. Há indícios de que 13% não trabalhavam.

Ao todo, desde 1991, a família Bolsonaro usou R$ 105,1 milhões em dinheiro público para pagar assessores, R$ 65,2 milhões destinados aos assessores com laços familiares.

Há indícios, fornecidos pelos vazamentos do site The Intercept, de que Moro e o procurador-chefe da Operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, protegeram alguns políticos, como o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o hoje chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni e o ministro da Economia Paulo Guedes, que foi quem convidou o ex-juiz Moro, ainda durante a campanha eleitoral, para ocupar o Ministério da Justiça de Bolsonaro.

O pedido de “coragem” feito pelos porta-vozes de Moro pode ser interpretado como ameaça velada de que a Lava Jato pode reconsiderar seus alvos.

Viomundo

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