Por Fábio Pontes

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Concebida por Chico Mendes, aliança dos povos da floresta é recriada como resistência na Amazônia

Piyãko, do povo Ashaninka: os ‘patrões’ (seringalistas) voltaram ao poder e ameaçam direitos (Foto: Sérgio Vale)
Idealizada pelo líder seringueiro acreano Chico Mendes durante a década de 1980 como forma de reunir as populações tradicionais da Amazônia contra a transformação da floresta em pasto para o boi, a aliança dos povos da floresta é recriada diante do atual cenário político nacional e local de ameaça aos direitos destas comunidades.

O  momento de enfraquecimento das políticas ambientais e sociais, mais a ameaça à integridade dos territórios tradicionais, levou os povos da floresta a se reunir numa aliança como forma de resistência, garantindo que conquistas obtidas nas últimas décadas não sejam perdidas.

A refundação da aliança ocorreu na última terça-feira, 17, durante a realização da Semana Chico Mendes, organizada no Acre por Ângela Mendes, filha do seringueiro assassinado por conta de sua militância em defesa da Amazônia.

A proposta, num primeiro momento, é reunir comunidades extrativistas e indígenas, conforme ocorreu em sua primeira versão há mais de 30 anos.  Vendo que não apenas as famílias seringueiras corriam riscos naquela época, Chico Mendes buscou unir forças com as populações indígenas.

Isolados e abandonados pelo Estado, os indígenas também viam seus territórios sendo invadidos pelas grandes fazendas de gado. Esta ameaça ocorria após já terem passado as décadas anteriores trabalhando como que escravizados na extração de látex nos seringais acreanos. 

Passadas três décadas desde o assassinato de Chico Mendes, as populações tradicionais da Amazônia voltam a se ver ameaçadas por políticas públicas voltadas para enfraquecer direitos e conquistas, mais o avançar de setores do agronegócio sobre áreas de proteção e terras indígenas – impulsionados pelos discursos dos governos federal e local.

No Acre, membros da “bancada da motosserra” – liderada pela deputada federal Mara Rocha (PSDB) e o senador Márcio Bittar (MDB) – apresentará propostas junto ao Congresso Nacional para rever unidades de conservação no Acre. Entre os alvos da dupla está a Reserva Extrativista Chico Mendes. A partir de demanda dos maiores desmatadores donos de propriedades no interior da Resex, Mara e Bittar defendem rever os limites das áreas protegidas.


 “Hoje nós sabemos quem é o nosso opressor. Ele tem nome e sobrenome: é o Estado brasileiro em suas três esferas”, diz Ângela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes. “Temos um Executivo que está entregando a Amazônia para o grande capital internacional, para as mineradoras, para o agronegócio em detrimento das populações que moram nestes territórios.” 

“A aliança vem não só para resistir às ameaças, mas também para construir uma perspectiva futura de novas políticas, de propor saídas e alternativas”, explica  Ângela Mendes.  Segundo ela, a partir da formalização da aliança, um plano de ação para os próximos anos será formulada. 

Liderança do povo Ashaninka, da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, Francisco Piyãko compara os tempos atuais com os da exploração da borracha nos seringais da Amazônia na primeira metade do século passado, quando as populações indígenas eram escravizadas para extrair látex para os “patrões”.  

“Eu considero que os patrões foram para o poder. Estando lá trazem de volta as suas ideias para passar por cima da gente. É preciso que a gente, nessa aliança, comece a acompanhar essas agendas porque daqui a pouco nós vamos, todos nós, virar mão de obra de novo desse serviço que a gente já sabe no passado o que ele fez com a nossa população”, diz Piyãko. 

Aos 75 anos, Raimundo Mendes, o Raimundão (primo de Chico), é uma das lideranças ainda vivas daqueles tempos de resistência no meio da floresta contra a invasão dos grandes pecuaristas. Os “empates” – correntes humanas formadas por seringueiros e seringueiras – era uma das principais formas de não permitir o avançar de máquinas e homens contratados para abrir áreas de pastagem na Amazônia.

“A reafirmação dessa aliança que fizemos lá atrás comprava que reconhecemos entre nós, indígenas e seringueiros, que nunca deveríamos ter sido desunidos e ter estado em campos opostos. Nossos companheiros deram suas vidas em defesa da construção da liberdade e de um futuro melhor para as gerações da Amazônia.” 

Esta desunião citada por ele refere-se ao período em que – durante os anos de exploração da borracha – os donos dos seringais colocavam seringueiros e indígenas um contra o outro, criando inimizades e até confrontos que resultavam em mortes de ambos os lados.

Para Raimundão, os atuais representantes  – tanto no Poder Executivo quanto no Legislativo – hoje atuam para desconstruir todas as conquistas obtidas pelos povos da floresta nos últimos anos.

“Por isso é mais do que necessário somarmos forças. A aliança é um ‘ajuntamento’ de nossa companheirada que nasceu, se criou e quer continuar vivendo na floresta. Extrativistas, indígenas, precisamos afirmar esta amizade, mas também afirmar que, se for necessário, fazer novos empates contra o latifúndio e contra este governo nós vamos fazer”, afirma ele. 

Segundo  Ângela Mendes, além de reunir seringueiros e indígenas, a aliança dos povos da floresta buscará unir ainda comunidades ribeirinhas e quilombolas em toda a Amazônia.

A Semana Chico Mendes foi encerrada neste domingo, 22 de dezembro, quando foram lembrados os 31 anos do assassinato do líder seringueiro em Xapuri. Uma missa foi realizada na Igreja de São Sebastião em Xapuri.

Neste ano, Ângela Mendes buscou financiamento coletivo – uma vaquinha virtual – para organizar o evento, que ocorre desde o início da década de 1990. A ativista ambiental evitou buscar apoio do atual governo do Acre por avaliar ser incoerente. Para ela, a gestão Gladson Cameli (PP) trabalha para enfraquecer o legado de Chico na defesa da floresta e de suas populações.   

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