Pelezinho, o médico dos calçados, vira estrela e nos deixa saudade

Conheci o Pelezinho no final de 2003.

Repórter do jornal Página 20, eu o repórter fotográfico Marcos Vicentti preparávamos uma reportagem sobre o abandono pelo poder público da região intitulada Praça da Bandeira, onde hoje é o “Novo Mercado Velho”.

Registrado e batizado com o nome de Petronilo Lopes Filho, Pelezinho era um dos cerca de 500 comerciantes que trabalhavam em situação muito ruim na localidade.

O pai era um sapateiro baiano, de quem Pelezinho herdou o ofício. 

Ele tinha orgulho de ser sapateiro.

Na fachada do seu ponto estava escrito com letras garrafais: “Sapataria do Pelé – O médico dos Calçados”.

Pelezinho nasceu na pensão de sua mãe, dentro da Praça da  Bandeira, em outubro de 1974. Foi apanhado por uma parteira. Ele cresceu nos corredores do extinto centro comercial.

Na época, ainda sem grande perspectiva, Pelezinho queria deixar o ofício herdado do pai como herança para os seus filhos. Ele declarou: “Estou querendo trazer a minha filha mais velha para começar a aprender. Ela tem 11 anos. Só estudo não é garantia”.

O tempo passou.

Sempre que eu encontrava com o Pelezinho, ele me cobrava a matéria. 

Fiquei em dívida.

Não poderei mais levar a matéria a ter ele.

O Pelezinho virou saudade. 

Tornou-se  uma das mais de 750 vítimas acreanas da Covid-19.

Partiu prematuramente na madrugada desta sexta-feira cinza.

Pelezinho, um militante incansável das minorias, dos menos favorecidos, foi meu colega de governo, exercendo a função de secretário adjunto de Esporte, na administração do seu amigo Tião Viana.

Foi um sapateiro que sempre manteve os pés firmes no chão e a cabeça no infinito.

Ao deixar a gestão pública, voltou a fazer o que sabia como poucos: consertar sapatos. E o fazia com prazer, com o sorriso de meninos sapeca sempre estampado no rosto.

Era um flamenguista fanático e chato, como sempre são os torcedores desse time.

Também era petista de carteirinha. Nunca nem sonhou em mudar de lado. Carregava a estrela vermelha no peito sem medo, com orgulho de estar ao lado certo da história.

Morreu um homem da estirpe daqueles que lutam por justiça social. Partiu um gigante, embora tivesse cerca de um metro e meio de altura.

Pelezinho, um amigo, um médico dos calçados virou estrela.

Seria tão bom se esse vírus mortal fosse consertado com martelo, prego ou cola.

Certamente não teria levado o nosso médico.

Vá em paz, amigo!

Seguiremos aqui embaixo torcendo que você, agora como estrela, ajude a clarear o nosso incerto caminho.

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