ESQUEMÃO AZUL: Para comprar BMW X-4, governador do Acre superfaturou o patrimônio declarado ao TSE em quase 1.800%

Gladson Cameli, que aumentou o patriômonio em carro em 800% desde que assumiu, disse ser dono de R$ 50 milhões

Por Leonildo Rosas
O governador do Acre, Gladson Cameli (Progressistas), tem problemas sérios para declarar o seu verdadeiro patrimônio. Isso é o que aponta investigação da Polícia Federal (PF), iniciada em julho de 2021, culminando com a deflagração da Operação Ptolomeu, em dezembro do ano passado.

Nas eleições de 2018, quando concorreu ao governo do Estado, Cameli declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ser dono de um patrimônio avaliado em R$ 2,9 milhões.

Com base nos dados obtidos no curso das inveastigações, a PF estima que o patrimônio atual do governador gira em torno de R$ 6.418.706,59, cifra alcançada pela adição do valor de uma mansão em construção no Condomínio Recanto Verde, em Rio Branco, bem como da atualização do patrimônio em veículos.

Gladson Cameli, segundo os investigadores, superfaturou o seu patrimônio em quase 1.800% quando foi avalista na aquisicão de um veículo BMW X-4.

Na ocasião, o governador acreano declarou ter uma salário de R$ 60 mil, quando ganha R$ 35 mil bruto, e um patrimônio avaliado em R$ 50 milhões, num superfaturamento de 1.800% em relação ao declarado à Justiça Eleitoral.


A paixão por carros de luxo, segundo o que foi investigado, também está presente na vida de Cameli. Ao traçar um comparativo entre o patrimônio atual do governador em veículos e o declarado ao TSE em 2018, foi observado um considerável aumento de mais de 800%, saltando de R$ 202.171,41 para R$ 1.699.498,00.

O ponto de partida para que o governador passasse a ser investigado, com autorização da ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nancy Andrighi foi a suposta venda de uma Pajero por Cameli ao suplente de deputado federal e empresário Rudilei Estrela, amigo do chefe do Executivo estadual.

Ao aprofundar as investigaçoes, a PF obteve documentos relacionados à aquisição e o suposto financiamento do veículo BMW X4, sem assinatura, pelos quais a compra e venda teria sido de R$ 540 mil, com entrada de R$140 mil, sendo o restante de R$ 380 mil por meio de financiamento com o Banco Toyota.

Segundo a PF, todos os documentos e transações bancárias e em espécie são elementos que permitem concluir que o contrato de financiamento pode ter sido firmado ficticiamente para dissimular o pagamento de veículo de alto luxo à vista e com valores de origem não declarada, por meio pagamentos de Rudilei Soares, inclusive com grande soma em espécie.

A análise da polícia apontou inconsistência na versão apresentada por Rudilei Soares, no sentido de que os valores pagos à concessionária foram efetuados para uma compra em seu próprio nome de um veículo Pajero, de propriedade do governador, pela quantia de R$ 230 mil.

Ocorre que a PF verificou que Estrela teria transferido e entregue em espécie à concessionária Xapuri Motors o montante de R$ 350 mil, sendo R$ 120 mil a maior que o valor da suposta compra e venda da Pajero.
As ligações

Após a deflagração da operação “Assepsia II”, no dia 15 de abril de 2021, foi encontrado o veículo Pajero, de propriedade de Gladson Cameli, na residência de Rudilei Soares.

O automóvel, no entanto, foi transferido para a propriedade de Estrela em 18 de junho do ano passado, com data retroativa a 10 de dezembro de 2020, sendo vendido, três dias após essa transferência, a Hermilson Franca Geber, conforme levantamento da PF.

À PF, o gerente da Xapuri Motors, Ismael Silvestre, declarou que a Pajero do governador jamais ingressou na revendedora de veículos no Estado do Acre, sendo que todos os pagamentos feitos por Estrela foram para quitar a dívida da BMW X4 adquirida, em concessionária do Estado do Mato Grosso do Sul por Gladson Cameli, em nome de sua esposa, Ana Paula Cameli.
Ismael Silvestre teve pedido de prisão negado pela ministra Nancy Andrighi.

Segundo os investigadores, não há explicação lógica para que Rudilei Estrela efetuasse pagamentos a Gladson Cameli através da concessionária localizada no Acre, quando poderia fazê-lo diretamente ao governador ou à própria concessionaria do Mato Grosso do Sul.

“Ainda sobre os documentos apresentados por Ismael Silvestre, verificou-se que o suposto contrato de financiamento da BMW X4 não é assinado pela primeira dama Ana Paula Cameli, tampouco por representante do Banco Toyota, o que gera forte suspeita de se tratar de documento forjado”, relatam os investigadoes.

BMW foi parar apartamento funcional em Brasília
De acordo com a PF, além da falta de contemporaneidade entre as diversas transações, há outras suspeitas que envolvem a aquisição da BMW X4. É que, embora o veículo tenha sido registrado em nome de Ana Paula Cameli, o endereço usado pela concessionária Raviera foi Rua Atibaia, 1255, apartamento 4203 – Jardim Noroeste, Campo Grande/MS.

Conforme imagem abaixo, trata-se de residência humilde localizada na periferia da capital sul-mato-grossense, sem qualquer relação com a primeira-dama.


Segundo fonte, essa estratégia de forjar endereço é usada com frequência, haja vista que o Mato Grosso concede benefícios fiscais como o não pagamento do valor do Imposto sobre Circulação de Veículos Automotores (IPVA) no primeiro emplacamento.

O que chamou muita atenção, porém, é que o registro, pouco tempo depois, foi alterado para um endereço incompleto “SQS 601”. Diligências da PF concluirram que se tratava do endereço “SQS 309, Bloco D, 601, Asa Sul – Brasília/DF”, correspondente ao apartamento funcional ocupado por Gladson Cameli durante seu mandato de senador, no período de 2015 a 2018.

“Somando-se a isso, durante diligência sigilosa realizada por agente da Polícia Federal no endereço de residência atual o governador, em Rio Branco, foi possível identificar e fotografar o veículo. Na ocasião, o porteiro do local afirmou que “A BMW X4 permanecia escondida e saia raríssimas vezes, quando era dirigido pela primeira-dama”.

Para a PF, as tentativas de ocultar os endereços, bem como o próprio veículo, aliado à ausência de contemporaneidade entre as transações financeiras, a quitação antecipada e a dúvida sobre a autenticidade do contrato de financiamento apresentado por Ismael Silvestre, “emergem forte suspeita de que o veículo BMW X4 seja mero objeto de lavagem de capitais”.

A BMW foi apreendida por decisão da ministra Nancy Andrighi.

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