Por Luiz Calixto

O pessoal diz que sou cheio de histórias, o que é, para mim, um privilégio de ter vivido e escutado situações inusitadas. Mas os fatos que narro a seguir são verdadeiros e o personagem ainda está vivo.

Bill é um amigo, conterrâneo indígena, que por muitos anos exerceu o cargo de subprefeito na época em que Jordão era apenas um distrito de Tarauacá.

Conheci Bill em 1982, quando fui transferido para trabalhar na agência da Secretária da Fazenda de Tarauacá.

Quando Jordão foi alçado à condição de município autônomo, em 1992, todos esperavam que Bill fosse eleito o prefeito, mas, infelizmente, seu nome foi reprovado na convenção de seu partido. Computado os votos, o candidato que venceu Bill na escolha partidária foi derrotado.

Na cidade, os vencidos não falavam outra coisa:

– Se fosse Bill, o resultado teria sido diferente.

Em 1996, outra eleição e novamente o nome de Bill foi preterido pelo partido. E o ressentimento ficou ainda mais forte:

– Se fosse o Bill, não teríamos perdido. Com o nome sempre na boca do povo, Bill desistiu de uma possível candidatura a prefeito na eleição de 2000 e esperava sair consagrado como vereador mais votado do pleito. Veredito das urnas: Bill foi sufragado por apenas 6 eleitores.

Moral da história: o bom seria que ele tivesse preservado apenas a expectativa de ser um campeão de votos. Os 6 votos como candidato a vereador destruiu toda fama construída nos pleitos em que seu nome fora recusado pelo partido.

Pois bem: a realidade costuma sepultar a fama.

O ilustre senador Márcio Bittar não esconde de ninguém os super poderes que detém como relator do Orçamento Geral da União. Nesta condição, nossa imprensa já divulgou até várias ameaças veladas dele sobre a liberação ou não de verbas para o Estado e municípios.

A posição de chefão poderoso das verbas da União é usada para turbinar a candidatura de sua ex-mulher, a senhora Márcia Espíndola. Segundo Bittar, ele destinou mais de R$ 1 bilhão em emendas de relatoria para o Acre, as famosas emendas secretas do RP-9.

Convenhamos: R$ 1 bilhão é dinheiro no balde para movimentar a economia acreana com obras, cuja geração de empregos na construção civil é capaz de atingir o pleno emprego.

O deslumbramento levou o senador a declarar que fez pelo Acre em dois anos o que não foi feito em 20, embora estes benefícios ainda não tenham chegado ao conhecimento do povo do Acre. Devem ser secretos. De repente, passou-se a ter a impressão que, sem Márcio Bittar, o Acre não existiria.

Entretanto, no meio do caminho de R$ 1 bilhão para os acreanos havia uma pedra chamada Rosa Weber, ministra do STF, que determinou a suspensão da execução do famoso orçamento paralelo, usado pelo governo de Bolsonaro para cooptar parlamentares.

Com o bloqueio, o senador foi ao palco reclamar da falta de solidariedade de seus parceiros da política e sua ex-mulher postou fotos nas redes sociais rogando aos céus pela liberação dos recursos.

Pois bem: ontem, a ministra Rosa, entendendo que haveria prejuízos à diversos programas e atividades em andamento, decidiu liberar os recursos das abomináveis emendas secretas, mediante identificação dos patronos.

Como se diz no Acre, agora é a hora da onça beber água.

E é aqui que entrará o Bill, meu personagem real: se ele não tivesse sido candidato a vereador até hoje sua fama de bom de voto estaria conservada ; se o orçamento secreto permanecesse retido, o senador Márcio Bittar poderia continuar cantando de galo dizendo que mandou R$ 1 bilhão para o Acre e o povo teria de acreditar nele.

Todavia, agora a astronômica grana terá de aparecer ou o senador fará o papel de Bill ao tirar apenas 6 votos.

Estamos todos ansiosos para ver vários canteiros de obras com placas de “precisa-se trabalhadores” e os tratores roncando e fumaçando.

Ou a fábula de dinheiro prometida por Marcio Bittar cai na conta do tesouro do Acre ou a fama dele, de carreador geral de recursos, descerá de bubuia.

Texto publicado originalmente no site AC24horas.

A arte que ilustra o texto também é do AC24horas.

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