O PERFUMISTA ( uma história de minha adolescência)

Por Cacá Araújo

Uma das mais antigas profissões.
O meu tio Milton Maia, era minucioso. Caminhava olhando para o chão, não por humildade vassala, mas por que sempre encontrava alguns trocados na rua. Dizia que depois de um arraial nas igrejas, era certeza encontrar uns reis.

Certo dia, minha mãe pediu ao tio Milton que me conseguisse um trabalho com seus amigos do comércio. Qualquer coisa que um menino pudesse fazer. Importante era eu não ter muito tempo para a traquinagem. Bota traquinagem!
Eu me perguntava – por que as coisas só acontecem comigo?

Estudava de tarde no Colégio Maria Angélica e trabalhava de manhã, assim, não teria tempo para minhas criativas peraltices que tantos problemas traziam.

Desta maneira, fui trabalhar na Casa Camilo Yunes, no 2o Distrito de Rio Branco. Era um grande armazém, tinha de tudo um pouco, até perfumes.

Trabalhava na Casa Yunes, o Seu Camilo , meu tio Milton e o Boca Rica. Todos com idade avançada.

Eu, tinha quatorze anos, até os sete, tinha morado nos seringais.

Certo dia, me deparei com Seu Camilo e meu tio Milton tentando aprumar as mãos para misturar extrato de perfume com álcool, depois encher os frasquinhos com aquela fragrância forte e doce.
Nessa hora lembrei do cheiro das pessoas, principalmente das mulheres nas festas dos seringais, era o dito.

Então, tio Milton, ouvindo desaforos de Seu Camilo por estar desperdiçando extrato, disse:

– Isso não é mais tarefa pra gente de nossa idade, Camilo. Vamos dar essa tarefa para o Carlito que é menino e tem mais prumo nas mãos do que nós dois.

Dito isso, Camilo respondeu:

– Verdade. Menino, vem cá! Você vai ficar encarregado, daqui pra frente, de fazer os perfumes da loja.


Me senti importante. Não seria mais o limpador das latas sujas de óleo diesel (embora continuasse limpando rs). Agora eu seria o perfumista.

Foi o período mais cheiroso de minha vida hahaha.

Os dias foram se passando e a Casa Yunes não perdia mais uma gota de extrato de perfume, até o meu ganho aumentaram um tiquinho .

Me sentido o tal, mas não aguentava mais aquele cheiro forte e extremamente doce, resolvi propor uma inovação na composição do perfume. Propus fazer um chá concentrado de capim santo ou erva cidreira e depois misturar com o extrato e o álcool, na esperança de amenizar o forte cheiro doce.

Eles não gostaram do resultado. quase que perdi a função de perfumista, era o que eu me considerava. Tudo porque eles já estavam acostumados com aquele cheiro do perfume. Era o que eles fizeram por muitos anos de suas vidas. Não se atreveram mudar.

Seu Camilo, meu tio e Boca Rica já partiram.
A loja morreu, também.

O perfumista cresceu e achou melhor mudar de profissão.

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