Por Nena Mubarac

Regresso a minha terra, após 9 meses de uma mudança dolorida, mas necessária, imaginando, metaforicamente, renascer.

Repor minhas energias e minhas alegrias revendo amigos e amigas, que tão bem fazem ao meu coração.

Mas, eis que, como seria inevitável, o Acre também entrou no mapa do coronavírus – o ainda temido e indestrutível COVID-19.

E eis, também, que todos os encontros marcados; a vontade de tomar aquele tacacá; sentar e observar o rio seguir seu rumo; presenciar, ao entardecer, o revoar e a vocalizão estridente dos periquitos-estrela (ou periquitos-verde), nas copas das árvores das praças da cidade, viraram desejos de extremos riscos.

Cumprindo a ordem geral de isolamento, me isolei!

E, no isolamento, o tempo nos convida a, finalmente, dar o devido tempo para ouvir o silêncio.

Todos os dias, desde então, o pensamento voa até essas coisas tão simples e corriqueiras que estavam tão à mão, mas que passaram a ter agora o valor de um grande feito.

De uma hora para outra, qualquer “ser humano comum” viu suas atitudes cotidianas (e que, por isso mesmo, soavam tão imperceptíveis ou pouco importantes, no corre-corre da vida), serem transformadas na maior das aventuras.

E, de repente, beijar ou abraçar a quem se ama, ir comprar o pão na esquina, visitar os avós, usar a escada rolante seguro nos corrimões… passou a exigir de cada um de nós, indistintamente, uma paciência de Jó, uma prática monástica, um planejamento estratégico e uma rígida disciplina, semelhantes as daqueles “humanos fora da curva”, tais quais os que se arriscam às altitudes verticais altíssimas e a perigos naturais eminentes, só para alcançarem, por exemplo, o topo do Monte Everest.

Sim! De certo modo, agora, somos todos alpinista! A grande diferença é que, nós, “seres humanos comuns”, não escolhemos ser alpinista, muito menos temos habilidades para sê-lo, assim, tão imediatamente.

Mas, a verdade é que, como vem caminhando a humanidade, nada indicava mesmo que estivéssemos escrevendo um final feliz para a história gloriosa do mundo que criamos, até aqui.

Gesto claro: passamos a torcer pelos vilões!

Fato claro: com a retirada e/ou as negligentes posturas de alguns líderes mundiais equivocados (que entronados numa soberba e vaidades próprias, que em nada contribuem para o bem comum – como se está vendo), do Acordo de Paris, aprovado em 2015 por 195 países, com o compromisso da reduzir as emissões de CO2, mostra que insistimos em desprezar os avisos da ciência de que estamos à beira de um gigantesco abismo.

Ou nos unimos para eliminar da atmosfera componentes que estão contribuindo para o já não tão distante ou fictício aquecimento global (cujo objetivo é impedir que a temperatura média no mundo aumente mais do que 2 graus celsius), o que está nos levando a sucessivas catástrofes ambientais (já, desesperadamente, testemunhadas não só no Brasil, como nos países mais pobres e nas mais ricas nações do mundo), e contribuindo verdadeiramente para a extinção da humanidade; “ou então, não será nada!” (segundo Joseph Goebbels ou Ricardo Alvim???).

Brincadeiras à parte, passou da hora de darmos um passo atrás!

Ouvindo a canção “Heal the World”, escrita e lançada por Michael Jackson, em 1992, que foi incluída no álbum “Dangerous” (que em tradução quase apocalíptica quer dizer “Perigoso”), não tem como, hoje, não se ater às frases proféticas desse extraordinário e atormentado artista.

Na abertura do clip dedicado a esta canção, um texto faz o apelo por um mundo melhor, no clamor de uma criança, que recita: “Pense nas futuras gerações e diga que você quer fazer do mundo um lugar melhor para uma criança…”

De lá para cá, de sempre para hoje, a verdade é que nunca demos a devida importância para as futuras gerações.

Talvez porque a palavra “futuro” sempre nos tenha dado a impressão de algo que está muito distante ele, enfim, parece ter chegado e nem nos demos conta. E chegou assim, esmigalhado, microscópico…

O futuro tomou ares de um versículo bíblico e é agora “o próximo como a ti mesmo”, ó presente!

Infelizmente, se os que nos “guiam”, na condição de dirigentes de um país, não se dignam a respeitar as evidências científicas, que dirá atender aos apelos de alguns de nossos “pirralhos”…!?

A jovem paquistanesa Malala Yousafzai fez a sua parte quando decidiu, aos quase 12 anos de idade, escrever à BBC, escondida sob um pseudonimo, para contar o seu dia a dia de menina que só queria ter o direito de ir à escola.

Virou, por isso, alvo dos temidos talibãs. E, à medida que suas narrativas ganhavam a atenção do mundo, acirraram mais ainda a fúria dos fundamentalistas islâmicos, cuja grande demonstração de força já se voltava contra as jovens que queriam frequentar escolas.

A extrema covardia da desigualdade de gênero, ficou registrada nos três tiros disparados contra Malala, quando estava a caminho da escola. Pudemos ver, então, suas idéias sendo confrontadas, com brutalidade, pelo ódio cego e irracional que jorrava das mãos de um dos muitos fanáticos jihadistas.

Depois que sua condição clínica grave melhorou, foi transferida para a Inglaterra, onde vive até hoje, na cidade de Birmingham.

Malala, agora aos 22 anos, é vencedora do Prêmio Nobel da Paz 2014 e é reconhecida como um dos mais respeitados nomes em defesa dos direitos humanos das mulheres e do acesso à educação.

“Pense nas futuras gerações…”

Noutra ponta do mundo, uma adolescente sueca de 16 anos parou de ir às aulas, todas as sextas-feiras, para protestar em frente ao parlamento de seu país e cobrar ações concretas contra a crise climática.

Muitos (ainda hoje) debocharam do seu gesto e continuam a debochar de suas ideias. Muitos outros, no entanto, a ouviram, graças a Deus!

Talvez agora, nesse exato momento, Greta Thunberg, mais do que nunca, deva estar sendo lembrada por você e, espero, ganhando mais e mais força e respeito de todos, pelos alertas que tenta dar ao mundo, mesmo que, por sua frágil figura de criança, alguns imbecis continuem a querer desacreditá-la e outros tantos não escondam sua arrogância adulta ou uma indisfarçável intolerância neoliberalista, ao proferir-lhe insultos.

“Diga que você quer fazer do mundo um lugar melhor para uma criança…”

Enfim, não quisemos ouvir! Então, tivemos que ser parados a força para ouvir e olhar em volta: de nós mesmos, de dentro de casa, ao longo da nossa rua, da nossa cidade, do nosso país que agoniza, do nosso mundo que arde… 

“Heal the World! Cure o Mundo!”

O universo está nos mostrando, na figura de uma partícula viral, de formato esférico, com um diâmetro que varia entre 60 e 140 nm (nanômetro – unidade de medida de comprimento do sistema métrico que corresponde a um milionésimo de milímetro ou um bilionésimo de metro) que, talvez, ainda tenhamos uma chance de mudar, de fazer diferente! Talvez…

Para isso (por enquanto), as regras são simples: não sair de casa, não ter contatos, higienizar ambientes e coisas e… principalmente, lavar muito as mãos.

Lavar tanto, mais tanto as mãos a ponto de, quem sabe, chegarmos a perder o que de mais nos torna únicos: as digitais!

Quem sabe assim, entendamos, de uma vez por todas, que mesmo não sendo idênticos, nenhum de nós é diferente!

Taí o COVID-19 (e não uma “gripezinha”) que não me deixa mentir…

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