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    O Brasil na África: não há tempo a perder

    Em meio a enorme concorrência, encontro em Joanesburgo buscou bases para construir estratégia do governo para o continente africano

    Por Assis Moreira*

    O Brasil prepara sua volta à África.O presidente Lula planeja visitar o continente africano no segundo semestre, para retomada da relação num cenário internacional em transformação e concorrência mais acirrada vinda de outros países.

    Nesse contexto, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), junto com os ministérios das Relações Exteriores, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Agricultura e Pecuária reuniu o setor comercial de embaixadas brasileiras na região, durante três dias em Joanesburgo, centro economico da África do Sul, nesta semana.

    O evento visou ajudar a moldar a estratégia do governo para os 54 países do continente africano. E ocorreu justamente no país que está há quase dois anos sem embaixador brasileiro. É que Marcelo Crivella, o representante indicado pelo governo Bolsonaro, foi rejeitado pelo governo sul-africano, que não escondeu o desapreço pelo ex-bispo e ex-prefeito do Rio de Janeiro para atuar nas relações bilaterais.

    “A ausência do Brasil na África, ocorrida nos últimos sete anos, foi uma tragédia porque significou um retrocesso para a diplomacia brasileira e um atraso no nosso fluxo comercial com a região”, disse o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana.

    Só em 2022 é que o comércio com a região voltou ao nível de 2011. Mas as exportações com valor agregado perderam espaço, enquanto as vendas de produtos básicos aumentaram. A presença de multinacionais brasileiras no continente africano diminuiu de 30 para 20 entre 2013-2018 e pode ter caído mais em seguida.

    Jorge Viana se mostra entusiasta da diplomacia presidencial de Lula. Mas reconhece que o presidente não pode vir com o formato antigo de relação porque o mundo é outro. Daí, na sua visão, a importância do encontro de Joanesburgo para estruturar a volta à África com planejamento de longo prazo.

    ‘A África precisa ser nosso continente prioritário’’, defendeu. Considera que talvez seja o continente onde o país tem mais potencial de crescimento nas exportações. O contexto demográfico abre enormes oportunidades, com uma África ‘que é o único continente jovem que temos no mundo e vai permanecer jovem nas próximas décadas’.

    Pelas estimativas de agências das Nações Unidas, metade do crescimento populacional até 2050 estará concentrada em nove países, sendo cinco no continente africano: Nigéria, Congo, Etiópia, Tanzânia e Uganda. A Nigéria, a maior economia do continente, deverá ter a terceira maior população do mundo, só atrás da China e da India.

    Existe evidente interesse de diferentes parceiros em levar os africanos a traduzir essas mudanças demográficas em crescimento econômico, e não em agitação social. E em ter ganhos nos seus negócios, com uma classe média em expansão e forte consumo.

    Ninguém ignora os desafios na África, a diversidade dos 54 países do continente, a necessidade de ajustar estratégia, obstáculos no curto prazo, vulnerabilidades das economias, problemas logísticos, percepção de riscos – e a cobiça que provoca entre diferentes parceiros.

    Para o secretário de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura do Itamaraty, embaixador Laudemar Aguiar, o Brasil volta de outra maneira, para estabelecer uma relação ‘ganha-ganha’, que contemple tanto os interesses brasileiros quanto os dos países africanos.

    Isso passa pela integração promoção comercial-cooperação, por exemplo. A ideia é mostrar que o Brasil tanto quer vender, como também comprar, cooperar e entende que os africanos não querem ser mais alvos de doadores. Na Tanzânia, por exemplo, a indústria de fertilizantes engatinha e precisa de escala. Se o Brasil aumenta as importações do produto, diversifica seus fornecedores e ajuda o desenvolvimento do setor daquele país.

    A Embrapa é considerada essencial na cooperação com a África. Com similaridades climáticas, o Brasil poderia ter presença em toda a cadeia agrícola a partir de um programa com a União Africana, por exemplo. Além de projetos bilaterais oficiais, um relato indica que governos e empresas privadas na região estão dispostos a pagar por serviços e tecnologia de produtividade. A empresa brasileira vai abrir escritório na Africa do Sul no ano que vem.

    Para o presidente da Apex, recuperar o valor agregado das exportações brasileiras para a Africa é uma prioridade na nova estratégia. Ele defende que, depois do acordo Mercosul-União Europeia, o mais importante seria uma futura negociação de acordo de livre comércio do Mercosul com a grande zona comercial de 54 países africanos. Se não fizer um acordo comercial, no futuro o país correrá o risco de perder mais fatias de mercado no continente africano. Atualmente, o Mercosul tem acordo com a Sacu (União Aduaneira formada pela África do Sul, Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia).

    E tudo isso leva a um ponto essencial: financiamento às exportações brasileiras. ‘O Brasil vai ter de enfrentar a questão’, acredita Jorge Viana. ‘Houve deturpação do que é isso. A China e EUA financiam pesadamente as exportações. O Brasil tem que sair dessa satanização do financiamento por causa de um problema que teve com Venezuela e Chile e Lula disse que vai cobrá-los’.

    Um participante mencionou que há 110 agências de financiamento de exportação no mundo. E que o financiamento tem que estar presente na retomada do Brasil na região, porque do contrário o país sempre vai perder grandes negócios. De Joanesburgo, Viana telefonou para o BNDES e ouviu reações positivas sobre a questão. Não se ignora, em todo o caso, que a questão de financiamento para vendas na África tem semelhança com a situação de exportações brasileiros para a Argentina, envolvendo garantias para riscos de default. Por causa do rating de crédito de certos países, as operações ficam complicadas.

    Será necessário assegurar ligação direta com a Africa. Em setembro, a Latam volta a operar um voo entre São Paulo e Joanesburgo, o que já é um passo, mas ainda tímido. Em comparação, a Turkish Airlines aumentou seu número de voos de três para 51 em alguns anos. Enquanto o Brasil se ausentava, a Turquia expandiu sua presença de maneira avassaladora na África. Hoje, a constatação é de que, mesmo quando produtos brasileiros são mais baratos, os supermercados turcos operando no continente africano preferem colocar nas prateleiras os produtos que vem de seu país.

    A ApexBrasil estimulará empresas a buscar negócios na África. A diretora de negócios da ApexBrasil, Ana Repezza, destaca estudos da empresa apontando importantes oportunidades comerciais. Por exemplo, nos setores de máquinas e equipamentos de transportes. A Africa importa US$ 21 bilhões por ano, com apenas 3,5% de participação brasileira. Também de artigos manufaturados, com compras de US$ 14 bilhões e participação de apenas 3% do Brasil. Nos produtos alimentícios, os africanos importam US$ 22 bilhões, com o brasil tendo participação de 26% nesse total.

    Viana vê igualmente potencial de negócios e cooperação envolvendo a transição energética e uso de etanol; acordos para produção de genéricos brasileiros na região; entrada de pequenos provedores de internet. E também na área de segurança, para vendas dos aviões Super Tucano, do cargueiro 390 e também de drones para monitoramento de terrorismo. A Infraero tem plano de internacionalização, começando por países de língua portuguesa, esperando atuar com a Embraer.

    Uma questão é se a Petrobrás voltará a investir na África e também se retomará importações de óleo africano, operações que poderiam dar um impulso nas relações económicas do Brasil com o continente.

    Ao mesmo tempo, houve alertas para pequenas e médias empresas sobre golpes que são comuns na região. Grupos apresentam grandes negociações de importações ou exportações, pedem um depósito em dinheiro e no final desparecem. Daí a importância de buscar o setor comercial nas embaixadas, para ter também melhor informação.

    A volta à África exige assim se repensar a presença da promoção comercial. Muitos postos do setor comercial nas embaixadas estão no limite. Uma embaixadora contou que atua sozinha, incluindo abrir a porta e servir o cafezinho. Outro diplomata comparou a situação a um jogador chutar o escanteio e correr para cabecear para o gol. Cortar postos diplomáticos na Europa e abrir novos na África poderia ilustrar uma real prioridade para a região.

    A ideia é de o Brasil retomar as vendas de produtos nacionais e ampliar as compras de produtos africanos num curto intervalo de tempo. E é preciso ir além de discursos de boas intenções. O cheque do Brasil no continente é pequeno, comparado ao da China, EUA, Europa, Turquia, Emirados Árabes, India, todos com presença forte na África. Como sublinhou João Bosco, presidente do Instituto Africa-Brasil, é necessário acelerar discussões com os próprios africanos rapidamente.

    NOVOS ADIDOS AGRÍCOLAS

    O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Roberto Perosa, informou em Joanesburgo que deverão ser criados 10 novos cargos de adidos agrícolas no ano que vem, focando na abertura de mercados e desmonte de questões burocráticas que afetam exportações agrícolas, por exemplo. Os postos serão abertos na Argélia, Nigéria, Chile, Emirados Árabes Unidos, um segundo nos EUA em Los Angeles, Turquia, Irã, Bangladesh, Filipinas e Malásia. O número de adidos deve passar para 39 no ano que vem e alcançar 60 até o final do mandato de Lula, pelo que está no papel.

    Isso é ainda mais importante no acompanhamento na África, onde a China trabalha para produzir 10 milhões de hectares de soja, como nota o presidente da Apex.


    * É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

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    vale a leitura