Nota assinada por Rocha, que torna sem efeito exonerações, mostra a bagunça política e ortográfica no Palácio

Nesta terça-feira, 24, a primeira sensação ao ler o noticiário do governo acreano foi de déjà-vu [do Francês: já visto]. Por um momento, o acreano sentiu-se no início da década de 1990, quando o então governador Edmundo Pinto viajava a Brasília ou a São Paulo e seu vice, Romildo Magalhães, exonerava parte da equipe e nomeava os seus.

O Acre de então e vivia dias de muita instabilidade política e o desfecho, quem não viu, pelo menos já ouviu falar sobre…

Quase 30 anos após, os dias de incertezas parecem ter voltado ao Acre: deputados da base derrubando por unanimidade os vetos do governador, exonerações de 340 indicações de parlamentares, governo com dois líderes [se digladiando] dentro da Assembleia Legislativa…

A casinha parece ter ficado pequena e a panaceia não encontra solução alguma para tamanha bazófia.

Mas, não bastassem as lambanças discricionárias, o chefe do Poder Executivo em exercício, Wherles Rocha, resolveu emitir uma nota oficial para explicar os critérios utilizados para tornar sem efeito parte das 340 exonerações. Teria sido melhor nem tentar pôr em prática as poucas aulas vistas no curso de Jornalismo quando ainda era um acadêmico da Ufac.

Além das contradições de uma nota confusa, que, em dado momento critica e culpa os governos passados e em outro enaltece a erradicação da aftosa e elogia as políticas implementadas por essas gestões, há ainda erros bizarros de português.

Às 13h20, a missão de compartilhar – em um grupo de WhatsApp com quase 200 jornalistas – a nota esquizofrênica foi dada a um membro da equipe da Secretaria de Comunicação do Estado.

Não teria como passar despercebido que o “O Governo do Estado do Acre, através do governador em exercício Wherles Rocha, vem à público”, com uma crase onde não existe.

Mas, o desfecho do informe oficial é ainda pior:

“Por fim, esclareço que diante da situação fática, não poderia esperar que a agropecuária acreana fosse prejudicada. Ou ainda sustentar uma medida administrativa em detrimento da economia para satisfazer aqueles que apostam no quento pior melhor”.

Apesar de ter compartilhado, não se pode culpar o rapaz que agiu na boa-fé de repassar a informação de seu chefe. Pior do que isso seria o governo afirmar que a nota do governador em exercício fora redigida por um estagiário. O amadorismo ficaria mais latente.

Veja a nota

NOTA DE ESCLARECIMENTO

O Governo do Estado do Acre, através do governador em exercício Wherles Rocha, vem à público esclarecer que o decreto que tornou sem efeito parte das exonerações anteriormente realizada pelo governador Gladson Cameli atende a critérios técnicos que visam atender e preparar o setor agropecuário e a Secretaria de Produção e Agronegócio (SEPA) às exigências fiscalizatórias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Está agendada para novembro, de acordo com calendário do MAPA, mais uma etapa de vacinação para todo rebanho bovino e bubalino no Acre. Para cumprir essa agenda, é imprescindível o planejamento e execução realizados por esses médicos, o não cumprimento significaria um retrocesso e um prejuízo que iria orbitar na casa de milhões de reais.

Hoje, o setor possui mais de 3,3 milhões de cabeças de gado, um patrimônio de mais de 4 bilhões reais, sendo o terceiro setor que mais movimenta o PIB do estado, gerando mais de 75 mil empregos diretos.

As exonerações mencionadas no primeiro decreto iriam alcançar os médicos veterinários que trabalham para que o nosso estado alcançasse o status de área livre de aftosa sem vacinação.

O Estado, em governos anteriores, não se preocupou em realizar concurso público para atender a demanda por médicos veterinários, sendo necessário agora contratá-los através de Cargos em Comissão. Apesar disso, o Acre vem sendo reconhecido internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde Animal como zona livre de aftosa há quase 14 anos em virtude dos resultados exitosos de suas políticas de defesa e inspeção animal. Algo que para ser mantido, faz-se necessários termos profissionais da área veterinária. Assim, ao menos que essa demanda (técnica mais que política) seja sanada, é prejudicial desguarnecer a SEPA desses profissionais.

Por fim, esclareço que diante da situação fática, não poderia esperar que a agropecuária acreana fosse prejudicada. Ou ainda sustentar uma medida administrativa em detrimento da economia para satisfazer aqueles que apostam no quento pior melhor. Pensar no povo é agir com responsabilidade. Que se possa fazer concurso público para suprir a demanda de médicos veterinários, após poderemos tomar medidas políticas que forem necessárias, mas sem penalizar a população e setores que movimentam nossa economia. Assim, quem sabe um dia, possamos sair da economia do contracheque.

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