Mordomias do governo, 45 anos depois do Estadão, já não causam escândalo

Por Ricardo Kotscho

Faz bastante tempo. Em 1976, o diretor de redação do velho Estadão, Fernando Pedreira, me passou um exemplar do New York Times com uma extensa reportagem do correspondente do jornal em Moscou sobre a boa vida e os privilégios dos superfuncionários do governo comunista na hoje extinta União Soviética.

“Aqui no Brasil está acontecendo a mesma coisa, os mesmos abusos, talvez até pior. Levanta isso pra mim, não tem pressa”, encarregou-me o chefe, como se fosse uma coisa simples, em plena ditadura militar.

Foi assim que nasceu a série de reportagens do Estadão sobre as mordomias no governo militar, que deu um escândalo danado quando foi publicada ao longo de uma semana, durante o governo de Ernesto Geisel, que chamou o diretor responsável do jornal, Júlio Mesquita Neto, a Brasília.

Não era para menos. Tratava-se da primeira matéria sobre os intestinos do regime, assim que os militares tiraram a censura prévia do jornal, um amplo levantamento que contou com a colaboração da enorme rede de sucursais e correspondentes do jornal, criada e dirigida pelo brilhante jornalista Raul Martins Bastos.

“Mordomia” era a rubrica do Diário Oficial com a lista de compras de comes, bebes e outras benfeitorias para os palácios do governo, o ponto de partida para a apuração da matéria.

Me lembrei disso hoje ao receber um meme do meu sobrinho Gustavo Kotscho com o título “Farra do Supermercado”, mostrando algumas despesas de mordomias do atual governo e perguntei para ele de onde tinha tirado aquilo. Logo depois, meu irmão, o repórter fotográfico Ronaldo Kotscho, me mandou o link com a lista completa. A família trabalha unida.

Está tudo numa preciosa reportagem de Rafaela Lima, do portal Metrópoles (“Mais de R$ 1,8 bilhão em compras: carrinho do governo federal tem de sagu a chicletes”), que levantou os dados no “Portal de Compras atualizado pelo Ministério da Economia”, a versão moderna do velho Diário Oficial, onde garimpei as primeiras informações para a série do Estadão, exatos 45 anos atrás.

Só que, desta vez, não houve escândalo nenhum. Como de resto acontece com tudo neste governo, também as mordomias foram normalizadas, e ninguém se choca mais com alguns gastos, digamos, extravagantes, que registram um aumento de 20% em relação a 2019 nas despesas com alimentação de todos os órgãos do Executivo.

Alguns exemplos::

* R$ 2,2 milhões em chicletes

* R$ 2,2 milhões em uva-passa

* R$ 14 milhões em molho shoyo, molho inglês e molho de pimenta

* R$ 32,7 milhões em pizzas e refrigerantes

* R$ 50,1 milhões em biscoitos

* R$ 6,1 milhões em frutos do mar

* R$ 14,5 milhões em café

* RS 16, 5 milhões em batata frita

* R$ 12,4 milhões em ervilhas

* R$ 7,1 milhões em bacon defumado

* R$ 45,2 milhões em embutidos

* R$ 89, 6 milhões em carne bovina

* R$ 123, 2 milhões em sobremesas diversas

* R$ 31,5 milhões em leite condensado, que nunca pode faltar na mesa do presidente.

Publicada em ordem alfabética, a lista do Painel de Compras do Ministério da Economia, que pode ser acessado na internet, é imensa, tem de tudo do bom e do melhor. Me deu até fome.

O campeão de despesas, como era de se esperar, é o Ministério da Defesa, com R$ 632 milhões em alimentação e mais de R$ 2,5 milhões em vinhos.

Claro que essas despesas incluem também a alimentação da criadagem que serve as excelências e outros funcionários do governo, além dos convidados da corte.

Só no Alvorada, são 43 funcionários (cozinheiros, chefes de cozinha e garçons) para atender o casal presidencial e a filha Laura, sem contar o batalhão de seguranças e a bicharada dos jardins do palácio, que também precisa comer.

Comparando as mordomias de ontem e de hoje, os superfuncionários dos governos militares eram bem mais modestos, mas foi ali que tudo começou, no tempo em que havia censura à imprensa.

Em 1976, a série do Estadão ganhou o Premio Esso de Reportagem. Hoje, ninguém mais liga para isso. As mordomias estão disseminadas nos três poderes e qualquer prefeitura do interior tem as suas, tudo dentro da lei, é claro.

Vida que segue.

Veja publicação original da matéria aqui.

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