Por Nena Mubárac

Hoje, dia 19 de abril, enquanto tento escrever sobre minha mãe, ela está, sozinha, numa UTI (como exige esse cruel momento de pandemia), apenas esperando que se cumpra o protocolo médico e, enfim, chegue o momento que o Deus que ela sempre creu e confiou, finalmente irá abrir as portas de sua nova morada e convidá-la a entrar.

Ela, finalmente, estará no paraíso, onde sempre orou para merecer estar.

Foi um AVC hemorrágico de extensão gravíssima, que a apanhou de supetão, no último sábado, inundando seu cérebro de sangue e a levando a esse quadro considerado irreversível pela medicina.

Desde então, nós, suas cinco filhas, vindas às pressas de diferentes cidades, estamos aqui, de volta pra casa, novamente reunidas em torno dela – como há muito ela desejava, mas que o dia a dia de cada uma, por muitas vezes, não nos permitiu tornar realidade.

Estamos aqui, unidas, mesmo imobilizadas por uma espera desesperadora e agarradas num tênue fio de esperança, que só a fé que ela nos ensinou a ter desde criança, nos faz alimentar.

Minha mãe nasceu pobre de marré-de-si, no Seringal Andirá, em 1932. Jovem, já em Rio Branco, continuava pobre, mas era tão linda e luminosa como aquelas estrelas de cinema, da Hollywood dos anos 40 e 50.

Minha mãe, linda que era, foi Rainha dos Estudantes, época em que também se apaixonou por nosso pai, um tímido locutor da antiga Rádio Difusora, mas de voz potente e aveludada.

Aos 28 anos, já era, então, a mãe de suas cinco filhas. E, como cabe a praticamente todas as mulheres, teve que cuidar da casa, da família, cozinhar, costurar… e, ainda, dar aulas para nos ajudar a sobreviver.

Aos 29 anos, todo esse esforço resultou num “derrame cerebral”, sendo obrigada a buscar tratamento em São Paulo.

Deixou Gladys, sua filha mais nova, então com seis meses, para ser cuidada pela avó (a mãe de minha mãe), em Santos.

Suas outras quatro filhas tiveram que ficar aos cuidados do casal de amigos Aragão (Adalberto) e Célia.

Minha irmã mais velha, Sônia, então com apenas sete anos de idade, lembra de ir ao quintal da nossa casa, para chorar e pedir a Deus para não levar a “sua mãe”. Ele a atendeu! Deu à minha irmã e a nós, então, mais 60 anos de convivência com nossa mãe.

Minha mãe soube ser firme conosco, mas (como cabe à quase maioria dos filhos), nem sempre demos a ela as respostas que esperava de nós.

Nem por isso vou usar de modéstia para dizer que também demos muito orgulho e alegrias à ela (mesmo sendo quase inevitável que, muitas vezes, para dar alegrias e orgulho aos pais, os filhos precisem, simplesmente, existir!).

Minha mãe nos levava, aos domingos, à Escola Dominical. Fazia com que nos arrumássemos para ir à Igreja e exigia de nós dedicação à doutrina cristã.

Muitas vezes, rebelde, fui à Igreja sob ameaça de perder isso ou aquilo. Mas fui! E agradeço a ela por sua intransigência, pois foi ouvindo (mesmo obrigada) os hinos e os ensinamentos bíblicos, que alicercei muito do bem e do bom que se integraram e foram construindo o meu caráter.

Minha mãe fez amigos para toda uma vida. Mas, era com suas amigas desde a mais tenra idade, como: Diza Tinoco, Wanda Jardim, Olda Cerete, Flávia Lavocat, Célia Aragão, Maria Luíza e tantas outras mulheres maravilhosas (com quem também, nós, suas filhas, pudemos conviver), que ela pode sentir a plenitude, a vividez, a alegria e o amor que emanam de uma verdadeira amizade.

Minha mãe sempre se vestiu com elegância. Seu porte altivo, tão natural quanto despretensioso, é também uma marca que a identifica junto aos que tem o privilégio de conhecê-la.

Minha mãe, ao ficar viúva de nosso pai, aos 60 anos de idade, guardou para sempre em seu coração o amor que os uniu em quase 40 anos decasados, só se permitindo, desde então, a viver a intensidade do amor maternal e fraterno.

Minha mãe, que no seu Facebook, tanto gostava de escrever e de dedicar palavras amorosas e poéticas aos que tocavam o seu coração de forma especial, agora está em silêncio…

Disse-nos uma médica que a está cuidando, que ela está como que dormindo…

Minha mãe está dormindo… Talvez não acorde nunca mais para nos fazer o café, nos dar bom dia ou, simplesmente, estar aqui.

Nós, ainda acordadas nesse pesadelo, arrumamos sua cama, guardamos suas coisas e separamos uma roupa que ela tanto gosta, para que ela, assim como exigia de nós, chegue arrumada e feliz diante do seu Deus. 

Por tudo que ela é, sei que o Senhor reconhecerá minha mãe, assim que ela chegar ao Céu. E, lá, quando a porta se fechar, saberemos que ela estará bem e em paz. Minha mãe estará em casa!

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará!” (trecho do Salmo 91, o preferido de minha mãe)

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