Mensagens mostram como governo perdeu chance de garantir compra de vacinas

Gabriel Stargardter, da Reuters, do Rio de Janeiro

Semanas depois que outros países latino-americanos começaram a vacinar seus cidadãos contra o coronavírus, o Brasil finalmente aplicou sua primeira injeção em 17 de janeiro, usando a vacina chinesa da Sinovac Biotech, a CoronaVac.

Com eficácia de pouco mais de 50%, a vacina chinesa não era a primeira escolha do governo. Mas, por enquanto, é basicamente o que tem disponível.

A principal estratégia do país – fabricar 100 milhões de doses da vacina da AstraZeneca localmente – foi prejudicada por repetidos atrasos. Esse esforço não deve render um produto acabado até março. Na semana passada, a AstraZeneca enviou 2 milhões de doses de emergência para ajudar o Brasil. E o Ministério da Saúde ainda não assinou acordos com outros fabricantes de vacinas.

Os atrasos deixam 210 milhões de habitantes do país vulneráveis a um dos piores surtos de coronavírus do mundo. O Brasil registrou mais de 218.000 mortes por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, e vacinou menos de 0,5% de sua população.

A campanha de vacinação é apenas o mais recente deslize do Ministério da Saúde, que o presidente Jair Bolsonaro aparelhou com militares da ativa e da reserva com pouca experiência em saúde pública. Esses recém-chegados não entenderam a rapidez com que precisavam agir para garantir abastecimento em meio à acirrada competição global e a importância de se proteger fazendo acordos com vários fabricantes, de acordo com entrevistas com mais de uma dezena de autoridades, executivos farmacêuticos, diplomatas e especialistas em saúde pública.

A hesitação do ministério fez com que uma oportunidade fosse perdida em agosto de solicitar 70 milhões de doses de uma vacina feita pela Pfizer e BioNTech, com entrega a partir de dezembro, disse a Pfizer em um comunicado em 7 de janeiro.

A Reuters também viu um registro de conversas internas do Ministério da Saúde no WhatsApp, contendo milhares de mensagens trocadas entre autoridades do alto escalão no ano passado, quando a corrida global por vacinas estava esquentando. As mensagens revelam que a nova equipe priorizou a hidroxicloroquina e a cloroquina, drogas contra malária defendidas por Bolsonaro como tratamentos para a Covid-19, apesar da falta de evidências científicas de que funcionem.

“Não havia foco suficiente nas vacinas e faltou visão técnica”, disse o ex-ministro da Saúde Nelson Teich à Reuters. Teich pediu demissão em maio por causa de um desentendimento com Bolsonaro sobre a estratégia da hidroxicloroquina.

A Reuters enviou uma lista detalhada de perguntas sobre esta matéria ao Palácio do Planalto, que encaminhou as questões ao Ministério da Saúde. O ministério não respondeu.

Bolsonaro – que contraiu coronavírus no ano passado e diz que não vai tomar nenhuma vacina contra Covid-19– defendeu o programa de vacinação de seu governo. “Ninguém faria melhor, com todo o respeito, do que o meu governo está fazendo”, disse ele em uma entrevista para a TV Bandeirantes em 15 de janeiro.

Embora muitos países tenham tido dificuldades para obter vacinas enquanto os fabricantes se esforçam para atender à demanda global, o Brasil estava melhor posicionado do que muitos. O país tem uma longa história de campanhas de vacinação bem-sucedidas e suas instalações de produção financiadas pelo Estado podem produzir vacinas em grande escala.

O governo federal desperdiçou essas vantagens, disse a professora brasileira da Harvard T.H. Chan School of Public Health, em Boston, Márcia Castro.

“É uma sucessão de erros desde o início da pandemia”, afirmou ela. “E, infelizmente, estamos medindo esses erros pelo número de mortes.”

Veja a matéria na CNN.

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