‘Me tornei mecânica e hoje ajudo outras mulheres a não serem enganadas’

Daniella Lima, em depoimento a EdrRodrigues, Colaboração para Universa

“Me chamo Daniella Maria Lima, tenho 43 anos, sou divorciada e tenho três filhos. Nasci em São Luís (MA) e desde criança morei em várias cidades do Brasil. Minha história começa ao lado do meu pai, que era vendedor de máquinas pesadas, como tratores. Minha mãe era professora de artes e largou sua carreira para acompanhar meu pai e cuidar de mim e de minhas duas irmãs.

Quando eu era criança, meus pais queriam que eu seguisse uma carreira tradicional como a de advogada. Estava tudo bem eles quererem o que achavam que seria o melhor para mim, só que eu nunca me interessei por esse ‘convencional’.

Eu sonhava em ser aeromoça. Até que, aos 15 anos, fomos morar em Rio Branco, no Acre. Morei lá até os meus 42 anos. Após um ano morando no Acre, meu pai abandonou a família e foi para o Pará viver com outra mulher. Foi um baque para nós todas.

Eu, com 16 anos, tendo que procurar emprego para sustentar a mim, minha mãe e minhas duas irmãs pequenas. Ali eu entendi a minha habilidade em me adaptar às mudanças e encarar um mundo novo.

Passamos fome, fomos despejadas da casa que era alugada, sem ter notícias do meu pai. Ele simplesmente sumiu por 15 anos. Mas como acredito que nada é por acaso, essa dor foi transformada em vontade de vencer. Naquele momento, assumi o papel de chefe de família, o que me tornou uma mulher forte.

“Sempre resolvi tudo sozinha”

Minha relação com a mecânica começou por eu ter um carro usado — e bem usado — há uns 10 anos. Como eu sempre fui a pessoa que resolvia tudo sozinha, então eu quem levava meu carro na oficina.

Me incomodava entrar naqueles lugares de homens e me incomodava mais ainda os olhares que me constrangiam. Mas até ali dava para ir levando. Eu sentia que estava sendo enganada em muitas ocasiões. Como não entendia nada de mecânica, deixava para lá.

Uma vez, meu carro estava ruim de passar marchas. Levei para ver o que era. O mecânico havia dito que era o kit de embreagem, lembro que o orçamento tinha dado próximo dos R$ 1 mil. Pedi para trocar.

Com uma semana, meu carro ficou tão sem força que quase não consegui chegar na oficina. Ali o mecânico me disse que teria que trocar o tal kit de embreagem. Eu falei que tinha trocado havia uma semana e gastado horrores. O mecânico me mostrou que o profissional anterior havia trocado apenas o cabo de embreagem e esse cabo não passava de R$ 100. Ou seja, fui enganada e roubada.

Fiquei tão indignada que chorei de raiva. Como meu carro não podia mais andar, acabei pagando de novo pelo mesmo serviço e depois fui resolver com a empresa, mas não tive sucesso porque eles alegaram que eu havia mandado outro mecânico mexer na parte que estava ainda na garantia.

Nesse dia eu pensei: vou procurar o Senai para fazer um curso de mecânica, pois vou querer entender todas aquelas peças. Me matriculei em 2011 para fazer o curso ciclo Otto de motores para veículos leves.

Na primeira semana, quase desisti do curso. Primeiro, porque tinha uns 28 ou 29 alunos e só eu de mulher. Quando entrei na sala e vi aquela macharada, me bateu um certo desespero. ‘O que eu estou fazendo aqui?’, pensei. Recebia olhares, como se me dissessem: ‘O que essa mulher quer aqui?’.

O curso era de três meses. O primeiro mês passou sem que eu tivesse feito uma amizade sequer. Ficava na minha e, quando tinha a divisão de grupos para fazer alguns exercícios práticos, o professor era quem me direcionava para algum grupo.

Era difícil socializar naquele ambiente, mas continuei estudando. Até que, na primeira prova teórica, fui a número 1 e isso, para mim, valeu por todo o curso. Depois do resultado da prova, tudo melhorou. Parece que eu sendo mulher teria que provar algo para merecer estar ali, e de fato eu tinha que estudar mais para me destacar naquele ambiente masculino.

Certa vez o professor de outro curso que fiz de elétrica automotiva disse que algumas mulheres começavam o curso, mas poucas concluíam. Aquelas palavras se tornaram meu combustível para terminar mais um dos inúmeros cursos e sair decidida a trabalhar o setor das oficinas mecânicas.

Ainda dentro da sala de aula, começaria meu sonho de abrir uma oficina mecânica onde eu pudesse não só consertar o carro delas, mas que eu as ajudasse a entender os cuidados que realmente os carros delas precisavam. Eu sempre achei que o rolê da educação dentro da mecânica seria o melhor caminho para as mulheres se protegerem de mecânicos desonestos.

Arrumei estágio, comecei a trabalhar em uma oficina, mas aquela vontade de ajudar as mulheres persistia. Em certo momento algo despertou em mim: eu precisava ter a minha própria oficina e colocar outras mulheres para aprender.

Foi aí que sentei com minhas irmãs e minha mãe e falei das dificuldades que estava enfrentando e que gostaria de ter a minha própria oficina. Nem que fosse um local que tivesse só uma porta para atender a um carro. Elas disseram que me ajudariam, mas pediram que eu estagiasse mais um pouco lá para entender do negócio.

Assim fiz e fiquei mais de ano nessa oficina. Enquanto estava lá, minhas irmãs me ajudavam comprando os meus materiais de trabalho, como ferramentas e equipamentos para quando eu saísse do estágio já tivesse uma pequena estrutura para começar.

Em 2012, eu saí e comecei a atender as amigas em domicílio. Peguei o carro da minha mãe emprestado, adesivei ele todinho, e saía atendendo as mulheres. Trocava óleo na garagem delas, trocava lâmpadas, pastilha de freio etc..

O engraçado hoje é que eu rio das ligações que recebia, mas na época ficava irada. Coisas machistas do tipo: homens me ligavam e me perguntavam quanto era para trocar o óleo dele em casa. Hoje, tiro tudo isso como aprendizado necessário para minha evolução enquanto profissional e ser humano.

Depois de seis meses rodando no carro da minha mãe emprestado, começaram a surgir mais trabalhos que necessitavam eu ter um estabelecimento fixo. Foi aí que chamei as mulheres da família mais uma vez. Mostrei que estava tendo resultado e que precisava expandir o negócio, alugar um espaço e elas como sempre me ajudaram.

Alugamos um ponto comercial bem pequeno, cabia dois carros e minha mãe foi trabalhar comigo fazendo as ordens de serviço enquanto eu atendia algum cliente.

Veja o texto completo aqui.

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