Filha de Chico Mendes defende os povos da floresta e a preservação da Amazônia

Com o exemplo em casa, não tinha como seguir outro caminho’, diz Ângela Mendes

 Por Felipe Corona

A ambientalista Ângela Mendes tinha 19 anos em 1988, ano em que seu pai foi assassinado no quintal de casa em Xapuri, no Acre, na frente da mulher e dos outros dois filhos. 

Filha mais velha do seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Ângela nasceu no seringal Cachoeira e abraçou a luta do pai na defesa dos povos da floresta e da preservação da Amazônia.

Empreendedora social da organização internacional Ashoka e atual presidenta do Comitê Chico Mendes, quando era pequena Ângela foi adotada por um casal de tios. “Sou do sistema chamado de adoção à brasileira”, explica. “Isso acontece quando os pais não têm condições de criar uma criança e ela vai morar com parentes. Eu nasci em um seringal e adoecia bastante. Esse casal de tios cuidou de mim. Como não consegui desapegar, meu pai e mãe resolveram que eu deveria ficar na companhia deles.”

Ainda que tenha passado boa parte da infância e da juventude na cidade, longe do contexto de resistência, o destino que Ângela cumpre agora com total envolvimento — lutar por justiça social e ambiental — foi moldado na experiência familiar. “Com o exemplo que tinha em casa, eu não tinha como seguir outro caminho”, diz. “Me inspiro muito na luta que meu pai liderou nas décadas de 1970 e 1980. Toda a revolução que fez, saiu das matas de Xapuri para o mundo.”

“Nosso compromisso é com a vida. As ações são locais, mas o impacto é global. Meu pai tem uma frase, e como pessoa transcendental, ficou: eu estava lutando para salvar a seringueira. Depois percebi que estava lutando para salvar a Amazônia. Por fim, estou lutando pela humanidade” (Ângela Mendes, ambientalista)

Ângela falou ao Expresso na Perifa e os principais pontos da conversa estão transcritos a seguir.

FLORESTA
“A Amazônia pode não ser o pulmão do mundo, mas é importante reguladora para outras coisas, além de serviços ecossistêmicos essenciais, com forte impacto na produção de alimentos. A gente também não deixa de estar engajado na luta pelos outros biomas: Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, que também são devastados ano a ano.”

ATIVISMO VITAL
“A região Norte é uma região excluída e invisibilizada do ponto de vista do acesso às políticas públicas. Nossa luta é mais árdua por isso. Não basta lutar, a gente precisa garantir o acesso e a proposição dessas políticas públicas. Tudo pra gente aqui no Norte é mais difícil. Por isso exige um ativismo, uma militância no dia a dia”.

POPULAÇÕES TRADICIONAIS
“A luta das populações tradicionais é muito mais árdua. É uma luta de resistência, a partir da retirada de muitos direitos, do desmantelamento das políticas públicas. O maior exemplo disso foi na pandemia. Como a região Norte foi tratada nesse período, como os povos indígenas foram tratados”

MILITÂNCIA RECENTE
“Minha militância é relativamente recente, tem cerca de uma década. Nasci no seringal e vim para a cidade. Por isso, cresci longe desse contexto e da luta. Só quando adolescente me aproximei e, mais ainda, quando meu pai foi assassinado. Foi aí que eu senti a necessidade de estar mais próxima e entender esse movimento que ele liderava. Comecei a militar, estar nos mesmos espaços que ele. Fui trabalhar no Centro dos Trabalhadores da Amazônia, uma das ONGs formadas por meu pai. A minha intenção era me aproximar de histórias e pessoas que estiveram ao lado dele. Minha história foi construída com quem esteve de fato e fez parte da luta ao lado dele.”

ESTÁ MAIS DIFÍCIL PROTEGER A FLORESTA
“Isso é um discurso geral, onde ficou muito marcado aquela frase de ‘passar a boiada’. Fixou e deu o impulso necessário aos criminosos e infratores ambientais cada vez mais ousados nas suas ações. O Acre tem um potencial econômico muito grande na madeira. Temos uma cobertura vegetal imensa. Isso atrai muitos olhares, ainda mais com omissão do ICMBio.”

Políticas públicas no governo Bolsonaro vão para a lata do lixo. Aquelas que têm intensa mobilização popular não têm chance. Não existe nenhum ambiente de proposição. Os movimentos que existem são de garantir o que já foi feito. Não deixar que mais políticas públicas, criadas e construídas, tenham o mesmo destino

FUTURO PREOCUPANTE
“Esta gestão passa por um caminho de cortes orçamentários, nos desmontes de proteção ambiental, o enfraquecimento dos órgãos ambientais. Não existe cenários de construção. Infelizmente vamos ficar vendo isso acontecer até que tomemos consciência eleitoral e decidamos mudar o rumo desse país. É um ano propício para rever esses princípios e promover uma mudança estrutural por meio do nosso voto”.

SOBRE NÃO SE DEIXAR ABATER
“Tem um amigo do meu pai, o Gumercindo, que andou muito com ele. Era agrônomo e hoje advogado. Ele sempre fala que ‘o Chico morto fez muito. Se ele tivesse vivo teria feito muito, muito mais’. Ele fez muito em vida, mas isso só virou ações depois que foi assassinado. A maior luta dele foi pelo direito ao território, no caso, as reservas extrativistas (…). Ele não viu a criação. Lutou muito, criou todo o ambiente, porém não viu a criação de fato da primeira reserva extrativista. Hoje, o número de reservas extrativistas e territórios que estão nessa modelagem, protegem 13% de toda a Amazônia. Vivo, ele estaria pensando 100 anos adiante.”

NAS MÃOS DA JUVENTUDE
“Em 1988 ele escreveu uma carta aos jovens do futuro, sobre a revolução que os jovens fariam em 2020. E o que a gente vê são os jovens em intenso movimento, interação; fazendo e transformando. Isso me inspira e inspira os jovens no mundo todo. Isso também o inspiraria se vivo estivesse.”

ELEIÇÕES 2022
“Espero que o parlamento também seja mudado, já que a maioria da bancada é formada por ruralistas e latifundiários que não têm compromissos com causas sociais, ambientais ou da Amazônia. A gente espera que os próximos políticos tenham mais empenho com as causas da vida e da floresta. Com o bem-viver dessas populações.”

SEM AMEAÇAS
“Alguns fatores contribuem para que eu não tenha sofrido nenhuma ameaça direta. Durante os governos de esquerda no Acre, os latifundiários, madeireiros e grandes produtores rurais tinham diálogo com outros segmentos, diálogos costurados por um projeto de governo que fazia essa conciliação. Tivemos conflitos muito pontuais. Minha atuação ficou mais intensa durante um governo de direita, mais com o fator pandemia, que nos fez ficar mais reclusos.”

MEMÓRIA DO PAI
“Ser filha do meu pai realmente exige compromisso e responsabilidade do legado que ele deixou. Não é difícil ser filha dele, porque deixou muita coisa feita, construída. Muitos conceitos, muitas concepções já bem adiantadas. Era um homem visionário muito à frente do tempo dele. Sou muito inspirada por tudo o que fez.”

Veja a publicação original no Estadão.

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